Bloomberg Línea — Os ovos especiais já representam 32% dos negócios da Mantiqueira Brasil, ante uma participação de apenas 2% a 3% há cinco anos, segundo o fundador da companhia, Leandro Pinto.
O crescimento da categoria reflete uma estratégia desenhada pela companhia, que tem a JBS (JBS) como sócia, para transformar o ovo, tradicionalmente tratado como uma commodity, em uma categoria com produtos de maior valor agregado, com marcas voltadas a diferentes perfis de consumidores.
“Nós transformamos uma categoria esquecida em uma categoria desejada”, disse Pinto em entrevista à Bloomberg Línea.
O portfólio da Mantiqueira inclui ovos comuns, e os especiais: de galinhas livres de gaiola, caipira e orgânicos. A companhia também passou a olhar para além do ovo com casca e lançou recentemente uma bebida proteica produzida a partir da clara, a N.O.V.O.
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O próximo passo é ampliar a família de produtos derivados, segundo o fundador. A estratégia inclui buscar novas aplicações para cada componente do ovo, com o objetivo de aproveitar integralmente a matéria-prima e criar novas fontes de receita.
“O ovo não é só o ovo in natura, em casca, que a pessoa quebra, cozinha ou coloca na panela. Existem muitos produtos à base de ovo que são extremamente interessantes”, disse Pinto.
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Pinto explica, por exemplo, que vê potencial para que a clara seja utilizada em bebidas, barras de proteína e ingredientes funcionais.
A gema, por sua vez, possui aplicações em diferentes segmentos da indústria de alimentos, incluindo produtos com maior demanda sazonal, como panetones.
A maior aposta da empresa nessa expansão do portfolio ocorre em um momento de expansão do consumo de proteínas e de maior procura por alimentos com rótulos mais simples.
Segundo o executivo, o avanço de produtos especiais não representa apenas uma oportunidade de elevar preços, mas também de tornar os resultados menos suscetíveis às oscilações do mercado.
“A margem é mais estável, mais linear”, afirmou.
A estratégia também se apoia no avanço dos ovos cage-free, produzidos por galinhas livres de gaiola. No Brasil, os ovos cage-free representam cerca de 21% da produção da Mantiqueira, enquanto, nos Estados Unidos, essa participação chega a aproximadamente 60%, segundo a companhia.
A sociedade com a JBS também abriu espaço para sinergias operacionais em outras etapas da cadeia.
Pinto afirmou que a Seara comprou recentemente um frigorífico que pertencia à Mantiqueira em Cambuquira, em Minas Gerais, e passou a assumir o processamento das aves ao fim do ciclo produtivo.
Segundo ele, 100% da produção da unidade é destinada à exportação.
“Fazíamos por necessidade. Eles fazem para ganhar dinheiro, porque essa é a expertise deles”, disse.
Confira a segunda parte da entrevista de Leandro Pinto à Bloomberg Línea, editada para fins de clareza e compreensão (Leia a primeira parte aqui):
Em uma entrevista recente, você falou sobre a tendência do cage-free. Como está a participação desse sistema dentro das operações da Mantiqueira no Brasil e nos Estados Unidos?
Hoje, cerca de 21% da nossa produção no Brasil já é cage-free. Nos Estados Unidos, esse percentual chega a aproximadamente 60%.
A diferença ocorre porque atuamos em regiões onde essa tendência já está bastante consolidada. Em estados como Colorado e Califórnia, por exemplo, a comercialização de ovos de galinhas livres de gaiola já é uma exigência. Mas eu acredito que essa é uma tendência natural. O consumidor tem cada vez mais acesso à informação. Todo mundo tem um computador na palma da mão, pesquisa o que quer, quando quer, e entende as diferenças entre os sistemas de produção.
O que mais chamou a sua atenção no mercado americano em comparação ao brasileiro?
É uma troca muito rica. Há coisas que fazemos melhor no Brasil e há coisas que eles fazem melhor aqui. Em termos de organização, limpeza, biosseguridade e sanidade, eu acredito que temos muitas práticas melhores do que as encontradas em parte do mercado americano.
Por outro lado, quando falamos de automação, eles estão muito avançados, principalmente porque o custo de mão de obra é mais alto.

Então começamos a combinar o melhor dos dois mundos. Trazemos para cá [Estados Unidos] aquilo que fazemos melhor no Brasil e levamos para o Brasil aquilo que eles fazem melhor aqui. É uma troca constante de conhecimento.
O ovo vive um momento muito positivo de consumo. Mas qual a estratégia para aumentar a participação de produtos de maior valor agregado?
Temos equipes dedicadas exclusivamente a isso, trabalhando junto com a Mantiqueira e com o P&D da JBS.
E não estamos falando apenas de desenvolver produtos novos. Existem muitas soluções que já existem no mundo e que podem ser adaptadas para o nosso mercado. O ovo não é apenas o produto in natura. Existe uma enorme quantidade de produtos derivados extremamente interessantes. Hoje você encontra barras de proteína, ingredientes funcionais e diversas soluções alimentares que utilizam proteína de ovo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, vemos a proteína de clara de ovo sendo destacada nas embalagens de muitos produtos. Esse movimento cria oportunidades para nós.
A N.O.V.O que lançamos é um exemplo disso. É um produto que tem tido excelente aceitação.
