Coursera mira ensino individualizado com IA após aquisição bilionária da Udemy, diz CEO

Demanda por aprendizado deve crescer com o avanço da inteligência artificial, e a integração com a Udemy e o aporte na LearnVector sustentam essa aposta, disse Greg Hart à Bloomberg Línea

Empresa quer ser uma plataforma em contraposição aos usos utilitários e pontuais que as pessoas fazem dos LLMs (Foto: Stefani Reynolds/Bloomberg)
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Bloomberg Línea Brasil — A plataforma de aprendizado Coursera iniciou um trabalho de reposicionamento para se consolidar como uma empresa nativa em inteligência artificial capaz de entregar trilhas individualizadas em vez de cursos padronizados atuais. A aquisição da Udemy por US$ 2,5 bilhões, fechada em maio, e o aporte de US$ 100 milhões na LearnVector, startup fundada por Andrew Ng, fazem parte deste movimento.

É essa a leitura que o CEO e presidente Greg Hart fez em entrevista à Bloomberg Línea, um dia depois de a companhia divulgar os resultados do segundo trimestre, quando cresceu 60% e encerrou o período com US$ 298,6 milhões, e elevar a projeção de receita para 2026.

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A previsão é de fechar o ano na faixa entre US$ 1,220 bilhão a US$1,245 bilhão e a margem EBITDA ajustado de aproximadamente 14%.

“Eu acredito que esse ritmo de necessidade de aprendizado só vai acelerar. Essa é a razão pela qual estamos investindo em uma plataforma nativa em IA que faz um trabalho muito melhor em entregar esse aprendizado e em ajudar as pessoas a se ajustarem, se adaptarem e demonstrarem o domínio das habilidades de que precisam”, disse Hart.


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O executivo assumiu o cargo no começo de 2025, após liderar a Compass e passar 23 anos na Amazon, onde comandou Amazon Prime, a divisão da Amazon Echo e se tornou conselheiro técnico de Jeff Bezos, funcionário da companhia.

Para ele, a dúvida generalizada sobre como aplicar IA no trabalho e nos negócios é o que deve sustentar a expansão do mercado de ensino online nos próximos anos — e é essa aposta que orienta as decisões recentes da companhia.

O Brasil, onde tem parceria com instituições de ensino como Insper, USP e o ITA, é o quarto maior mercado em número de alunos cadastrados com 7,7 milhões, atrás de Estados Unidos, Índia e México. Na plataforma da Udemy, são mais de 6 milhões de usuários locais entre os mais de 81 milhões globalmente.

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De ‘um para um’

Segundo Hart, o objetivo de médio prazo é reformular a forma como a Coursera entrega conteúdo, partindo de uma compreensão profunda do objetivo de carreira de cada aluno — ou de cada empresa cliente — e das competências que essa pessoa já tem.

“Isso é parte de um processo de onboarding que realmente ajuda, porque muitos alunos podem ter uma visão de alto nível de onde querem chegar com a carreira, mas não sabem como chegar lá”, afirmou.

A partir disso, a plataforma deve montar uma trilha personalizada — não “apenas ir fazer este curso”. “Mesmo que eu e você estejamos interessados em aprender a mesma coisa, começamos com experiências, históricos e habilidades diferentes. Então precisamos começar em lugares diferentes”, disse Hart, resumindo a mudança como uma transição de um modelo “um para muitos” para um modelo “um para um”.

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Uma das grandes apostas no processo de transformação é a adoção ao Model Context Protocol (MCP), usado tanto pela Coursera quanto pela Udemy.

O sistema global que permite que os usuários, sem sair de aplicativos de trabalho e apenas com um prompt, solicitem o curso que desejam e recebam a sugestão mais adequada e conectada com o seu ambiente profissional.

O investimento de US$ 100 milhões na LearnVector, a nova startup de agentes de IA fundada por Andrew Ng, também criador da Coursera, complementa essa nova visão.

“Essa é uma oportunidade de acelerar todo esse trabalho, aproveitando as inovações que um dos maiores especialistas em IA do mundo — que também é incrivelmente apaixonado por educação — vai criar. E nós acreditamos que essas serão coisas muito únicas, que não teríamos desenvolvido por conta própria”, diz Hart. “É uma oportunidade de realmente ter um multiplicador de força para todo esse trabalho fundamental que está vindo”.

