Bloomberg Línea — Um dos eventos de maior luxo do calendário da enologia no Brasil acontece neste fim de semana em Araçoiaba da Serra, interior de São Paulo. A Vik, vinícola chilena eleita melhor do mundo por uma prestigiosa publicação internacional no ano passado, realiza na Fazenda Vista Verde a segunda edição da sua ‘Vendimia’ no país.
A festa busca reproduzir o ritual das colheitas de uva que a marca realiza todos os anos em Millahue, a cerca de duas horas de Santiago. A vindima paulista, porém, é simbólica, pois as parreiras que um dia o CEO Gastón Williams disse pensar em produzir ali para fazer vinho ainda não existem.
“Não é um business para usar essa uva”, afirmou Adrian Estrada, CEO da LN Urbanismo e do Grupo Luan em entrevista à Bloomberg Línea. “É uma experiência completa que a gente quer oferecer para apresentar o hotel”, disse. A produção de vinho da Vik, segundo ele, deve seguir concentrada quase inteiramente no Chile por muitos anos.
A menção ao hotel é uma referência ao que de fato avança rapidamente e que a Vik quer promover com o evento: um empreendimento imobiliário que vai incluir um hotel da vinícola no condomínio de alto luxo. Trata-se de um complexo de cerca de R$ 600 milhões que reúne o primeiro hotel da marca no Brasil a um condomínio de altíssimo padrão, com obras iniciadas em 2026 e entrega prevista para o fim de 2028.
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A festa do fim de semana, enquanto isso, vai incluir gastronomia e degustações de vinhos da marca. Os ingressos, vendidos pela plataforma Wine Locals a R$ 2.000 por pessoa, já estão esgotados.
Para Estrada, o evento é menos uma ferramenta comercial e mais um investimento contínuo em marca. “A ideia, assim, é a segunda edição de infinitas edições. Todos os anos, teremos a festa da Vendima na Fazenda Vista Verde da Vik”, disse.
Vinho e construção
O projeto nasceu do encontro entre duas histórias de negócios diferentes, uma no vinho e na hospitalidade com a marca aclamada e outra em empreendimentos imobiliários de luxo.
Do lado brasileiro está o Grupo Luan, que inclui a LN e soma mais de 50 anos de mercado imobiliário paulistano. Nos últimos dez anos, segundo, a empresa lançou 17 empreendimentos pelo país, somando mais de 8 milhões de metros quadrados e R$ 1 bilhão em vendas, marca que pretende dobrar em 2026 com três novos lançamentos.
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A empresa começou como construtora, ergueu prédios na região da Faria Lima e há mais de quatro décadas migrou para a administração de bens próprios. Há 16 anos, Estrada, terceira geração da família à frente do negócio, criou dentro do grupo um braço voltado a loteamentos de alto padrão em regiões de forte crescimento e pouca oferta.
Em 2019, nessa busca por “novas fronteiras pelo país”, como definiu, Estrada fechou a compra da Fazenda Vista Verde, antiga propriedade da família Del Vecchio, fabricante dos violinos e violões que levam seu nome. Durante a pandemia, com o mercado de condomínios de alto padrão no interior em alta, a LN comprou áreas vizinhas até somar quase 600 hectares, extensão que, avaliou o executivo, comportaria também um hotel de alto padrão.
A busca por esse parceiro levou a LN até a Vik, vinícola fundada pelos bilionários Alexander e Carrie Vik no Chile e eleita em 2025 a melhor vinícola do mundo pelo ranking World’s 50 Best Vineyards.
“A gente foi atrás da Vik”, disse Estrada, relatando que a aproximação começou pelo representante comercial da marca em São Paulo e avançou em etapas até chegar aos fundadores. Ele lembrou ter dito à Vik: “Coragem, eu já vi que vocês têm, com hotéis no Uruguai e no Chile, por que não dá um pulo aqui no Brasil para ver se a gente não faz mais uma unidade?” A negociação, iniciada por volta de 2022, levou cerca de três anos até o fechamento da parceria.
No modelo fechado entre as empresas, a Vik Vinhos segue como companhia dedicada à venda de seus rótulos, enquanto a operação hoteleira nasce sob a LN. “Somos incorporadores, construtores e sócios da operação, e a administração é conjunta”, disse Estrada. “O investimento é todo da incorporadora e a gestão é em conjunto.”
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A Vik entra com a experiência em hospitalidade, já testada em unidades no Chile e no Uruguai, e participa da administração do hotel ao lado da LN.

Comunicados anteriores do projeto mencionaram um investimento de US$ 100 milhões, cifra que, convertida, ficava perto de R$ 500 milhões. Durante a entrevista, porém, Estrada atualizou o número e apontou que o investimento total do complexo, somando infraestrutura, amenities e hotel, é de R$ 600 milhões. Desse valor, R$ 200 milhões serão destinados só ao hotel, que terá 50 acomodações voltadas à imersão no universo Vik, com vinhedos, degustações e experiências exclusivas para hóspedes e moradores.
Mais lote menos uva
A venda de terrenos segue como o motor financeiro do projeto. “Nós comercializamos e vendemos lotes, esse é o nosso core business. E estamos construindo o hotel que vai oferecer diárias, hospedagens, restaurante, day use, o que vai gerar uma receita também dessa operação”, explicou Estrada.
A primeira fase do loteamento reúne 160 lotes de, no mínimo, 2 mil metros quadrados, vendidos a preços entre R$ 3 milhões e R$ 3,5 milhões, com 95% já comercializados, e Estrada disse esperar ampliar essa etapa.
Há ainda uma camada superior de exclusividade: doze casas de 480 a 553 metros quadrados, assinadas pelo escritório Gálvez e Márton, batizadas de Residences, em parceria com a gestora Shayoun Properties. Quem compra um lote pode construir a própria casa, seguindo regras do condomínio, ou contratar a LN Urbanismo, que também administra o condomínio.
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A promessa de um vinhedo é o que diferencia o projeto de outros condomínios de alto padrão no interior paulista, mas é também o elemento mais distante de se concretizar.
A LN já levou à fazenda enólogos da Vik e especialistas das regiões vizinhas de São Roque e de Espírito Santo do Pinhal para estudar o solo e escolher, ainda em sigilo, quais castas de uva serão plantadas.
“Tudo é muito embrionário”, disse Estrada. “Aquilo de fato ser engarrafado num curto prazo, achamos que é um processo que vai demorar alguns anos pra vermos realmente que tipo de uva conseguimos.”
O plantio efetivo deve começar somente daqui a dois anos e, mesmo depois disso, as primeiras três ou quatro colheitas serão descartadas enquanto as parreiras amadurecem.
Apesar do cenário macroeconômico complexo de alto juros e incertezas com a eleição, o executivo defende que o segmento de alto padrão resiste melhor a esse ambiente.
“O mercado de alto padrão é muito mais resiliente, porque é um público que tem diversas opções, até de ganhar dinheiro nesse momento de crise, seja com aplicações, ou seja comprando oportunidades”, disse. Para ele, a chave está na diferenciação: “Você precisa ter diferenciais que, além de você estar no mercado certo, dentro dele você esteja único.”
Essa lógica já está sendo replicada. Em outubro, a LN Urbanismo lança um novo condomínio de alto padrão no interior de Santa Catarina, próximo a Caçador, também instalado dentro de uma vinícola já em operação.
“Acabamos criando um branding, um conceito, se diferenciando”, disse Estrada, acrescentando que a aposta segue o momento forte do enoturismo no país: “Nesse caso a pessoa vai praticamente morar no enoturismo.”









