Bloomberg Línea — A NG.Cash, fintech que opera uma carteira digital voltada para a geração Z no Brasil, decidiu inaugurar uma nova frente de negócios de crédito com uma oferta de um produto de crédito consignado.
O movimento marca uma transição estratégica na tese da companhia: a evolução de uma conta digital para adolescentes para uma plataforma financeira completa para jovens adultos.
Fundada em 2021 com foco inicial na creator economy e em clientes com menos de 18 anos, a startup agora acompanha o amadurecimento de sua base, que soma 8 milhões de usuários.
O lançamento do produto, chamado de Crédito CLT, ocorre em um momento em que uma parcela significativa desses clientes deixa a fase da “mesada digital” — foco da rodada de R$ 65 milhões liderada pela Monashees em 2023 — para ingressar formalmente no mercado de trabalho.
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Segundo Eduardo Nadelman, CPO e co-fundador da NG.Cash, a expansão do portfólio procura atender esses novos ciclos de vida.
“Estamos saindo do que chamamos de core banking para nos tornarmos uma plataforma financeira. Uma vez que o cliente tem a conta e transaciona conosco, queremos oferecer a oferta completa para garantir a principalidade", disse o executivo em entrevista à Bloomberg Línea.
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O consignado para a geração Z
Ao contrário dos embates que são fomentados nas redes sociais sobre os jovens trabalharem como CLT, a fintech pretende usar o seu histórico de dados para mostrar que há uma demanda entre os jovens profissionais.
O objetivo do Crédito CLT é oferecer uma alternativa de financiamento com taxas mais baixas e desconto direto em folha, focando em profissionais em início de carreira. Historicamente, esse público enfrenta dificuldades de acesso a crédito em bancos tradicionais devido à falta de um histórico financeiro robusto ou garantias reais.
“O novo produto vem para capturar boa parte do empréstimo pessoal, boa parte do consignado que está concentrado nos bancos e também para uma fatia que não existia de um segmento que não era atendido, exatamente por não ter uma oferta de empréstimo pessoal, dado que não tem tantas garantias”, afirmou Nadelman.

A aposta da NG.Cash reside na assimetria de informações. Ao deter o histórico de consumo e comportamento financeiro desses jovens ao longo dos últimos cinco anos, a fintech acredita possuir modelos de risco que podem ser mais precisos do que os de grandes bancos, que muitas vezes só estabelecem contato com esse cliente após a formatura ou o primeiro emprego formal.
A ofensiva no crédito, que deve receber mais produtos ao longo dos meses, é sustentada por aportes de investidores.
Desde sua fundação, a NG.Cash captou mais de R$ 300 milhões. O fôlego mais recente veio de uma rodada Série B de US$ 26,5 milhões realizada em 2025, liderada pela NEA (New Enterprise Associates).
O cap table da fintech inclui ainda nomes como Quantum Light, Monashees e a16z (Andreessen Horowitz).
Para viabilizar a operação de crédito sem comprometer o caixa, a fintech utiliza uma estrutura de FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) no modelo warehouse.
“Estamos usando um FIDC que opera esse produto para começar a testar, onde também participamos do sucesso da operação. É uma questão de simplicidade para o início, enquanto estudamos as melhores formas de funding conforme escalamos", disse Nadelman.
Embora o produto esteja em fase de rollout com uma base limitada, a expectativa da companhia é ser mais agressiva na expansão até o meio de 2026. Os primeiros testes indicam um ticket médio entre R$ 4.000,00 e R$ 5.000,00, alinhado aos padrões de mercado para o segmento de entrada.
Experiência do usuário
O diferencial competitivo que a NG.Cash tenta imprimir no Crédito CLT é a experiência de uso (UX). Enquanto o mercado de consignado tradicional é frequentemente associado a processos burocráticos, a fintech aposta em uma jornada digital no próprio aplicativo.
A estratégia de originação é proprietária. “Trabalhamos um mix de fazer algo fluido e simples, mas com as pausas necessárias para garantir que o cliente entenda as regras do produto, quanto vai pagar e as condições”, diz o CPO.
A startup, que afirma crescer a taxas de dois dígitos mensalmente, vê no crédito a ferramenta para monetizar a base de clientes construída desde a adolescência de seus usuários.
Antes do Crédito CLT, a única incursão da startup em produtos de aquisição de bens era o consórcio, que, embora não seja crédito puro, serviu como termômetro para a demanda da base por produtos de maior valor agregado. O consignado agora assume o papel de “pontapé inicial” na jornada de crédito da plataforma.
Um dos principais desafios para fintechs focadas em jovens é a manutenção da conta como principal no momento em que o usuário entra em grandes empresas, que muitas vezes possuem acordos de exclusividade para folha de pagamento com bancos incumbentes. No entanto, Nadelman minimiza o impacto imediato.
“Hoje isso impacta muito pouco porque as ofertas dos grandes bancos para esse público ainda são muito limitadas, tanto em política de crédito quanto na forma como os produtos são oferecidos”, afirma.
A estratégia da NG.Cash é de se antecipar a esse cenário, oferecendo produtos que o banco tradicional ainda não disponibiliza para o perfil de risco do jovem profissional.
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