Revolut investirá US$ 1 bi na América Latina e vê no Brasil maior mercado de expansão

O valor é um piso para investimentos no Brasil, no México, na Colômbia, no Peru e na Argentina; executivos dizem que a fintech não tem aquisições em andamento no Brasil e citam o Chile como próximo mercado de interesse na região

Sede da Revolut, em Londres:  investimento cobre os cinco países onde a empresa já opera ou prepara sua entrada na América Latina. (Foto: Chris Ratcliffe/Bloomberg)
PUBLICIDADE

Bloomberg Línea — A Revolut espera que um em cada quatro novos clientes que conquistar no mundo em 2027 venha da América Latina e dos Estados Unidos. Para isso, a fintech britânica reservou US$ 1 bilhão para investir na região e trata o valor como um mínimo, que pode subir conforme os projetos avançarem.

“Reservamos, por enquanto, US$ 1 bilhão para investimento na região, valor que pode crescer nos próximos anos à medida que nossos projetos evoluírem”, disse Carlos Urrutia, gerente-geral de expansão internacional da Revolut, em encontro com jornalistas em São Paulo na quinta-feira (5).

PUBLICIDADE

O investimento cobre os cinco países onde a empresa já opera ou prepara sua entrada na região: Brasil, México, Colômbia, Peru e Argentina. O plano é investir os recursos ao longo de alguns anos, e não apenas em 2027.


⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Segundo Ignacio Zunzunegui, head de crescimento da Revolut para as Américas e o sul da Europa, o valor ainda não foi dividido por produto, e a maior parte deve ir para a expansão e o crescimento dos negócios na região.

PUBLICIDADE

Glauber Mota, CEO da Revolut no Brasil, disse que a alocação dos recursos é revista a cada trimestre. “Conquistamos esse compromisso de US$ 1 bilhão como investimento mínimo. Se virmos, trimestre a trimestre, oportunidades que valham acelerar, somos uma empresa saudável, com um balanço sólido”, afirmou.

Leia também: Revolut é avaliada em US$ 115 bilhões em venda secundária, alta de 53% em quase um ano

O plano para a região foi apresentado na mesma semana em que a Revolut concluiu uma venda secundária de ações que avaliou a empresa em US$ 115 bilhões, 53% acima da avaliação da rodada de novembro de 2025.

PUBLICIDADE

Na operação, acionistas atuais, entre eles funcionários, venderam suas participações a outros investidores. Para Mota, o interesse dos investidores se explica pela diversificação de receitas e de geografias da companhia e pela meta de chegar a 100 países.

Colômbia, Peru e Argentina

Segundo Urrutia, a Revolut escolheu os países do atual ciclo de expansão com base em quatro critérios: reguladores abertos a novos participantes, uma população jovem e numerosa, a propensão ao uso de serviços digitais e os vínculos com os mercados onde a empresa já opera. Segundo ele, a América Latina atendeu aos quatro critérios.

A empresa opera em cerca de 40 mercados, dos quais dois ficam na América Latina, Brasil e México. Para Urrutia, a projeção de que a região responda por 25% dos novos cadastros em 2027 dá a dimensão do peso que ela passou a ter na estratégia global.

PUBLICIDADE

Na Colômbia, a Revolut já tem a autorização bancária completa e está na reta final para o lançamento, com testes internos que serão seguidos de testes externos antes da abertura ao público.

No Peru, a empresa obteve a primeira etapa da autorização. “Os reguladores peruanos nos disseram que podemos constituir o banco e que devemos voltar quando estivermos prontos para a auditoria da operação”, disse Urrutia.

Leia também: Revolut mira IPO nos EUA e desafia gigantes para ‘dominar’ mercado americano, diz CEO

Na Argentina, a Revolut concluiu na semana passada a transferência de controle do Banco Cetelem, comprado do BNP Paribas e aprovado pelo Banco Central da República Argentina (BCRA) em setembro. A instituição vai se chamar Revolut Bank Argentina.

Questionado pela Bloomberg Línea sobre quando a empresa começará a abrir contas no país, Urrutia disse que ainda é cedo para definir uma data. Segundo ele, a transferência de controle foi um processo societário e de responsabilidade regulatória, já que o banco estava inativo e não tinha clientes.

“Estamos construindo o banco. Minha percepção é que o lançamento vai acontecer em algum momento do ano que vem, mais para o segundo semestre”, afirmou.

Zunzunegui disse que a lista de espera na Argentina tem uma demanda alta. Segundo ele, a procura é puxada por argentinos que vivem no exterior e já usam a Revolut em outros países e pelas soluções de câmbio da empresa. Em setembro, a Revolut informou que a lista passava de 150 mil pessoas.

