Bloomberg — Os data centers se tornaram um tema politicamente delicado na campanha para as eleições de meio de mandato nos EUA. Mas não na corrida presidencial brasileira.
Antes das eleições de outubro no país, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto seu rival, Flávio Bolsonaro, estão colocando os data centers de bilhões de dólares e os investimentos em inteligência artificial que os acompanham no centro de suas propostas para impulsionar a maior economia da América Latina.
Trata-se de um contraste marcante com os EUA, onde a insatisfação dos eleitores com as contas de energia elétrica e o consumo de água está colocando os políticos na defensiva, mesmo em redutos dos data centers como Virgínia e Texas.
Lula tem invocado a soberania de dados, a promessa de empregos e o aumento do investimento estrangeiro, ao mesmo tempo em que pressiona os legisladores a aprovarem uma lei que reduza drasticamente os impostos sobre equipamentos de tecnologia da informação para centros de dados.
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O projeto de lei está agendado para votação no Senado na terça-feira e deve acelerar megaprojetos como o empreendimento Rio AI City, de US$ 65 bilhões, planejado para a segunda maior cidade do Brasil.
“Podemos observar um influxo substancial de recursos para a construção de data centers aqui no Brasil”, afirmou Lula na semana passada.

Governos estaduais e municipais, do Rio de Janeiro ao Ceará, no norte do Brasil, estão competindo para atrair hiperescaladores dos EUA e da China para projetos que custarão dezenas de bilhões de dólares. Bolsonaro também apoiou a redução de impostos sobre chips e equipamentos de informática importados para tornar os projetos mais atraentes.
Está em jogo a tentativa do Brasil de se tornar o centro latino-americano de poder computacional para IA, à frente dos rivais Argentina e Chile, que estão oferecendo incentivos e construindo infraestrutura para competir pelos mesmos investimentos.
Os data centers têm enfrentado protestos, principalmente por parte de grupos indígenas. No entanto, a oposição não se intensificou como nos EUA, onde cerca de 70% dos entrevistados se declararam contra a construção local dessas instalações em uma pesquisa realizada pela Gallup em março.
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“As pessoas encaram isso como desenvolvimento tecnológico e crescimento, exatamente o oposto do que ocorre nos EUA”, afirmou Andrei Roman, CEO da empresa de pesquisas AtlasIntel.
“A maioria dos empregos não exige qualificação, então as pessoas não os associam a uma ameaça imediata à sua renda.”
Ainda assim, o Brasil corre o risco de ficar de fora do boom global, apesar da abundância de energia renovável e da opinião pública favorável.
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O setor aguarda os incentivos fiscais prometidos. As linhas de transmissão precisam ser ampliadas para transportar energia eólica e solar até os centros de dados. O Brasil já está atrás do Chile em baterias em escala de rede, e duas rodadas de licenciamento foram adiadas de abril para dezembro.
Tensões políticas
O principal obstáculo para a concretização da Rio AI City e de outros projetos são os atrasos na aprovação do projeto de lei para redução de impostos, afirmou Osmar Lima, secretário municipal de desenvolvimento econômico do Rio de Janeiro.
A Câmara dos Deputados aprovou a legislação, conhecida como Redata, em fevereiro. No entanto, ela ficou paralisada no Senado durante uma disputa que se estendeu por meses entre Lula e Davi Alcolumbre, líder da Câmara Alta.
Desde então, eles restabeleceram as relações, e Alcolumbre nomeou um defensor do projeto de lei como seu relator antes da votação.
“Se a legislação for aprovada, o investimento virá”, afirmou Lima em entrevista.
Mesmo que seja aprovada, há indícios de que algumas empresas de hiperescala estejam aguardando o término das eleições antes de se comprometerem com grandes investimentos.
As tensões entre Lula e Donald Trump, que impôs tarifas em julho, deixaram algumas empresas de tecnologia dos EUA receosas de assumir grandes compromissos com o Brasil antes da votação.
O governo Trump também considera a IA uma prioridade de segurança nacional e tem buscado manter os investimentos nessa tecnologia nos EUA.
A Elea Data Centers, controlada pela I Squared, espera que o desenvolvimento do seu projeto Rio AI City ganhe impulso após as eleições e as eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro.
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“As empresas podem estar mais cautelosas em assumir compromissos de grande visibilidade e se expor ao debate político”, disse Alessandro Lombardi, fundador e presidente da Elea, que planeja dar início às obras do projeto de 1,5 gigawatts ainda este ano. “As eleições brasileiras só precisam passar.”
Pouca resistência
Autoridades locais promovem o projeto Rio AI City como uma forma de transformar a metrópole à beira-mar em um polo global de data centers, e a resistência da população local tem sido mínima.
Um complexo de condomínios nas proximidades destaca o data center como um “marco de inovação e tecnologia” em um folheto destinado a possíveis moradores, colocando-o ao lado das praias, dos estádios esportivos e da vida noturna do Rio como uma atração.
No ano passado, a Tapestry, um projeto do laboratório de inovação X da Alphabet, firmou parceria com o Rio para ajudar a preparar a rede elétrica para a construção do data center. A infraestrutura existente é capaz de suportar os 1,5 gigawatts iniciais do projeto, afirmou Page Crahan, gerente geral da Tapestry.
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Nos EUA, a crescente demanda dos data centers e as redes elétricas sobrecarregadas estão impulsionando uma nova onda de geração de gás natural e colocando sob pressão os compromissos climáticos das grandes empresas de tecnologia. O Brasil, por sua vez, já está restringindo o excedente de energia eólica e solar e possui um amplo portfólio de projetos de energia renovável que poderiam ser desenvolvidos em conjunto com novos data centers.
A abundante energia renovável do Brasil é a maior vantagem do Rio, segundo Crahan. “É algo incrivelmente único em nível global, em qualquer economia”, afirmou ela.
Os EUA, onde os data centers mal eram considerados um problema há alguns anos, são uma prova de quão rapidamente a opinião pública pode mudar. Mas os analistas esperam que eles cresçam no Brasil, independentemente do resultado das eleições.
A Aurora Energy Research, uma empresa de consultoria do Reino Unido, projeta que a capacidade dos data centers no Brasil mais do que quadruplicará, chegando a mais de 4 GW no início da década de 2030.
A carteira de grandes projetos que buscam conexão à rede elétrica é ainda maior. A ONS, operadora da rede, espera que a demanda por eletricidade desses projetos atinja, em média, 5,7 GW até 2030.
--Com a colaboração de Simone Iglesias.
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