Itaú vê cenário macro mais desafiador e foca em ‘clientes-alvo’ como fortaleza

De acordo com o CEO Milton Maluhy Filho, estratégia no crédito se concentra não apenas em clientes de alta renda, mas naqueles considerados resilientes ao longo de diferentes ciclos econômicos; ‘Quando olhamos o resultado num ciclo mais longo, claramente foi uma estratégia vencedora’, afirmou ele a jornalistas

Milton Maluhy Filho

Bloomberg Línea — Após uma sequência de cinco anos de resultados trimestrais recordes quase ininterruptos, o Itaú Unibanco (ITUB4) registrou lucro estável no primeiro trimestre de 2026. Os R$ 12,3 bilhões alcançados na última linha do balanço ficaram 0,3% abaixo do resultado anterior, reflexo de efeito sazonal e da distribuição antecipada de dividendos.

Milton Maluhy Filho, CEO do banco, reforçou que a rentabilidade do trimestre se manteve nas máximas e que não projeta redução no apetite para o crescimento nos próximos meses – mesmo em um cenário mais cauteloso com o aumento da inadimplência no mercado brasileiro diante de juros altos.

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“Mesmo com todos os desafios, a gente continua defendendo o guidance de crescimento de carteira e de custo do crédito, que mostra, de novo, a nossa capacidade preditiva de simular eventos olhando para frente", afirmou o executivo a jornalistas durante a entrevista nesta quarta-feira (6) para comentar os resultados.

O Itaú manteve inalteradas as projeções para 2026, que preveem crescimento da carteira de crédito total entre 5,5% e 9,5%, e custo do crédito entre R$ 38,5 bilhões e R$ 43,5 bilhões.


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Um dos pilares que sustentam o apetite de crédito do banco é o foco nos chamados “clientes-alvo”. A instituição é conhecida por ser líder nos segmentos de média e alta renda, que foram especialmente resilientes no pós-pandemia.

Leia também: Itaú tem lucro de R$ 12,3 bi no 1º tri com rentabilidade de 24,8% e mantém guidance

Maluhy afirma, no entanto, que a estratégia abarca também outras faixas de renda, desde que se encaixem nos critérios de avaliação. O objetivo é concentrar sua originação em clientes considerados resilientes ao longo de diferentes ciclos econômicos, avaliados não apenas pela renda, mas por modelos que testam seu comportamento financeiro em cenários de estresse ao invés de expandir o crédito de forma ampla.

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Hoje, mais de 80% da carteira de crédito do banco está alocada nesses clientes. Nas novas concessões, esse percentual chega a quase 100%.

O Itaú defende que esse segmento de clientes está mais protegido da inadimplência que os demais. Para demonstrar o ponto a investidores, o banco realizou um estudo em sua base analisando o endividamento das famílias brasileiras excluindo o crédito imobiliário.

Partindo de uma base 100 em dezembro de 2019, o endividamento total das famílias subiu para 123 em janeiro de 2026, enquanto o endividamento dos clientes-alvo do Itaú foi a apenas 105 no mesmo período. Considerando toda a carteira do banco, o índice chegou a 106, também abaixo da média do setor.

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A diferença aparece também na comparação da inadimplência longa, com atrasos acima de 90 dias. No crédito pessoal, a inadimplência do Itaú ficou em 5,1%, ante 9,3% do mercado. No cartão de crédito, 5,1% contra 10,2% do setor. Em veículos, 3,5% frente a 6,2%; e no consignado privado, 4,2% contra 7,1% do mercado.

“De fato, focamos em clientes-alvo e saímos de públicos menos resilientes ao longo dos ciclos. Quando olhamos o resultado num ciclo mais longo, claramente foi uma estratégia vencedora”, disse Maluhy Filho.

“[Projetamos ainda] muita evolução em modelagem, inteligência artificial generativa. Com isso, vamos conseguir mais hiper personalizar ainda mais os limites e ter performances ainda melhores”, afirmou.

O banco também aproveitou para reafirmar sua posição relativamente confortável no crédito agrícola, setor que tem pressionado outros bancos com recuperações judiciais.

O Itaú detém cerca de 20% de participação de mercado no agro, mas apenas 4% do total de recuperações judiciais do setor. A carteira de produtores rurais conta com alienação fiduciária em 78% dos casos, o que a coloca fora do alcance dos processos de recuperação judicial.

Maluhy Filho não revelou quais culturas ou geografias o banco evita, mas confirmou que o Itaú ficou de fora de algumas regiões consideradas mais voláteis por questões climáticas.

A carteira de crédito total alcançou R$ 1,483 trilhão, com crescimento de 1,2% no trimestre excluindo variação cambial — e de 9% em 12 meses. O consignado privado foi o destaque, com alta de 63% anual, e os programas governamentais para PMEs cresceram 52% no período.

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