‘Braço direito de CEOs’, chefes de gabinete viram peça-chave para executivos em Wall St

Função estratégica cresce nos setores de tecnologia e finanças e ganha espaço entre executivos de diferentes níveis hierárquicos. Demanda pelo cargo mais que dobrou em 2026, com salários de até US$ 400 mil por ano e expansão para além das grandes corporações

Sheryl Sandberg aproveitou sua experiência como chefe de gabinete do Secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, para conquistar um cargo de destaque no Google, antes de se tornar COO do Facebook (Foto: Michael Short/Bloomberg)
Por Matthew Boyle
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Bloomberg — Um número crescente de líderes empresariais, sobrecarregados pelo estresse e pela incerteza da era da IA, está buscando uma solução bem humana: um chefe de gabinete (chief of staff no original em inglês).

As vagas para o cargo mais do que dobraram no ano passado, de acordo com a Revelio Labs, com salários que podem chegar a US$ 400.000 por ano.

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E o número de profissionais na América do Norte que atualmente ocupam o cargo mais que triplicou desde 2021, segundo a Live Data Technologies, com o aumento sendo especialmente perceptível nos setores de tecnologia e serviços financeiros.

Parte confidente, parte assistente pessoal e parte conselheiro, a função moderna de chefe de gabinete tomou forma nas forças armadas da era napoleônica, depois migrou para a esfera política e agora é representada por experientes operadores do West Wing, como Jim Baker, de Ronald Reagan, Rahm Emanuel, de Barack Obama, e Susie Wiles, de Donald Trump.

Grandes empresas de capital aberto adotaram o cargo nos últimos anos para seus CEOs que viajam pelo mundo, mas agora ele está se expandindo para empresas menores e até mesmo para além da alta administração.

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“A complexidade da função do CEO nos últimos cinco anos multiplicou-se a tal ponto que o CEO não consegue mais simplesmente sentar-se e refletir”, afirmou Craig Stevens, sócio-gerente da Boyden, uma empresa de recrutamento de executivos e consultoria. “O chefe de gabinete proporciona ao CEO um respiro.”

No entanto, um bom profissional nessa função faz mais do que isso: ele amplia a visão do chefe, lidera projetos estratégicos e desafia o pensamento de grupo que tende a surgir nas salas de reunião da alta direção.

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“Você precisa ser capaz de dizer ao CEO o que realmente pensa”, afirmou Saj Cherian, ex-chefe de gabinete de Michael Rubin, fundador e CEO da Fanatics, uma empresa que oferece uma gama completa de produtos esportivos. “E nem sempre é o que eles querem ouvir.”

Cherian, que hoje ocupa um cargo executivo na própria Fanatics, trabalhou como consultor da McKinsey e no setor de capital de risco antes de se tornar o braço direito de Rubin em 2011. Ele conta que não fazia ideia do que a função envolvia quando começou — “foi um voto de confiança de ambas as partes” —, mas lembra que houve uma sintonia imediata com Rubin. Segundo ele, a afinidade pessoal é fundamental para o sucesso no cargo.

Como disse Stevens: “Você se conecta mais à pessoa do que ao cargo”. E essa conexão é ininterrupta, ocorrendo 24 horas por dia, sete dias por semana, segundo Ann Hiatt, que prestou assistência a Jeff Bezos na Amazon no início dos anos 2000 e, mais tarde, a Eric Schmidt, do Google, quando ele era CEO e presidente do conselho da gigante da internet.

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“O trabalho consome você”, disse Hiatt, que hoje atua como consultora de CEOs e conselhos de administração.

“Sua agenda não lhe pertence. É um trabalho que traz enormes retornos, mas exige um sacrifício enorme em troca.”

O tempo médio de permanência no cargo é de apenas 2,3 anos, segundo uma pesquisa da McKinsey. Os salários geralmente variam entre US$ 250 mil e US$ 300 mil, de acordo com Marc Cenedella, fundador da Ladders (plataforma de vagas de alto nível), embora ocasionalmente possam ser mais elevados.

As demandas do cargo não são apenas incessantes, mas também muito variadas, abrangendo desde tarefas administrativas até responsabilidades estratégicas e operacionais.