Estamos vivendo um momento em que a demanda global por proteínas cresce muito rapidamente. O Whey Protein tradicional é produzido a partir do soro do leite e já existem discussões sobre limitações de oferta dessa matéria-prima.
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Quando você oferece um produto clean label, com uma composição mais simples e um perfil nutricional muito forte, existe um espaço enorme de crescimento. Nós acreditamos muito nisso.
E o que vem depois?
O desafio é extrair do ovo tudo o que ele tem de melhor. Precisamos aproveitar cada componente e transformá-lo em novos produtos.
Quando você produz proteína de clara, por exemplo, sobra a gema. Então você passa a buscar aplicações para essa gema em outras categorias. O objetivo é aproveitar integralmente o potencial nutricional do ovo e criar novas oportunidades de negócio.
Acredito que veremos uma família cada vez maior de produtos derivados de ovos.
Isso faz parte da estratégia de premiumização da categoria?
Sim, eu costumo dizer que a Mantiqueira ajudou a escrever o livro da premiumização da categoria de ovos.
Nós transformamos uma categoria que era praticamente esquecida em uma categoria desejada. Mostramos ao varejo a importância do ovo dentro da loja. Quando o supermercadista entende o potencial da categoria e abre espaço para trabalhar melhor o produto, conseguimos organizar essa oferta e gerar mais valor para todos.
Hoje temos diferentes marcas e diferentes posicionamentos. Isso cria um oceano de oportunidades para atender consumidores com perfis diferentes.
Essa estratégia busca atingir consumidores dispostos a pagar mais?
Não vejo isso apenas como uma questão de preço. É uma questão de convicção.
Nós acreditamos que é possível produzir um alimento melhor, mais sustentável, com bem-estar animal e maior valor percebido pelo consumidor.
Quando você acredita naquilo que faz, fica mais fácil contar essa história. Não fazemos isso por obrigação. Fazemos porque acreditamos.
Essa é uma tendência global?
Sim, embora esteja em estágios diferentes em cada mercado. No Brasil, isso já está mais consolidado do que em alguns mercados internacionais.
No final do dia, porém, o que determina o sucesso é a capacidade de gerar resultado.

Quando você mostra que determinada categoria vende melhor, ocupa melhor o espaço da loja e gera mais retorno para o varejista, a adoção acontece naturalmente.
E qual é o impacto disso nas margens?
O principal benefício não é apenas uma margem maior. É uma margem mais estável, mais previsível e mais linear. O mercado de ovos trabalha com muito volume. Quando você agrega valor ao produto, consegue construir uma operação mais equilibrada.
Hoje os ovos especiais representam cerca de 30% das vendas da Mantiqueira no Brasil.
Há cinco anos, esse percentual era de apenas 2% ou 3%. Isso mostra como o consumidor está disposto a experimentar produtos diferentes quando existe uma proposta clara de valor.
A sociedade com a JBS também trouxe alguma integração em outras etapas da cadeia, como na destinação das galinhas que deixam de produzir ovos?
Trouxe, sim. A Seara [marca controlada pela JBS] comprou um frigorífico pequeno que a Mantiqueira tinha e assumiu o negócio. Isso nos deu tranquilidade para ter para quem destinar as galinhas todos os dias, quando for necessário, porque a Seara tem mercados aos quais a Mantiqueira não teria acesso.
Nós entendemos que era melhor vender o frigorífico para eles e deixar que tocassem o negócio. Mantínhamos essa operação por necessidade, porque precisávamos ter onde abater as galinhas. Eles fazem isso para ganhar dinheiro, porque essa é a expertise deles. Abatem milhões de frangos e galinhas por dia e possuem uma equipe comercial preparada para isso. Hoje, 100% da produção desse frigorífico é destinada à exportação.
Quando ocorreu essa operação?
O negócio foi concluído em fevereiro. A Seara assumiu em janeiro.
Era o único frigorífico da Mantiqueira?
Sim. Nós tínhamos um frigorífico porque precisávamos ter uma destinação para as galinhas. Uma granja grande como a nossa precisa ter começo, meio e fim. Quando uma galinha nasce, você já precisa saber quando ela deixará a granja. Não dá para conviver com essa incerteza.
Quais são os principais desafios para os próximos anos?
O maior desafio continua sendo a sanidade animal. A gripe aviária é uma preocupação constante para toda a indústria.
O Brasil ainda possui uma posição privilegiada em relação a muitos mercados globais e precisamos preservar isso. Fazemos tudo o que está ao nosso alcance em termos de biosseguridade, processos e controles.
Mas existe um componente biológico que foge do controle das empresas. Por isso, o dever de casa precisa ser feito todos os dias.
E hoje qual é o grande foco da Mantiqueira?
Consolidar nossa presença nos Estados Unidos, ampliar nossa participação no Brasil e continuar acompanhando a evolução do consumo de proteínas.
O consumo de ovos cresceu cerca de 70% entre 2014 e 2026.
Estamos falando de uma proteína acessível, saudável, versátil e fácil de preparar. Todos os investimentos que fazemos hoje estão ligados às mudanças dos hábitos alimentares e à busca crescente por proteínas de qualidade. Nosso foco é tecnologia, pessoas, eficiência e inovação. Queremos transformar cada vez mais ovos em produtos de maior valor agregado e levar mais qualidade para a mesa do consumidor.
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