Em disputa com Oncoclínicas, Porto e Unimed Recife redirecionam pacientes, dizem fontes

Apontadas como fontes de risco na recuperação extrajudicial da rede de oncologia, seguradoras reduzem a dependência ao migrar pacientes para prestadores concorrentes, segundo pessoas a par da situação ouvidas pela Bloomberg Línea. Oncoclínicas diz que busca fortalecer estrutura financeira e preservar atendimentos

Unidade da Oncoclinicas na Bahia
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Bloomberg Línea — O Grupo Porto (PSSA3) e a Unimed Recife, apontados pela Oncoclínicas (ONCO3) como fontes de risco em sua recuperação extrajudicial (RE, forma de renegociar dívidas com aval judicial, sem falência), já reduzem na prática a dependência da rede de oncologia, direcionando pacientes para prestadores concorrentes, segundo pessoas a par da situação ouvidas pela Bloomberg Línea. Elas pediram anonimato porque o assunto é privado.

Das 74 páginas da petição de RE protocoladas pela companhia em 13 de julho na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, 20 tratam da disputa com a Unimed Recife e 15 da relação com a Porto Seguro, vertical do Grupo Porto, o equivalente a quase metade do documento dedicado a apenas dois parceiros.

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O Grupo Porto notificou a Oncoclínicas em 21 de maio pedindo a rescisão do acordo de investimento firmado em dezembro de 2022, com dois argumentos: uma cláusula que autoriza o rompimento em caso de pedido de recuperação e o alegado descumprimento de índice de nível de serviço na entrega de medicamentos de quimioterapia oral, abaixo de 85% entre fevereiro e abril.

Procurado, o Grupo Porto não se pronunciou oficialmente sobre a relação com o parceiro. A Unimed Recife, em nota enviada à Bloomberg Línea, afirmou que suas ações têm respaldo de decisão judicial favorável à cooperativa, sem endereçar diretamente a acusação de ter extrapolado os limites de uma liminar.


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De acordo com uma pessoa a par das discussões entre as duas empresas, o desvio de pacientes começou de forma gradual, antes mesmo da notificação formal, à medida que a Oncoclínicas deixava de cumprir volumes mínimos combinados.

Em alguns casos, segundo essa pessoa, médicos da própria rede credenciada da seguradora se recusaram a atender pacientes redirecionados para unidades da Oncoclínicas com falta de medicamentos, o que empurrou ainda mais volume para fora da rede.

Os números citados na petição confirmam o relato. A Oncoclínicas atendeu 8,7 mil beneficiários da Porto Seguro em quimioterapia e radioterapia em 2025, com 4,4 mil efetivamente tratados. Em 2026, os números caíram para 7,5 mil atendidos e 3,7 mil tratados.

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Apesar da migração, a Porto Seguro não decidiu zerar a relação com a Oncoclínicas, segundo a mesma pessoa. A seguradora hoje recebe ofertas de outras redes hospitalares para absorver o volume, algumas no mesmo patamar de preço da Oncoclínicas, e mantém pacientes em tratamento ativo dentro da rede, processando pagamentos e faturas relativas a esses casos.

Leia mais: Oncoclínicas pede à Justiça proteção contra risco de perda de R$ 4 milhões em remédios

A porta para uma eventual retomada nos termos originais permanece aberta, condicionada à recomposição da qualidade e do cumprimento contratual pela Oncoclínicas, mas não há, segundo a fonte, qualquer conversa em andamento sobre um novo aporte de capital.

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Liminar obtida pela Unimed Recife

Com a Unimed Recife, o mecanismo é outro, mas o resultado se parece. A cooperativa obteve em junho, na Justiça de Pernambuco, liminar para assumir emergencialmente parte dos atendimentos oncológicos sob alegação de crise assistencial. A partir da decisão, a Unimed Recife comunicou a médicos e beneficiários que passaria a gerir integralmente os serviços, com os tratamentos de infusão voltando a ser realizados em unidades próprias da cooperativa.

A Oncoclínicas contesta esse alcance. A petição argumenta que a liminar pernambucana não rescindiu o acordo de parceria, não transferiu a propriedade dos bens da rede nem autorizou redirecionar todos os pacientes indistintamente. Ainda assim, o documento relata bloqueio de autorizações mesmo para pacientes com infusões já agendadas e medicamentos em estoque, além de exigência de acesso a prontuários dos 1.669 pacientes das quatro unidades da rede no Recife, que extrapola as duas unidades que a decisão judicial de fato abrangia.

