Bloomberg — Filho de um vigilante noturno e de uma dona de casa, Douglas Oliveira tinha 16 anos e morava em uma casa modesta no Recife quando votou pela primeira vez, ajudando Luiz Inácio Lula da Silva a conquistar um segundo mandato presidencial.
Duas décadas depois, aquele mesmo jovem que pescava para ajudar a colocar comida na mesa da família hoje leva uma vida confortável como programador e deseja impedir que o presidente conquiste um quarto mandato.
A guinada política de Oliveira aponta para um risco enfrentado pelo petista enquanto ele disputa voto a voto às vésperas do primeiro turno de 4 de outubro. Lula e seu Partido dos Trabalhadores dominam há décadas a região onde vive mais de um quarto do eleitorado brasileiro. Em 2006, ele conquistou nada menos que 77% dos votos válidos no Nordeste. Há quatro anos, a região lhe deu cerca de 69% dos votos, sendo decisiva para a vitória apertada que o levou de volta à Presidência.
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Agora, porém, começam a surgir fissuras, apesar das raízes profundas de Lula no Nordeste e dos inegáveis avanços obtidos pela população da região durante seus governos.
Lula teria 57% dos votos nordestinos em um eventual segundo turno neste ano, segundo pesquisa Quaest divulgada na semana passada. Com as pesquisas mostrando empate entre ele e Flávio Bolsonaro, mesmo uma perda marginal de apoio no maior reduto político de Lula ameaça custar-lhe a reeleição.
“Eles estão há 12 anos dizendo que vão tirar o país da pobreza”, disse Oliveira. “Onde eu morava, as pessoas continuaram na pobreza. As pessoas que saíram da pobreza foram aquelas que decidiram não mais esperar que o estado ajudasse com nada.”
O paradoxo para Lula é que o sucesso de suas próprias políticas mudou as expectativas da região mais pobre do Brasil. E, embora ele continue reverenciado em alguns setores por ter tirado milhões de pessoas da pobreza, Lula e a esquerda têm enfrentado dificuldades para atender às demandas atuais dos mesmos brasileiros que um dia ajudaram.
Oliveira agora está preocupado com o aumento do custo de vida e atribui sua ascensão social a anos de trabalho duro, e não às políticas sociais de Lula, disse em entrevista à Bloomberg News no Recife, onde vive.
Ainda assim, Lula tem recorrido a estratégias do passado na reta final da disputa. Ele aumentou os pagamentos do Bolsa Família e na semana passada proibiu as apostas online como parte de um esforço para enfrentar o elevado endividamento das famílias.
Isso pode ajudá-lo no Nordeste, região que concentra mais beneficiários do Bolsa Família do que qualquer outra e está entre as que têm as maiores proporções de tomadores de crédito classificados pelo Banco Central como endividados de risco.
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Mas, mesmo que Lula vença, a perda de apoio na região aponta para desafios mais amplos para a esquerda brasileira quando o presidente de 80 anos inevitavelmente deixar a cena política.
“O PT foi deixando de ter respostas para questões atuais”, disse Priscila Lapa, doutora em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco. O partido “não percebeu que estava tendo uma mudança de agenda”.
Capitais
Como presidente no início dos anos 2000, Lula concentrou esforços na redistribuição de renda, com atenção especial ao Nordeste. O Bolsa Família, programa de transferência de renda, reduziu drasticamente a pobreza enquanto o crescimento econômico era impulsionado pelo boom global das commodities e o acesso ao ensino superior e à moradia se expandia rapidamente.
“Foi todo um conjunto de ações que deram essa percepção de mobilidade, de ascensão para um conjunto do eleitorado e para uma região que nunca tinha experimentado isso até então”, disse Lapa.

