Bloomberg — O Banco Central deixou de contemplar na ata do Copom todos os questionamentos surgidos no mercado com o comunicado visto como pouco claro na semana passada, o que mantém sua estratégia de comunicação sob escrutínio e dúvidas sobre o cumprimento da meta de inflação.
Analistas avaliam que o documento divulgado nesta manhã não conseguiu esclarecer completamente a decisão de cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25%, com base na extensão do horizonte relevante da política monetária e um diagnóstico mais duro para a inflação.
“Estamos tomando mais risco de credibilidade certamente”, diz Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú. “O mercado vê sinais de que o BC terá dificuldade de entregar a meta.”
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A ata explicou um pouco mais o raciocínio do BC ao apontar a preferência por uma trajetória da Selic mais próxima da embutida na pesquisa Focus e no questionário feito antes do Copom com economistas e na precificação de política monetária. O motivo é evitar volatilidade no preço dos ativos e na economia.
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As simulações indicavam que mirar no atual horizonte relevante no quatro trimestre de 2027 exigiria “variações abruptas de direção e de grande magnitude na Selic, seguidas de diversos trimestres com inflação abaixo da meta”.
Também disse que o recomendado é não reagir integralmente a choques de oferta e que a magnitude do ciclo será ajustada à luz da evolução do cenário.
Ao mesmo tempo, apontou explicitamente pela primeira vez que há “riscos assimétricos na direção altista” para os preços.
“A explicação foi insatisfatória”, diz Gino Olivares, economista-chefe da Azimut Brasil Wealth Management, em relatório. “O que preocupa mesmo é a possibilidade de o Comitê ser entendido como sendo mais leniente com a inflação. E infelizmente a comunicação recente abriu essa possibilidade.”
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O reforço ao horizonte relevante estendido na ata do Copom divulgada hoje mostra que “o BC justificou o injustificável, confirmando que está confortável em não cumprir o seu mandato no horizonte habitual”, diz Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez.
“Existia uma expectativa muito grande sobre ela, sobre como o BC iria explicar a decisão e comunicação confusa no último Copom”, diz Milena Landgraf, sócia e CIO macro da Jubarte Capital. “Eles deram ênfase à deterioração da inflação indicando assimetria no balanço de riscos, mas argumentaram que a decisão de cortar seria a melhor decisão para diminuir os impactos sobre preço dos ativos e economia.”
“Achei bastante confuso. No limite, pode ser qualquer coisa”, diz o economista-chefe da Quantitas, Ivo Chermont. “No frigir dos ovos, continua com função de reação dove porque a realidade é mais dura do que era e a reação dele mais ficou mais dove.”
Pausa
O cenário de pausa no ciclo de calibração dos juros se mostra como o mais provável a partir do encontro de agosto, em uma primeira leitura feita da ata por economistas, antes do Relatório de Política Monetária e da entrevista à imprensa do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ambos na quinta-feira.
A combinação de uma “descrição dura” do cenário com a preferência revelada por uma trajetória que envolve pausas sugere que “o plano de voo atual do Copom inclui uma pausa na próxima reunião, em agosto”, segundo Caio Megale, economista-chefe da XP.
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O Goldman Sachs passou a prever que o Banco Central interromperá o ciclo de flexibilização monetária e só voltará a cortar a Selic a partir do quarto trimestre de 2026, diz Alberto Ramos, economista-chefe para a América Latina, em relatório.
A ata indica que o Copom está mais inclinado a proteger a atividade econômica do que a adotar uma estratégia mais agressiva de combate à inflação, segundo ele.
Guilherme Preciado, membro da equipe de gestão do Opportunity Total, vê algum avanço na comunicação sobre as trajetórias descritas no documento.
“Houve um pouco mais de clareza no parágrafo 20, onde ele deixa claro que as trajetórias contempladas (e já citadas no comunicado) envolviam combinações diferentes de pausa e corte. Acho que muita gente tinha interpretado como cenário de manutenção”, afirma Preciado.
Neste parágrafo, o BC diz que as trajetórias mais adequadas “contemplavam cenários com combinações de diferentes momentos de pausa e retomada do ciclo de calibração”.
“Nesse sentido, deixou ainda mais claro que vê espaço para mais cortes ao longo do tempo, mesmo que não sejam consecutivos”, completa Preciado.
A Vinland Capital, no entanto, avalia que o ciclo ainda pode se estender, dado que a ata apontou que o comitê “não quis divergir das trajetórias de juros contempladas pelos analistas e mercado”, como a pesquisa Focus, o questionário pré-Copom e a precificação de mercado.
Isso sugere “que o cenário base deve ser reduzir os juros novamente em 0,25 ponto percentual antes de pausar o ciclo, mas condicional ao cenário não se deteriorar de forma relevante até a próxima reunião”, disse a Vinland.
-- Atualiza com comentário da Vinland Capital nos dois últimos parágrafos.
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