Demanda por petróleo segue forte, apesar de temores sobre desaceleração global

Preocupação com a economia da China derrubou as cotações nas últimas semanas, mas os indicadores de demanda ainda não mostram uma retração, o que tem reflexos para a Petrobras

Estoques têm diminuído no mundo todo e devem se esgotar ainda mais rápido, à medida que a Arábia Saudita e aliados da Opep+ implementam novos cortes de oferta
Por Alex Longley - Grant Smith - Sharon Cho

Bloomberg — As últimas semanas têm sido turbulentas para os mercados de petróleo, arrastados pela preocupação sobre a saúde da economia global. Mas a demanda real pela commodity ainda parece forte o suficiente para puxar uma recuperação dos preços.

O barril Brent, usado como referência internacional para a Petrobras (PETR3; PETR4) e outras empresas, caiu para perto de US$ 70 na quinta-feira (4), depois de recuar 17% desde meados de abril devido aos temores de recessão nos EUA e sinais de uma recuperação decepcionante na China.

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Em Nova York, o barril WTI despencou na abertura e ampliou as perdas nas últimas três semanas para US$ 20, mas depois recuperou terreno. Nesta sexta, o Brent operava em alta de 3,94%, a US$ 75,35 o barril, às 12h (horário de Brasília), enquanto o WTI subia 4,19%, a US$ 71,43.

Apesar das quedas nas últimas semanas, há sinais de resiliência no mercado de petróleo subjacente. A China tem trazido um alto volume de cargas diante da retomada das viagens domésticas, e traders esperam que as compras de petróleo do país permaneçam altas nos próximos meses.

Os estoques têm diminuído no mundo todo e devem se esgotar ainda mais rápido, à medida que a Arábia Saudita e aliados da Opep+ implementam novos cortes de oferta.

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Com isso, até mesmo alguns dos analistas mais pessimistas do setor estão convencidos de que um déficit está a caminho, o que deve puxar a recuperação nos preços.

“A onda vendedora foi muito maior do que os saldos do mercado estão mostrando — ou seja, estoques mais baixos com a perspectiva de redução das reservas diante da chegada do verão do hemisfério norte “, disse Ed Morse, do Citigroup. O banco mantém uma das projeções de preço mais cautelosas em Wall Street este ano.

O recuo do petróleo traz certo alívio para consumidores após o choque inflacionário infligido pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Também traz uma dor de cabeça para traders de petróleo que apostavam em um rali e coloca em risco os ganhos colhidos por grandes petroleiras e países produtores como a Arábia Saudita e o Iraque.

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Demanda de refinarias

A retração das cotações do petróleo começou com os fundamentos. As compras por refinarias na Ásia foram fracas em abril, uma vez que as margens de produção de combustíveis caíram. Em um aceno a essa desaceleração, a Arábia Saudita cortou seus preços de petróleo para entrega em junto cobrados de processadores asiáticos na quinta-feira.

Enquanto isso, os suprimentos do principal exportador, a Rússia, permanecem altos, apesar das ameaças do governo de Moscou de reduzir a produção em retaliação às sanções pela invasão da Ucrânia.

O mercado perdeu força, e na terça-feira o Morgan Stanley — um dos primeiros a prever o petróleo a US$ 100 o barril — deixou de lado projeções de qualquer rali significativo neste ano.

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A forte queda foi motivada pelo cenário desafiador para a economia e problemas persistentes no setor bancário, que se espalharam pelos mercados. Investidores que apostavam na baixa voltaram ao mercado pela primeira vez desde que a aliança Opep+, liderada pela Arábia Saudita, anunciou novos cortes de produção no início de abril.

Mas o consumo de petróleo ainda parece saudável e pode até subir mais nos próximos meses, de acordo com o UBS, que em nota a clientes na quinta-feira recomendou aumentar posições compradas em Brent. O mercado físico, onde o petróleo real é negociado, continua forte e a oferta está “bastante restrita”, disse o CEO da Shell, Wael Sawan, na quinta-feira.

Enquanto traders ainda esperam dados sobre as compras de petróleo na Ásia este mês para obter mais pistas sobre a demanda, a China busca cargas após o fim de medidas restritivas para frear a Covid. O número de voos no país disparou nos cinco dias de feriado do Dia do Trabalho, com 9,42 milhões de viagens aéreas de passageiros — um aumento de 4,2% em relação ao mesmo período de 2019.

O consumo mundial de petróleo também dá sinais positivos e deve crescer em 2 milhões de barris por dia este ano, para um recorde de 101,9 milhões de barris diários, de acordo com a Agência Internacional de Energia, em Paris.

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