Bloomberg — John Arnold, o bilionário que foi trader de energia antes de se tornar filantropo, fez sua fortuna prevendo a direção dos mercados. Agora, ele soa o alarme sobre os mercados de previsão e apostas esportivas em rápida expansão, afirmando que são prejudiciais principalmente a homens e jovens do sexo masculino.
Sua preocupação reside na forma como as plataformas de contratos em eventos esportivos e apostas online (as chamadas bets) em geral são projetadas para manter os usuários constantemente engajados.
Ao contrário das formas tradicionais de jogo, as apostas podem ser feitas de maneira fluida — de forma rápida e fácil por meio de aplicativos para celular com links diretos para contas bancárias, disse ele.
Isso eleva o risco de vício, especialmente entre jovens do sexo masculino, cada vez mais visados pelas plataformas de apostas esportivas, acrescentou.
“Os sites criaram, deliberadamente ou não, um caminho para que adolescentes abram contas e comecem a apostar pesado”, disse Arnold, de Houston, em entrevista por telefone à Bloomberg News. “Isso leva a um comportamento muito mais irresponsável.”
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Em vez de uma proibição total, John Arnold pede a criação de salvaguardas e citou pesquisas iniciais que mostram que as apostas esportivas podem levar usuários ao endividamento e a problemas de saúde mental.
Sua fundação destina pelo menos US$ 4 milhões neste ano para lidar com os impactos das apostas esportivas.
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Os mercados de previsão ligados a eventos do mundo real, como guerras e eleições, estão em expansão. A Kalshi domina as bolsas americanas, e as apostas esportivas respondem por cerca de 80% do volume negociado no mês passado, segundo o Bank of America.
O banco estima que o mercado americano de contratos relacionados a esportes pode chegar a cerca de US$ 1,1 trilhão por ano.
O crescimento acelerado intensifica o debate no setor financeiro sobre a linha entre investimento e jogo. Rick Wurster, CEO da Charles Schwab, disse na última semana que a corretora analisa mercados de previsão ligados a eventos financeiros, mas vai evitar apostas esportivas, que ele descreveu como incompatíveis com a missão da empresa e potencialmente prejudiciais aos usuários ao longo do tempo.
A Cboe Global Markets anunciou planos de lançar sua própria plataforma de mercados de previsão, mas evitará por ora produtos relacionados a esportes, por falta de clareza jurídica e regulatória.
Os mercados de previsão são regulados em âmbito federal e abertos em todo o país, inclusive para pessoas com menos de 21 anos. Os sites de apostas, porém, são regidos pelas leis estaduais.
Arnold, de 52 anos, disse não ser contrário aos mercados de previsão em geral, incluindo os ligados a eventos geopolíticos como guerras. Eles podem ter usos legítimos, como oferecer sinais de preço que permitem às empresas fazer hedge de riscos políticos, disse ele.
Além disso, apostas como a duração do cessar-fogo iraniano podem se desenvolver ao longo de dias ou semanas, e não instantaneamente, e por isso não estimulam o comportamento viciante como as apostas esportivas, acrescentou.
Ex-trader de energia da Enron, Arnold tocou um fundo de hedge que, duas décadas atrás, lucrou ao apostar contra outro fundo, a Amaranth Advisors, que implodiu após perder bilhões de dólares nos mercados de energia.
Ele se tornou o bilionário mais jovem dos Estados Unidos à época. Arnold encerrou seu fundo em 2012, aos 38 anos, para se dedicar à filantropia com sua esposa.
Como os mercados de previsão baseados em esportes se assemelham a jogos de azar, devem ser regidos pelas leis estaduais de jogos, disse Arnold.
Atualmente, os mercados de previsão são regulados pela Commodity Futures Trading Commission, que classifica as apostas esportivas como “contratos de eventos.”
Arnold elogiou uma proposta bipartidária apresentada no mês passado pelos senadores John Curtis e Adam Schiff, que buscam impedir entidades registradas na CFTC de listar contratos semelhantes a apostas esportivas ou a “jogos de cassino.”
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O ex-trader disse que os estados legalizaram as apostas esportivas após uma decisão da Suprema Corte em 2018 por causa da receita fiscal potencial. Os legisladores depois começaram a ver as consequências de sua decisão, disse ele.
Arnold contou que sua preocupação com as apostas esportivas cresceu depois que seu filho adolescente perguntou sobre abrir uma conta de investimentos e mencionou que colegas de escola haviam acessado essas plataformas mesmo sendo menores de idade. Arnold disse que não permitiu que o filho fizesse o mesmo.
Arnold criticou a Robinhood Markets, afirmando que a plataforma de negociação borrou a linha entre investimento e jogo.
A Robinhood disse em comunicado que, ao se cadastrar, novos clientes são perguntados se têm interesse em produtos além de ações e fundos negociados em bolsa, incluindo mercados de previsão e criptomoedas.
Em caso afirmativo, precisam abrir contas separadas para essas classes de ativos, informou. A Robinhood lançou neste ano uma funcionalidade que permite aos clientes optar por não ter acesso a contratos de eventos esportivos.
“Quando instituições tradicionais ou indivíduos se sentem ameaçados pela inovação, costumam questionar se investidores comuns deveriam ter permissão para participar”, disse JB Mackenzie, vice-presidente de futuros e mercados de previsão da Robinhood.
Ele acrescentou que todos os clientes elegíveis deveriam ter acesso a mercados regulados em âmbito federal e tomar suas próprias decisões de investimento.
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Arnold também disse que as plataformas de apostas esportivas permitem que usuários façam apostas contínuas em segundos e estimulam o engajamento por meio de recursos como as apostas “parlay”, compostas por múltiplas apostas em estatísticas individuais.
“Não é uma aposta que você faz, são 20 apostas ao mesmo tempo”, disse ele.
As pesquisas sobre os impactos das apostas esportivas ainda estão em fase inicial, disse Arnold, acrescentando que aguarda mais evidências antes de pressionar por mudanças de política.
Enquanto isso, sugere verificação de idade mais rigorosa, limites de apostas e restrições de publicidade. Listas de autoexclusão — programas voluntários que permitem aos apostadores se excluírem dos jogos — também poderiam ajudar, acrescentou Arnold.
Além do endividamento, os prejuízos podem incluir queda no score de crédito e problemas de saúde mental — e, em casos extremos, suicídio. Arnold disse que um de seus amigos tirou a própria vida por causa de dívidas de jogo.
Embora os homens sejam mais propensos do que as mulheres a ter problemas com jogos de azar em geral, no caso das apostas online as mulheres têm mais do que o dobro de chances de desenvolver problemas, segundo relatório de 2026 do Massachusetts Council on Gaming and Health.
A fundação de Arnold destinou US$ 2 milhões neste ano ao American Institute for Boys and Men, em Washington, para criar um grupo de políticas focado em apostas esportivas.
A fundação também planeja anunciar nos próximos meses mais de US$ 2 milhões para estudos sobre os impactos financeiros, comportamentais e sociais das apostas esportivas.
Isso faz parte de um esforço mais amplo voltado para meninos e jovens do sexo masculino. No ano passado, sua fundação e o governador de Maryland, Wes Moore, anunciaram US$ 20 milhões em doações para programas que incluíam apoio a jovens do sexo masculino.
A fundação também destinou recursos a causas como reforma do sistema de justiça criminal e educação superior.
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