Tarifas dos EUA dão a Lula novo trunfo eleitoral contra Flávio

Ameaça tarifária anunciada na noite de segunda-feira pelo USTR reacendeu as tensões entre Brasil e Estados Unidos e ameaçou comprometer os esforços dos dois presidentes para reconstruir uma relação que já havia sido abalada por outra disputa comercial no ano passado

A campanha de Lula enviou orientações a aliados para tratar as novas taxas como 'TariFlávio' (Foto: Ton Molina/Bloomberg)
Por Beatriz Reis - Barbara Nascimento - Daniel Carvalho

Bloomberg — Poucas horas depois de os Estados Unidos proporem tarifas de 25% sobre o Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia encontrado uma forma de explorar politicamente a ameaça.

Seus aliados passariam a chamá-la de “TariFlávio”, em referência ao seu principal adversário na eleição presidencial de outubro: Flávio Bolsonaro, que se reuniu com Donald Trump na Casa Branca na semana passada.

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A campanha de Lula enviou orientações a aliados, dirigentes partidários locais e apoiadores para divulgar o apelido nas redes sociais, segundo uma pessoa familiarizada com a situação ouvida pela Bloomberg News que pediu anonimato.

À tarde, “TariFlávio” já estava entre os assuntos mais comentados no X no Brasil, juntamente com uma expressão que chamava Bolsonaro de “inimigo do Brasil”.


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A ameaça tarifária anunciada na noite de segunda-feira pelo gabinete do US Trade Representative (USTR) reacendeu as tensões entre Brasil e Estados Unidos e ameaçou comprometer os esforços de Lula e Trump para reconstruir uma relação que já havia sido abalada por outra disputa comercial no ano passado.

A medida também deu a Lula, de 80 anos, uma linha de ataque pronta contra Flávio em uma eleição que as pesquisas indicam ser disputada.

No ano passado, a popularidade do líder de esquerda aumentou depois que ele acusou Trump de ameaçar a soberania brasileira ao impor tarifas de 50% sobre produtos do país em uma tentativa de governo americano de ajudar o pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro, a evitar uma condenação por tentativa de golpe.

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Lula agora adota estratégia semelhante, retratando o filho de Bolsonaro como um “traidor” que teria incentivado mais interferência estrangeira nos assuntos brasileiros.

“Não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos EUA pedir intervenção americana no Brasil”, disse Lula durante um evento no estado de Goiás.

Flávio Bolsonaro tentou se distanciar das tarifas. Em entrevista a uma rádio local na manhã de terça-feira, afirmou que havia pedido a Trump e a outras autoridades americanas que evitassem impor novas tarifas ao Brasil durante sua recente viagem a Washington.

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Leia também: Suprema Corte dos Estados Unidos decide contra tarifas comerciais de Trump

Mais tarde, anunciou que enviou uma carta formal ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, pedindo que o governo americano não avançasse com a medida.

“A imposição de novas tarifas causaria sérios prejuízos ao povo brasileiro — justamente os cidadãos que veem os Estados Unidos como um parceiro e um amigo”, escreveu Flávio.

No entanto, esses esforços foram complicados pela própria viagem à capital americana. Após o encontro, Flávio reivindicou crédito pela decisão de Rubio de classificar duas grandes facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras.

E, justamente quando o apelido criado pela campanha de Lula começava a ganhar força, Trump entrou na discussão ao publicar uma foto com Flávio no Salão Oval e chamá-lo de “um jovem inteligente que ama muito seu país, o Brasil”.

Pix

A disputa comercial com os Estados Unidos traz alguns riscos econômicos para o país.

Cerca de 21% das exportações brasileiras para os EUA poderão ser afetadas caso as tarifas sejam implementadas, disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, a jornalistas em Brasília na terça-feira.

Leia também: EUA concluem investigação contra práticas comerciais do Brasil e ameaçam novas tarifas

Mas os mercados reagiram com relativa tranquilidade ao anúncio, considerando o grande número de exceções concedidas a produtos importantes.

O Brasil já enfrentou uma tarifa ainda maior no ano passado, e suas exportações atingiram níveis recorde em 2025 apesar de meses de tarifas impostas por Trump.

A proposta tem se mostrado um risco político maior para Bolsonaro, principalmente porque a investigação comercial dos EUA teve como alvo o pix.

Diferentemente das tarifas, que afetam principalmente exportadores e empresas, o pix faz parte da vida cotidiana de praticamente todos os brasileiros.

O sistema, lançado pelo Banco Central em 2020, já conta com cerca de 170 milhões de usuários, tornando-se uma das inovações mais bem-sucedidas do setor público brasileiro e um símbolo da independência tecnológica do país.

A popularidade do sistema — usado para pagar desde contas de serviços públicos até vendedores ambulantes na praia — também o transformou em alvo de grandes empresas de cartões de crédito e gigantes da tecnologia, que argumentam que ele desfruta de vantagens injustas e deveria atender a padrões de segurança mais elevados.

O que diz a Bloomberg Economics: “O Brasil poderia oferecer concessões simbólicas na maioria das áreas, embora não em todas — especialmente não nos serviços de pagamento eletrônico. A plataforma de pagamentos pix está profundamente consolidada, respondendo por 55% das transações de pagamento e 29% do valor total das transações no país”, afirmaram Jimena Zuniga e Adriana Dupita.

Mas a adoção desses argumentos pelos EUA pode permitir que Lula se apresente como o principal defensor do pix contra interferências estrangeiras — uma oportunidade que ele parece pronto para aproveitar.

Embora o Brasil esteja disposto a discutir outros pontos levantados pelo USTR, não pretende negociar sobre o sistema de pagamentos, afirmou Elias Rosa. Lula deu sinais disso no evento em Goiás. Ao chegar, o presidente exibiu uma cartolina com o slogan “O pix é do Brasil”. Ele foi recebido com aplausos de pé.

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