A proposta da startup, ainda em early stage, é de oferecer uma experiência individualizada que se adapta ao seu modo de aprendizado contínuo e diário, até o domínio de determinado conhecimento pelos usuários.

Greg Hart, da Coursera: acredito que nunca houve um momento em que mais pessoas precisassem aprender do que hoje e no ambiente e contexto exatos em que estamos. E penso que isso continuará sendo verdade

Para ele, a Coursera precisa ser o lugar onde as pessoas demonstram que suas habilidades continuam atuais — algo que vai além do que um chatbot pode oferecer. “Qualquer um pode ir perguntar a um chatbot e receber respostas de volta. Isso não significa que estão obtendo conhecimento estruturado que leva à capacidade demonstrável de dominar habilidades.”

O CEO também defende que certificações precisam refletir a validade no tempo do conhecimento — não apenas a conclusão de um curso, mas a aplicação prática e atualizada da habilidade. “As habilidades têm meia-vida. Elas decaem com o tempo”, disse, usando como exemplo um diploma em cibersegurança obtido em 2020, antes da popularização da IA generativa. “Claramente, o valor desse diploma hoje é muito diminuído”.

Novo momento

Fundada em 2012, a Coursera desenvolveu um caminho tradicionalmente orgânico. A única aquisição tinha sido Rhyme Softworks, em 2019, ainda antes da abertura de capital, ocorrida em 2021.

As transformações impulsionadas por IA e a mudança de humor dos mercados em relação a edtechs demandam novos olhares para o negócio.

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A compra da Udemy, segundo o CEO, funciona como um encaixe estratégico direto, e não apenas uma consolidação de escala. As duas empresas tinham perfis quase invertidos: a Coursera fechou 2025 com receita de US$ 757,5 milhões, sendo dois terços vindos do segmento consumidor e um terço do empresarial; a Udemy, por sua vez, somou US$ 789,8 milhões, com dois terços vindos do segmento empresarial e um terço do consumidor.

Juntas, formam uma companhia de mais de US$ 1,5 bilhão em receita, com divisão aproximada de 50% para cada segmento.

Também pesou a diferença na forma como cada plataforma produz conteúdo, segundo o CEO: a Coursera se apoia em universidades e empresas de tecnologia de destaque — como Google, Meta, Microsoft, Anthropic e IBM —, enquanto a Udemy tem uma rede de 100 mil especialistas que reagem rapidamente a novidades do mercado. “No dia em que um novo modelo é lançado pela Anthropic ou pelo ChatGPT, por exemplo, vai haver dezenas de cursos de instrutores disponíveis na Udemy”, disse Hart.

Contra o senso comum

Unificar as duas bases de conteúdo é, para ele, uma forma de criar uma plataforma mais responsiva — e, ao mesmo tempo, cortar duplicidades de investimento, marketing, funções entre as duas empresas, que vinham sendo gastas em iniciativas semelhantes.

A expectativa da companhia é gerar US$ 85 milhões em sinergias, a caminho da meta de US$ 115 milhões dentro do prazo de dois anos combinado quando a aquisição foi anunciada, em dezembro.

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Segundo o executivo, a integração em uma só plataforma deve acontecer a partir do primeiro semestre e seguir ao longo de 2027. À medida que os produtos ganham nova roupagem, a Coursera também deve revisitar os modelos de cobrança.

“Há muito trabalho sendo feito em relação ao nosso modelo de preços e pacotes. Como é essa oferta de assinatura? Como ela é precificada? Como esse preço varia de acordo com o mercado? Quais são os níveis (tiers) dessa oferta? É apenas uma oferta? São múltiplos níveis? Portanto, há muito trabalho sendo dedicado a isso”, afirmou Hart.

“É muito cedo para dizer exatamente como isso vai ficar, mas reconhecemos que essa é uma questão realmente importante para os nossos clientes e para os nossos acionistas.”

São definições fundamentais para uma companhia que viu o seu valor de mercado despencar quase 90% desde que abriu o capital em 2021. As ações hoje são negociadas em torno de US$ 5,30.

“Eu acho que o valor de mercado atual da empresa reflete a visão de senso comum que parece existir por aí de que a IA vai diminuir a demanda pelo aprendizado online. Eu não concordo com isso”, afirmou o CEO. “Na verdade, acredito que nunca houve um momento em que mais pessoas precisassem aprender do que hoje e no ambiente e contexto exatos em que estamos. E penso que isso continuará sendo verdade”, afirmou.