Azimut se expande em Itajaí, capital náutica do Brasil, e mira R$ 1 bi em receitas

Líder em iates, empresa investe R$ 120 milhões para ampliar seu único estaleiro fora da Europa e produzir megaiate inédito no polo náutico catarinense; CEO Carlo Alberto Sisto detalha à Bloomberg Línea a ambição bilionária na cidade que ergue shopping na marina e planeja terminal de cruzeiros

Grande 30 Metri, iate da Azimut

Bloomberg Línea — Em Itajaí, no litoral norte de Santa Catarina, barcos são construídos à mão, por profissionais formados ao longo de décadas. Esse ecossistema artesanal de marceneiros, eletricistas e montadores navais atraiu estaleiros estrangeiros para a cidade de pouco mais de 290 mil habitantes. Entre eles, a italiana Azimut-Benetti, líder mundial do setor náutico há 26 anos, mantém na cidade o único estaleiro do grupo fora da Itália.

Oficialmente reconhecida como Capital Catarinense da Construção Naval e do Turismo Náutico (Lei Estadual nº 17.587), Itajaí agora ganha outra escala: a Azimut vai produzir na cidade o megaiate Grande 30 Metri, com mais de 300 m² de área útil, 13 metros de altura e preço a partir de R$ 90 milhões, premiado em sua estreia em Cannes.

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O modelo exige R$ 120 milhões em investimentos (R$ 80 milhões na ampliação do parque fabril e R$ 40 milhões em desenvolvimento de produto) e deve elevar o quadro de funcionários dos atuais 650 para perto de 800 em dois anos.

“A ideia é chegar a um faturamento de R$ 1 bilhão”, afirma Carlo Alberto Sisto, CEO da Azimut Yachts no Brasil, à Bloomberg Línea.

Em 2025, a receita bruta foi de R$ 700 milhões. A meta implica crescimento de cerca de 43%.

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Quem comanda a operação é um executivo que passou 26 anos numa fabricante de tratores e colheitadeiras. Sisto assumiu a Azimut no fim de 2025, depois de ter sido CFO do grupo CNH Iveco e presidente do banco da montadora, em dois períodos morando no país.

“Conheço bastante bem a realidade brasileira do ponto de vista fiscal, econômico e cultural”, diz.

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Casado com uma curitibana e pai de dois filhos ítalo-brasileiros, ele se define como “italiano tropicalizado, com orgulho”, expressão que estende aos barcos da marca, projetados para o cliente local.

Carlo Alberto Sisto assumiu o comando da Azimut Yachts no Brasil no fim de 2025 e projeta receita de R$ 1 bilhão para a operação.

O artesanal e a linha de produção

Sisto sabe que comandar um estaleiro é bem diferente de trabalhar em uma fábrica de tratores. “No barco, a gente constrói pensando no cliente. Cada unidade tem nome e sobrenome”, diz.

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Mesmo assim, ele vê valor em trazer a bagagem da indústria: “Quem trabalha com barcos olha para o mundo automotivo porque tenta industrializar um processo que ainda é artesanal. O único jeito de evoluir na náutica é padronizar o produto e o processo”.

O foco da expansão é subir a régua do produto, não o volume produzido. A marca domina cerca de 40% do mercado nacional de embarcações acima de 51 pés e soma 23% da produção global de superiates (acima de 24 metros), segundo o Global Order Book, principal ranking do mercado náutico de luxo.

Outro avanço é a agilidade dos lançamentos. A versão italiana da Grande 30 Metri estreou em 2026, e o modelo brasileiro está programado para 2028. A janela de dois anos representa uma vitória, já que o intervalo costumava ser bem mais longo. Como pontua Sisto, o comprador brasileiro exige novidade e não quer mais um modelo defasado há cinco anos no exterior.

Por que Itajaí

Ao explicar por que escolheu Itajaí e preteriu destinos óbvios como Angra dos Reis, Rio ou São Paulo, Sisto recorre a uma analogia: “É como o Vale do Silício na Califórnia. Todo mundo foi para lá desenvolver software, mas poderiam ter ficado em Nova York. Ferrari, Maserati, Lamborghini, Ducati: todas estão no Motor Valley, perto de Bolonha. Mas a cidade em si é famosa pela universidade e pelo tortellini.”

A cidade também abriga o espanhol Estaleiro Itajaí (Grupo Elcano), focado em navios gaseiros e porta-contêineres, o chileno Detroit Brasil, especializado em rebocadores, e a alemã Oceana (ThyssenKrupp), que constrói as fragatas da Classe Tamandaré para a Marinha do Brasil.

Do outro lado do Rio Itajaí-Açu, Navegantes funciona como cidade-irmã e abriga o aeroporto internacional da região, porta de entrada e elo logístico do polo naval.