Há também uma disputa financeira que antecede a liminar. A Unimed Recife descontou unilateralmente R$ 8,47 milhões dos repasses devidos à Oncoclínicas sob a rubrica de descontos de liminar, valores referentes a tratamentos que a rede prestou por determinação judicial em ações movidas por beneficiários contra a própria cooperativa.

Em maio, a Unimed Recife reconheceu por escrito ter acumulado glosas, termo usado no setor de saúde para os valores que a operadora nega pagar ao prestador sob alegação de erro ou divergência na cobrança, desde fevereiro de 2024, pagando R$ 3,47 milhões dos R$ 7,4 milhões cobrados pela rede.

A perda potencial de medicamentos reforça a urgência do pedido. Mais de R$ 4 milhões em insumos oncológicos comprados especificamente para pacientes da Unimed Recife estão parados nas unidades do Recife, sujeitos a prazo de validade, e podem ser descartados sem uso caso as autorizações continuem bloqueadas.

Os dois casos convergem para o mesmo pedido de proteção judicial. A Oncoclínicas quer que a Justiça impeça operadoras de saúde de usar o pedido de recuperação, ou a impossibilidade momentânea de pagar dívidas nos termos originais, como justificativa para descredenciamento, rescisão contratual ou redirecionamento de pacientes. As operadoras respondem por 98% do faturamento da rede, segundo a petição.

Operações e qualidade

Procurada, a Oncoclínicas afirmou, em nota, que segue comprometida com a continuidade da assistência aos pacientes e que a recuperação extrajudicial em curso tem como objetivo fortalecer a sustentabilidade financeira da companhia, preservando operações e qualidade de atendimento.

A rede disse ainda que qualquer eventualidade identificada será prontamente atendida, com adoção de medidas cabíveis para assegurar a continuidade dos tratamentos.

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A companhia afirmou manter relacionamento contínuo com fornecedores estratégicos e disse conduzir as negociações da recuperação extrajudicial dentro dos parâmetros legais e das cláusulas de confidencialidade aplicáveis, razão pela qual não comenta detalhes de tratativas específicas com credores ou parceiros comerciais. Segundo a rede, a empresa entrou em uma nova etapa do processo de reestruturação, com plano de execução voltado à estabilização operacional, conduzido em conjunto com o corpo clínico.

Mensagens internas vistas pela Bloomberg Línea, no entanto, sugerem que o problema de desabastecimento não fica restrito ao Recife. Em conversa datada de 14 de julho, um parceiro da companhia relata dificuldades semelhantes em Belo Horizonte e Goiânia.

“No Cebrom [Centro Brasileiro de Radioterapia, Oncologia e Mastologia] , em Goiânia, continuamos tendo problemas diários com desabastecimento de medicações e remarcação de ciclos, o que gera desgastes e perda de ciclos. Precisamos de uma solução”, diz uma mensagem.

No mesmo dia, a mesma fonte escreveu que a companhia “tem perdido pacientes e encaminhadores” e comentou o andamento das negociações com credores, informando que a Oncoprod, maior credora da rede e distribuidora de medicamentos, ainda não havia aderido aos 37% de credores que assinaram o plano de recuperação, mas que a equipe jurídica da companhia avalia como provável um acordo, dado que a Oncoclínicas é a maior cliente da fornecedora.

Entre os concorrentes que absorvem esse volume está a Rede D’Or (RDOR3), maior rede de saúde da América Latina, que ampliou infusões de quimioterapia de 63 mil para 73 mil em um ano, enquanto a Oncoclínicas caiu de 174 mil para 133 mil, segundo um relatório do BTG Pactual.

O Fleury (FLRY3) também disputa esse espaço com a Croma Oncologia, joint venture com a Atlântica Hospitais, controlada pelo Bradesco (BBDC4), e a Beneficência Portuguesa. A Rede Américas, joint venture entre Dasa (DASA3) e Amil que nasceu com 30 centros oncológicos e hoje é a segunda maior rede hospitalar do país, também compete por esse espaço.