Ainda assim, essa mesma agenda está ficando cada vez mais desalinhada das preocupações de muitos eleitores. Questões como custo de vida e segurança pública alimentam a insatisfação como nunca, desgastando o status quase lendário de Lula mesmo depois de anos de sucesso. Facções criminosas como PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) se espalharam pelo país, e todas as cidades mais violentas do Brasil estão hoje no Nordeste.
“A dona de casa, quando vai o supermercado no final do mês, verifica que, apesar de teoricamente ter mais dinheiro no bolso, leva menos alimentos para casa”, disse Rogério Marinho, coordenador da campanha de Bolsonaro, em um evento em agosto. “Isso faz com que essa eleitora ou esse eleitor sinta-se enganado todos os meses, e lembre que quem o enganou foi o presidente Lula.”
Em nenhum lugar do Nordeste esse desgaste foi maior do que nas capitais, segundo estudo de Simone Piletti Viscarra, professora de ciência política da Universidade Federal do Vale do São Francisco, e Gustavo Paravizo, pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora.
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Eles constataram que a média de votos do PT nas capitais nordestinas no segundo turno das eleições presidenciais caiu 13,5 pontos percentuais entre 2006 e 2022, para 57,2%.
“Quando o problema básico econômico é minimamente resolvido — as pessoas estão conseguindo comer, estão conseguindo comprar o que precisam — elas começam a pensar em outras questões que não são materiais, que são os valores que elas querem conservar”, disse Viscarra.
Fora das grandes cidades do Nordeste, porém, a queda no apoio ao PT foi bem menor. No interior, a fatia de votos do partido em segundos turnos presidenciais recuou apenas 3,7 pontos percentuais em 16 anos, para 71,6% em 2022.
A explicação é simples, segundo Viscarra: as cidades mais pobres do interior dependem mais das políticas públicas do governo federal que floresceram durante as gestões do PT.
Mas também há ameaças nesse território, especialmente a expansão da fronteira agrícola, que tem potencial para alterar a política brasileira até mesmo nos rincões mais remotos do Nordeste.
A cidade de Luís Eduardo Magalhães, no extremo oeste da Bahia, ilustra essa transformação. Fundada há pouco mais de duas décadas, tornou-se uma grande produtora de commodities como soja, algodão e milho. E, politicamente, quanto mais a cidade se desenvolveu, mais se afastou da esquerda e se aproximou das posições conservadoras do agronegócio brasileiro.

“Luís Eduardo Magalhães é uma cidade nova que tem crescido muito, com muita gente empreendendo”, disse João Roma, que foi ministro no governo do pai de Flávio Bolsonaro, o ex-presidente Jair Bolsonaro, e hoje comanda o PL na Bahia. “Essas pessoas dispõem de menos amarras com o poder central.”
Uma ideia diferente
Somando os governos de Lula e de Dilma Rousseff, que presidiu o país de 2011 a 2016, o Partido dos Trabalhadores esteve no poder durante a maior parte dos últimos 25 anos. O desgaste de Lula e do partido que ele ajudou a fundar em 1980 explica apenas parte da perda de apoio no Nordeste.

Para alguns aliados de Lula, o partido é vítima do próprio sucesso.
“O presidente Lula priorizou muito investimentos no Nordeste”, disse Edinho Silva, atual presidente do PT e coordenador da campanha de Lula. “Surge uma classe média que não existia e setores da classe média acabam assumindo posições mais conservadoras. Isso justifica a mudança de perfil do eleitorado.”
A campanha de Lula também reconhece, ainda que de forma sutil, outro desafio: uma parcela cada vez maior da população é jovem demais para se lembrar de como a região se transformou social e economicamente durante os primeiros anos de Lula no poder.
Em vez disso, essa geração cresceu num período posterior, quando Lula e seu partido estavam envolvidos em denúncias de corrupção, como a Operação Lava Jato, que investigou propinas em contratos envolvendo a gigante estatal Petrobras.
O próprio Lula ficou preso por acusações de corrupção durante cerca de 19 meses a partir de 2018. Sua condenação, porém, foi posteriormente anulada.
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De volta ao Recife, a trajetória de Douglas Oliveira exemplifica o dilema de um partido que ajudou a transformar o Nordeste: muitos dos eleitores cujas vidas mudaram durante a era Lula também mudaram com ela. Além disso, quando o líder de esquerda não estiver mais na urna, a questão será saber se o vínculo que construiu com a região conseguirá sobreviver sem ele.
O mais proeminente líder da esquerda latino-americana dificilmente voltará a disputar uma eleição depois deste ano. Ainda assim, ele não tem um sucessor capaz de herdar sua atual base política. O próprio Lula já reconheceu publicamente que seu partido se afastou de suas origens, abrindo espaço para o avanço da direita.
Rousseff, que hoje preside o Novo Banco de Desenvolvimento, sofreu impeachment em 2016, marcando um dos episódios mais devastadores da história do PT. Fernando Haddad, que foi ministro da Fazenda de Lula e é apontado como possível herdeiro político, não vence uma eleição desde que se tornou prefeito de São Paulo, em 2012.
“O PT tem que escolher alguém e começar a traçar esse caminho”, disse Viscarra.
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