A ideia é lançar a operação argentina com o maior número possível de produtos, como foi feito no México. “O que aprendemos no México é que o lançamento com a maior variedade de produtos é o que tem mais chance de crescer mais rápido e de ser mais lucrativo”, disse Zunzunegui. A operação mexicana começou no início deste ano com licença bancária e chegou a 1 milhão de clientes em oito meses.

Fora dos cinco países prioritários, o Chile é o mercado que mais interessa à empresa na região. “Não podemos dar prazos para o Chile. É mais uma questão de quando do que de se”, disse Urrutia. Ele afirmou que não há outros projetos concretos na América Latina, mas que espera que novos mercados entrem na lista, já que a meta da Revolut é chegar a 100 países.

Segundo Urrutia, a empresa chegou a um ritmo de dois lançamentos a cada seis meses, meta definida pelo CEO, Nik Storonsky. Neste semestre, a Revolut lançou operações bancárias na Austrália e na Nova Zelândia.

Aquisições

Questionado pela Bloomberg Línea se o investimento de US$ 1 bilhão inclui aquisições como a da Argentina, Urrutia disse que nenhum outro país da atual expansão na América Latina é alvo de negociações de compra. Ele afirmou, porém, que a empresa avalia oportunidades de M&A quando elas aparecem.

“Esse US$ 1 bilhão é um mínimo. Dependendo do tamanho de uma oportunidade de M&A, vamos avaliá-la de forma independente”, disse. Segundo ele, as aquisições podem servir para a entrada em um país, para acelerar o crescimento ou para incorporar um produto ou uma tecnologia de interesse.

Sobre possíveis aquisições no Brasil, Urrutia respondeu que não há “nada ativo neste momento”.

Zunzunegui disse que a Revolut prefere desenvolver tudo internamente, para ter controle da operação e evitar integrar tecnologias que nem sempre atendem aos padrões da empresa.

Segundo ele, uma aquisição só faz sentido quando reduz o tempo de entrada no mercado. A Argentina, onde poucas licenças bancárias foram concedidas nos últimos anos, foi um desses casos.

“Foi uma oportunidade única, porque não é sempre que se encontra um banco totalmente inativo, em que não é preciso integrar tecnologias, migrar clientes nem fundir culturas diferentes”, disse Urrutia. Ele acrescentou que a empresa considera aquisições em alguns países fora da América Latina “por necessidade, não por desejo”.

No Brasil, a Revolut também quer ter licença bancária, mas não tem prazo para isso. “Não há mudança na nossa estratégia original. Sempre dissemos que queremos ser um banco com licença plena em todos os países onde estamos, e isso inclui o Brasil. A questão é o momento”, disse Mota.

Segundo ele, o assunto volta à pauta a cada trimestre. “Se eu fizer isso cedo demais, podemos perder algo. Se fizer tarde demais, há custo de oportunidade.”

Um caso recente foi o do Nubank, que anunciou em julho a compra do Banco Porto Real para atender à regra do Banco Central que proíbe instituições sem licença bancária de usar o termo “banco” no nome. Segundo Mota, a Revolut não tem essa necessidade, já que não usa “banco” na marca. A licença serviria para otimizar o balanço quando a operação de crédito ganhar escala.

Crédito e Brasil

Os executivos disseram que o crédito é uma demanda dos clientes na região, mas que a Revolut não pretende depender dele, como fazem outras fintechs latino-americanas. Segundo Mota, a visão de Storonsky é tratar o crédito como um ganho adicional, e não como a base do negócio.

De acordo com ele, a empresa avalia instrumentos para tirar risco do balanço, como securitizações e a venda de carteiras. Ele afirmou que a relação entre empréstimos e depósitos do grupo era de 3% a 4% no último balanço divulgado, o que, em sua avaliação, deixa espaço para crescer.

O Brasil é hoje o maior mercado de expansão da Revolut e está entre os três que mais crescem no grupo, segundo Mota. A empresa não divulga o número de clientes no país.

A operação brasileira foi lançada em 2023 e tem duas empresas: uma instituição financeira regulada, com cerca de 120 funcionários, e uma empresa de tecnologia, com cerca de 140.

Essa estrutura presta serviços compartilhados a outros países. “Construímos a ponte primeiro, e quem vem depois pode usá-la e ir mais rápido”, disse Mota.

Segundo Urrutia, o primeiro time de pagamentos da Revolut nas Américas foi montado no Brasil e hoje desenvolve as integrações de pagamentos nos Estados Unidos, no México, na Colômbia, no Peru e na Argentina.

Leia também

CFO do Mercado Livre defende investimentos ousados após lucro abaixo das estimativas

Revolut obtém aval do BC da Argentina para comprar o Banco Cetelem, do BNP Paribas

Como esta ex-banqueira do Goldman virou peça-chave para fintechs como o Nubank nos EUA