Bloomberg — Bem quando os combalidos cinemas achavam que o pior havia ficado para trás, a aquisição de um grande estúdio pode forçar o setor a se reinventar mais uma vez.
Às vésperas de uma recuperação após serem sacudidos pela pandemia e pelas greves de Hollywood, operadoras de salas de cinema como Cinemark Holdings, AMC Entertainment e Kinepolis Group se preparam para um possível plano da Netflix de comprar a Warner Bros. Discovery, o que ameaça comprimir o período de exibição exclusiva nos cinemas.
Janelas mais curtas para a exibição exclusiva de filmes nas salas representam “um risco material para o setor”, afirmou Kris Kippers, analista da Degroof Petercam, em entrevista à Bloomberg News.
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“Assumir o controle de uma empresa cujo negócio central depende das janelas de exclusividade nos cinemas e então alterá-las justamente antes de dois anos que prometem ser históricos para o setor, com geração enorme de caixa, seria prejudicial”, acrescentou Kippers.
A bilheteria americana deve crescer em 2026, impulsionada por franquias populares e sequências aguardadas como Super Mario, Toy Story 5, Vingadores: Doomsday e Duna: Parte Três. A receita pode avançar 12%, para US$ 9,7 bilhões, segundo estimativas de Chad Beynon, analista da Macquarie.
Essa recuperação esperada pode ser descarrilada pela criação de um gigante do cinema com poder suficiente para redesenhar como os filmes são produzidos e distribuídos.

A Netflix, cuja oferta ainda conta com o apoio da Warner Bros. mesmo com o estúdio reabrindo negociações com a Paramount Skydance, prometeu manter os filmes nos cinemas por 45 dias.
O compromisso é uma tentativa de tranquilizar o setor, ainda em dificuldades, e representa um tom mais conciliador do que o adotado no ano passado, quando o co-CEO Ted Sarandos afirmou que ir ao cinema era algo “ultrapassado”.
Ainda assim, o discurso da Netflix “não diz nada sobre um compromisso real com a exibição nas salas de cinema”, afirmou Michael O’Leary, presidente do grupo de pressão Cinema United, em comunicado no ano passado.
Entidades do setor nos dois lados do Atlântico alertaram autoridades europeiras e americanas de que uma aquisição da Warner Bros. pela Netflix ou pela Paramount poderia frear o lançamento de blockbusters.
Se e Netflix vai cumprir suas promessas terá consequências de longo alcance para o estúdio por trás de Harry Potter e Barbie, além de impactar o setor como um todo.
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A Warner Bros. geralmente lança de 15 a 20 grandes filmes por ano, com cerca da metade superando US$ 100 milhões de bilheteria, segundo estimativas de Beynon, da Macquarie.
“Portanto, se a Netflix decidir encurtar a janela de exibição nos cinemas, isso afeta entre 10% e 20% dos grandes filmes que realmente importam para redes como Odeon, Cineplex e Cineworld”, disse ele.
Além da possível redução da janela nos cinemas, a forma como os filmes migram para plataformas de streaming também tem impacto, de acordo com Kevin Near, analista da Bloomberg Intelligence.
A Netflix não esclareceu se optaria por um modelo de video on demand premium, no qual o espectador paga para assistir em casa, ou se levaria o conteúdo diretamente para o serviço por assinatura.
“Pode haver uma disrupção significativa se o público for sendo condicionado a simplesmente esperar até os filmes chegarem ao streaming”, disse Near em entrevista.

O setor retorna à normalidade em ritmo lento. A frequência nas salas caiu 30% desde a pandemia e os preços subiram 10%, enquanto inflação, aluguel e custos com mão de obra aumentaram, pressionando as margens, segundo Beynon.
O impacto da pandemia sobre o comportamento do público também persiste. Os jovens, antes o público mais entusiasta das salas de cinema, estão se afastando cada vez mais, de acordo com Kippers, da Degroof Petercam. A atenção mais dispersa e o bolso mais apertado também não estimulam as idas ao cinema, disse Beynon.
A aposta no premium
Os cinemas se adaptaram para proteger a receita num ambiente adverso.
A premiumização, que começou com as poltronas reclináveis há alguns anos e hoje inclui experiências sensoriais em 4D com jatos de água e ar, diferencia as salas do sofá de casa e ajuda a elevar o gasto por espectador.
Alguns cinemas operados pela Kinepolis também passaram a explorar o próprio espaço físico para outros fins, alugando as instalações para eventos corporativos ou exibindo conteúdo alternativo, como transmissões ao vivo de óperas, disse Kippers, da Degroof Petercam.
A tendência é que os operadores precisem se consolidar para sobreviver. “Em termos de poder de negociação, a consolidação das exibidoras seria uma resposta lógica à consolidação dos estúdios”, afirmou Near, da Bloomberg Intelligence.
Embora o calendário de blockbusters para este ano seja animador, a combinação de demanda morna, risco de janelas mais curtas nos cinemas e mudanças nos modelos de streaming pode se revelar um momento decisivo para os operadores do setor.
“Finalmente chegamos a um nível com filmes suficientes em lançamento amplo”, disse Beynon, da Macquarie. “Portanto, se este ano acabar sendo um fracasso, haverá questionamentos sérios sobre se esses estúdios vão acelerar a migração para o modelo de streaming”.
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