Dívida da Americanas na verdade é de R$ 47,9 bilhões, diz administrador judicial

Valor é R$ 6,6 bilhões maior que o informado pela empresa à Justiça; varejista disse que diferença se refere a debêntures emitidas entre companhias do mesmo grupo

Relação de credores apresentada pela Americanas tinha informações incompletas ou imprecisas, como CNPJs duplicados e credores com R$ 0 de crédito, disse administrador judicial à Justiça do Rio de Janeiro
02 de Fevereiro, 2023 | 12:03 PM

Bloomberg Línea — Pela quarta vez em três semanas, a Americanas tem um novo valor para a estimativa de sua dívida.

A dívida total é na verdade de R$ 47,9 bilhões, segundo análise da relação de credores apresentada pela empresa feita pelo administrador judicial da recuperação judicial. O valor foi informado na quinta-feira (2) e é R$ 6,6 bilhões acima dos R$ 41,2 bilhões declarados anteriormente à Justiça do Rio de Janeiro.

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Diante da diferença das contas, a administradora judicial pediu para a empresa se explicar. A Americanas disse então que a discrepância se refere aos valores das debêntures em que a Americanas é devedora da B2W, da B2W Digital Lux e da JSM Global, todas do mesmo grupo.

“As debêntures foram emitidas intragrupo apenas para criar um canal de transferência de recursos da Americanas S/A para as recuperandas estrangeiras, visando ao pagamento dos Bonds (as debêntures ‘espelham’ os bonds)”, informou a empresa.

No entendimento da Americanas, esse valor deve ser “expurgado” do endividamento consolidado, “sob pena de duplicidade”. “Há apenas uma dívida, decorrente da emissão dos bonds, e um canal intragrupo para remessa de recursos para o pagamento daquela dívida”, segue a explicação.

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Antes da revelação das tais “inconsistências contábeis” da ordem de R$ 20 bilhões no dia 11 de janeiro, a dívida da Americanas estava em R$ 19,3 bilhões ao fim do terceiro trimestre - os dados do quarto trimestre não foram divulgados. No pedido de recuperação judicial em 19 de janeiro, a empresa apontou R$ 43,1 bilhões em dívida; uma semana depois, retificou para R$ 41,2 bilhões.

Segundo especialistas, tantas mudanças refletem um descontrole das contas pela Americanas.

As contas estão em petição enviada à Justiça nesta quinta, na primeira manifestação da administração judicial da recuperação ao juiz do caso. A administração é feita pelo escritório do advogado Bruno Rezende, o Preserva-Ação Administração Judicial (PSVAR), e pelo Escritório de Advocacia Zveiter, do ex-deputado Sérgio Zveiter.

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Na petição, os advogados informaram que “a matéria será analisada de forma pormenorizada” em momento posterior.

Desde a revelação do rombo contábil, a empresa vem sendo alvo de ações e questionamentos na Justiça quanto aos valores reais de sua operação e de suas dívidas.

Na petição enviada à Justiça do Rio nesta quinta, os administradores também disseram faltar algumas informações importantes nos documentos enviados à Justiça.

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Por exemplo, há CNPJs duplicados na relação de credores e em 3,3 mil deles (são quase 8 mil no total) o endereço estava cadastrado sem CEP, o que impossibilitava o envio de correspondência - cerca de 3 mil endereços foram corrigidos pela equipe dos administradores.

Também foram apresentados na lista de credores empresas cujo crédito é registrado como R$ 0 (zero real). A varejista disse que “os credores listados com crédito igual a R$ 0,00 referem-se a operações com derivativos, garantias fidejussórias, operações de M&A [fusão e aquisição] e seguros”.

Os administradores quiseram, em seguida, saber quando esses créditos serão apurados ou liquidados. A Americanas ainda não respondeu a essa pergunta.

Os administradores pediram à Justiça que intime a Americanas a enviar ao processo informações exigidas na decisão que deferiu a recuperação judicial, mas que não foram apresentadas.

São documentos como o balanço patrimonial, as demonstrações de resultados, relatórios de fluxo de caixa e relação de crédito e precatórios, de ações judiciais e de passivos fiscais das empresas B2W Digital Lux, JSM Global e ST Importações. Todas fazem parte do Grupo Americanas e estão incluídas na recuperação judicial.

Ainda foram solicitadas reuniões com diretores da Americanas e com responsáveis pela contabilidade e auditoria para que eles prestem informações.

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