Chablis vira fenômeno de vendas no Brasil, e produtores dizem que avanço é só o começo

Região francesa vê potencial para manter ritmo de expansão, impulsionada pela busca por vinhos brancos e frescos e por consumidores mais jovens, e produtores apostam em rótulos de entrada, restaurantes e sommeliers para ampliar presença em um mercado que consideram ainda em construção

Chablis vira fenômeno de vendas no Brasil, e produtores dizem que avanço é só o começo
Por Daniel Buarque
PUBLICIDADE

Bloomberg Línea — O nome de uma região francesa tem aparecido com frequência cada vez maior nas análises sobre a evolução do mercado brasileiro de vinhos. Nos últimos dois anos, as vendas de vinhos de Chablis para o Brasil subiram 70% em volume e 75% em valor, um ritmo que fez o país ganhar força entre os maiores importadores mundiais da denominação francesa.

O salto chegou a ser chamado entre analistas de “Efeito Chablis” e chamou a atenção da própria organização que representa a região.

PUBLICIDADE

“Identificamos o Brasil como o país em que mais nos desenvolvemos e que tem maior potencial. É um crescimento espetacular em termos de volume. Vemos efetivamente um mercado que cresce muito, e se torna efetivamente o país onde há maior desenvolvimento da marca”, disse Paul Espitalié, copresidente da Chablis Commission do Bourgogne Wine Board (BIVB) e diretor-geral da Maison Simonnet-Febvre em entrevista à Bloomberg Línea.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


O mesmo fenômeno aparece na avaliação de outro produtor tradicional da região. A Maison Joseph Drouhin, fundada em 1880 e hoje na quarta geração da família fundadora, com vinhedos em praticamente toda a Borgonha, incluindo Chablis, Côte de Nuits, Côte de Beaune, Côte Chalonnaise e Mâconnais, também aponta o Brasil como um dos motores de expansão da região.

PUBLICIDADE

“O país é um mercado importante para nós. Está entre os 15 maiores mercados do mundo. E é um dos países que puxam o nosso crescimento”, disse à Bloomberg Línea Christophe Thomas, diretor da vinícola, durante um jantar organizado pela importadora Mistral em São Paulo.

Segundo ele, a relação da maison com o país é antiga, iniciada ainda no fim da década de 1960, e reforçada por uma afinidade cultural que ele associa a um conhecimento raro sobre Chablies e a Borgonha entre os brasileiros.

Mais do que o crescimento já registrado até agora, a região vê no Brasil uma promessa ainda maior para o futuro, segundo Paoline Vigneron, responsável pelo marketing da região. “O Brasil segue sendo um mercado em construção e evoluiu muito, mas ainda não é nosso maior mercado”, disse à Bloomberg Línea. Vinhos da denominação são vendidos especialmente para mercados consolidados como Reino Unido, Estados Unidos, Austrália e Canadá.

PUBLICIDADE

Embora o Brasil represente menos de 1% das exportações totais da Borgonha (onde fica Chablis), o país é o principal destino dos vinhos da região na América do Sul, concentrando 89% do volume e 79% da receita no continente.

Segundo Espitalié, isso indica que o ciclo de crescimento no Brasil ainda não deu sinais de acomodação. “O crescimento de venda é muito importante e queremos continuar em uma progressão constante. 2026 começou com uma boa base e queremos continuar crescendo. ainda não chegamos ao plateau. Este ano vai ser melhor que 2025”, disse.

O motor mais citado por Espitalié para explicar o avanço no Brasil é a relação entre custo e benefício encontrado nos vinhos da região. Por mais que os vinhos de Chablis dificilmente cheguem ao Brasil por menos de R$ 250 (muito acima do que a média das garrafas mais vendidas no país), ele alega que é uma forma simples de o consumidor saber que vai encontrar um produto de alta qualidade.

PUBLICIDADE

“É importante destacar que representamos uma melhor relação entre qualidade e preço do que a maioria do mercado. O vinho de Chablis se mostra mais interessante nesse contexto, pois mesmo os vinhos de entrada, os Petit Chablis já são muito bons e chamam a atenção pela qualidade”, disse.

A estratégia de Vigneron confirma essa leitura pelo lado comercial. “Temos uma estratégia global de começar a entrar no mercado com Chablis e Petit Chablis que são mais baratos e que ajudam a promover nossa marca e nosso vinho. Fazemos vários eventos e degustações que ajudam a tocar novos consumidores”, contou. Ela chamou a acessibilidade de “fundamental” para a construção da marca no país.