Itajaí (cerca de 290 mil habitantes), Navegantes (96 mil) e Balneário Camboriú (152 mil) formam a segunda maior economia de Santa Catarina, atrás apenas da região de Joinville, a cidade mais populosa do estado, com mais de 660 mil habitantes. Sozinha, Itajaí tem o segundo maior PIB catarinense: R$ 48,2 bilhões em 2025, atrás dos R$ 49,8 bilhões de Joinville.

Capital Nacional da Pesca desde 2023, Itajaí também é o maior polo pesqueiro industrial do país, com cerca de metade do mercado nacional.

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Para o executivo, polos industriais se formam por concentração de mercado, não por vocação geográfica.

“Não é que o mar daqui seja melhor do que o de lá. É que o começo foi aqui”, disse.

Esse começo tem raízes migratórias. “Há uma imigração italiana muito expressiva no Sul do Brasil. Como os italianos são os maiores fabricantes de iates do mundo, nossos concorrentes locais também compartilham dessa mesma origem”, afirmou.

Essa bagagem gerou o ativo mais valioso: mão de obra qualificada. “Se você for para a Amazônia, não vai achar profissionais que saibam mexer em motores ou marcenaria fina com a mesma facilidade que encontramos aqui”.

Os números da Acobar (associação dos estaleiros) confirmam o peso da região: Santa Catarina responde por 65% da produção nacional de embarcações de esporte e lazer. Desse total, Itajaí concentra 70% da fabricação, o equivalente a 35% do mercado brasileiro.

O setor náutico movimenta mais de 150 mil empregos diretos e indiretos no país. Enquanto Itajaí se consolida como polo industrial, Angra dos Reis segue como principal cenário de consumo e lazer.

O Boulevard Marina Itajaí será o primeiro shopping anexo a uma marina no Brasil. São R$ 100 milhões em investimento para integrar hotel cinco estrelas, supermercado premium e o polo náutico mais importante do país.

Shopping de marina e terminal de cruzeiros

A expansão da Azimut acompanha investimentos em Itajaí. No centro, a incorporadora ABecker e a Marina Itajaí erguem o Boulevard Marina Itajaí, primeiro shopping anexo a uma marina do país.

Com aporte inicial de R$ 100 milhões e inauguração prevista para 2027, o complexo de cinco pavimentos ganhou um novo desenho que inclui hotel cinco estrelas e supermercado premium.

O município também consolida sua posição no mercado de cruzeiros. Vice-líder nacional, atrás apenas de Santos, o Porto de Itajaí encerrou a última temporada com 38 escalas e 164 mil passageiros.

Para sustentar o crescimento, a cidade planeja um novo terminal de R$ 300 milhões. O masterplan foi desenvolvido pela multinacional WSP, custeado pelo Instituto Mais Itajaí (que reúne mais de 60 empresas locais) e doado ao poder público, que agora busca recursos.

Toda essa engrenagem reforça a tese de Roy Capasso, diretor comercial da Azimut, de que o impacto da náutica transcende o comprador final. “Há uma cadeia gigantesca de marceneiros, eletricistas e técnicos trabalhando nos bastidores de um único barco”.

Segundo ele, a concorrência local gera um círculo virtuoso: a experiência se multiplica quando há mais pessoas fazendo o mesmo trabalho na região.

Essa sinergia entre privado e público é o grande diferencial catarinense, conclui Sisto. Ele ressalta que o município é extremamente proativo no apoio ao business, inserido em um estado que ostenta o menor desemprego do país e forte ritmo de crescimento.

A exportação para a América Latina

A unidade da Azimut em Itajaí direciona 15% de sua produção ao mercado externo, com foco na América Latina. “Já alcançamos toda a América do Sul”, destaca Sisto. “Fabricamos o modelo de 25 metros no Brasil para abastecer o mercado internacional. Não funcionamos como uma simples filial da matriz italiana.”

Enquanto a Europa opera por meio de distribuidores, o Brasil adota a venda direta ao consumidor, atraindo empresários do agronegócio, lideranças da tecnologia e profissionais liberais.

A expansão regional é impulsionada por modernizações regulatórias em países vizinhos, como a Argentina, que reduziu entraves de importação e trouxe maior estabilidade cambial.

“Nesses mercados, o iate é tratado como um ativo patrimonial, e não apenas como lazer”, explica o CEO. “Segurança jurídica, previsibilidade e excelência no pós-venda são critérios tão decisivos quanto o design e a performance.”

O estaleiro acaba de enviar uma Azimut Fly 62 para Buenos Aires e duas Fly 58 para Punta del Este (Uruguai) e Cartagena (Colômbia).

Enquanto o Uruguai acelera como mercado comprador, impulsionado pela migração de brasileiros em busca de vantagens fiscais, Chile e Peru ficam de fora por uma limitação natural.

Como sintetiza Sisto: “O Oceano Pacífico é muito agressivo e faltam arquipélagos para o turismo náutico”.

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