Em um momento, o profissional está fazendo anotações em uma reunião ou redigindo um discurso para o CEO; no instante seguinte, é incumbido de ajudar a conquistar um novo mercado ou de avaliar o clima no chão de fábrica.

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A combinação de responsabilidades fica a critério do chefe e geralmente depende dos tipos de desafios enfrentados pela organização e das habilidades específicas de quem ocupa o cargo de chefe de gabinete.

“Não existe um modelo único”, disse Richard Moore, CEO da Mercuri Urval (MU), consultoria de médio porte especializada em busca de executivos e liderança, sediada em Londres. Assim como um caddie para um jogador de golfe profissional, às vezes o chefe de gabinete é um parceiro valioso, profundamente envolvido em táticas complexas, enquanto em outros momentos está simplesmente segurando a bolsa nos bastidores.

“É uma função curiosa: é exercida por pessoas ambiciosas, mas exige humildade, pois o trabalho não gira em torno de você”, disse Andrew Goodman, sócio sênior da McKinsey e que também já atuou como chefe de gabinete (A McKinsey realiza um Fórum de chefes de gabinete várias vezes ao ano, onde os ocupantes do cargo se reúnem para compartilhar lições sobre como sobreviver e prosperar na função).

Os profissionais que assumem o cargo vêm de diversas áreas do mundo corporativo, desde assistentes executivos até gerentes de projetos ou consultores de estratégia. Podem estar no início da carreira ou já na casa dos 50 anos. No entanto, segundo a McKinsey, a maioria dos chefes de gabinete é recrutada internamente, uma vez que a função exige um conhecimento profundo de como a organização realiza suas atividades.

Outro traço comum é a habilidade de observação e persuasão. “Você precisa saber ler o ambiente”, disse Trent Smyth, CEO da Chief of Staff Association, organização que conduz programas educacionais na Universidade de Oxford e na Harvard Business School voltados para profissionais mais experientes na função.

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À medida que o cargo se consolida e passa a integrar os organogramas corporativos, tornou-se comum que grandes empresas tenham vários chefe de gabinete atendendo a grande parte da alta cúpula (C-Suite) e até mesmo presidentes de divisões, afirmou Goodman, da McKinsey. Só a Microsoft conta com mais de 300 profissionais nessa função, segundo uma análise de perfis profissionais online realizada pela Revelio (a gigante de tecnologia não quis comentar).

Os esforços crescentes dos CEOs para cortar custos e reduzir a burocracia podem colocar em risco os cargos de chefe de gabinete.

Existe também a possibilidade de que algumas das funções mais rotineiras desempenhadas por esses profissionais passem a ser realizadas por inteligência artificial.

No entanto, competências como capacidade de julgamento, comunicação e influência sobre os outros são difíceis de automatizar. Enquanto isso, a rápida adoção da IA ​​por executivos pode oferecer aos seus chefes de gabinete a oportunidade de ganhar destaque ao criar novos fluxos de trabalho, painéis de controle executivos e sistemas de prestação de contas, segundo Catherine Berardi, ex-chefe de gabinete de Mellody Hobson, da Ariel Investments.

Para aqueles que se destacam na função de chefe de gabinete, cargos de alto nível os aguardam. Dois terços dos profissionais que ocuparam esse cargo foram promovidos após o período na função, de acordo com uma pesquisa da McKinsey, e alguns chegam a retornar ao cargo mais tarde em suas carreiras.

O exemplo mais emblemático é o de Sheryl Sandberg, que aproveitou sua experiência como chefe de gabinete do Secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, para conquistar um cargo de destaque no Google, antes de se tornar COO do Facebook.

Um ex-chefe de gabinete do CEO da SAP SE ocupa hoje o cargo de diretor de operações na fabricante alemã de software. Cherian, por sua vez, agora lidera a Fanatics Ventures — uma nova unidade de negócios —, onde tem a missão de reformular a cadeia de suprimentos de mercadorias.

“Foi um trampolim extraordinário”, disse Cherian, que também aconselha outros líderes empresariais na contratação de seus próprios chefes de gabinete.

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