Leia também: Vinho premium ganha espaço no Brasil com preferência por ‘beber menos e melhor’

Esse reconhecimento é parte da construção da marca global da região francesa, que ajuda a promover o desempenho dos vinhos Chablis no Brasil, se diferenciando de outros nomes franceses. “É mais fácil pedir uma taça de Chablis do que de outros nomes importantes da França e da Borgonha, isso ajuda na promoção internacional da marca”, disse.

Segundo Vigneron, a comunicação da região foca justamente essa facilidade em meio a um mercado que muitos consumidores acham complicado. “Nossa mensagem principal é que Chablis pode ser bebido em todas as ocasiões, é fácil e acessível, fácil de beber e fácil de entender”, disse.

Espitalié explicou que essa força de marca já é antiga e ultrapassa fronteiras. “A marca Chablis é muito conhecida desde muito tempo. Nos EUA, é sinônimo de vinho branco e seco. No imaginário do consumidor, é assim que ganhamos mercado. Somos uma marca muito forte que vale para todos os níveis de apelação”, afirmou.

As características sensoriais de Chablis também entram no discurso comercial da região, embora de forma direta, sem se sobrepor à conversa sobre mercado. “No nível de venda de Chablis no Brasil, percebemos que há uma busca por um estilo de vinho mais fresco e com personalidade, que o Chablis representa muito bem”, disse Espitalié.

Ele atribuiu essa identidade ao solo da região. “Temos um terroir particular e com calcário que dá aos nossos vinhos um estilo aromático e um sabor particular que reforça o frescor. falamos muito de um vinho mineral, mas que é um pouco salino na boca, que deixa ele mais agradável e que reforça o estilo elegante. a questão sensorial é importante também para o mercado”, disse.

Leia também: Além do Romanée-Conti: Borgonha quer crescer no Brasil com regiões menos famosas

O crescimento de Chablis no Brasil também acompanha uma mudança de hábito mais ampla entre consumidores brasileiros de vinho. “Constatamos nos últimos anos que o consumidor brasileiro é curioso sobre os vinhos brancos e frescos, minerais e gastronômicos. Vemos um aspecto de comunicação muito forte, que ajudou a gerar interesse por Chablis no país”, disse Vigneron. Ela observou que o vinho branco tem avançado no país mesmo com o tinto ainda mais conhecido entre os consumidores.

Espitalié atribuiu parte desse movimento a uma renovação do perfil de quem compra o vinho. “Mosso consumidor é mais jovem, que gosta mais de vinhos brancos e leves, com menos tanino e mais fáceis de beber. Isso fortalece a marca”, disse.

Para capturar esse público, a estratégia de Vigneron passa por dentro dos restaurantes. “Estamos focando na formação de equipes de restaurantes para que os sommeliers sejam nossos embaixadores e possam transmitir bem a mensagem da venda de chablis. Assim queremos chegar aos consumidores, especialmente os mais jovens, com vinho acessível”, disse.

Leia também: Mercado de vinho passa de R$ 21 bi no Brasil. E maior concorrência pressiona margens

O crescimento não se limita à porta de entrada. Segundo Vigneron, também há avanço nas categorias mais caras, como premier cru e grand cru, embora em ritmo menor do que o observado no petit chablis. “O mercado brasileiro também está interessado em vinhos mais potentes e marcantes, mas ainda frescos”, disse.

Em um cenário de crescimento rápido das vendas no país, Espitalié também citou o cenário comercial entre blocos econômicos como um fator que pode reforçar ainda mais essa trajetória.

“O acordo comercial entre o Mercosul e a UE pode ter um impacto enorme no comércio, com a redução dos impostos e com a construção e uma relação de confiança no mercado. As condições ainda são incertas e estão sendo construídas. É uma notícia ótima que pode ajudar as vendas no brasil com a redução dos impostos, que garante estabilidade e uma boa relação comercial recíproca”, disse.

Para Thomas, o aumento dos preços dos vinhos da Borgonha, incluindo o Chablis, no Brasil, reflete uma limitação estrutural da região, que não consegue expandir sua produção para acompanhar a demanda global crescente.

“Não temos possibilidade nenhuma de expandir os vinhedos. No Novo Mundo, quando é preciso de mais 50 hectares, planta-se mais 50 hectares. Nós não temos essa vontade nem essa possibilidade de crescer como gostaríamos”, disse. Ele atribuiu parte da escassez recente a uma sequência de safras menores, agravadas pelas mudanças climáticas. Segundo ele, a combinação de oferta restrita e impostos elevados torna o efeito ainda mais forte no mercado brasileiro, mas o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia pode aliviar parte dessa pressão a médio prazo. “Com os acordos de livre-comércio, acho que as coisas certamente vão melhorar, mas é preciso tempo para que isso se estabeleça”, disse.

Daniel Buarque

Daniel Buarque

Editor-assistente