Bloomberg Línea — A CVC Corp (CVCB3) reduziu o custo e alongou o prazo de uma dívida de R$ 370 milhões que vencia no mês que vem e em abril de 2027. A maior operadora de turismo do Brasil promete usar o alívio no caixa para investir em tecnologia no momento em que disputa a liderança do setor com a Decolar, rival de origem argentina (Despegar) e nativa digital.
A reestruturação financeira vem depois de a maior rede de agências de viagens da América Latina reportar um prejuízo líquido ajustado de R$ 114,4 milhões no primeiro semestre e uma dívida bruta de R$ 400,5 milhões em junho.
Credores donos de 85% do valor das debêntures que venceriam em outubro e em abril próximo aceitaram trocá-las por papéis novos, de uma 7ª emissão, com juro menor e prazo mais longo, segundo comunicado desta segunda-feira (28).
“A gente reestruturou, fez o que queria fazer, conseguiu baixar, conseguiu alongar”, disse à Bloomberg Línea o CFO Felipe Gomes. Ele disse considerar o capítulo da dívida encerrado.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Sete dos oito principais credores aceitaram a proposta, entre eles Citi, BTG Pactual (BPAC11), Leto Capital (ex-JGP) e Absolute, segundo o CFO. “Não podemos falar quem exatamente ficou de fora devido a um combinado com os credores”, disse.
As debêntures em questão nasceram de um reperfilamento anterior, fechado em 2023, quando a XP (XP) também figurava entre os principais credores da companhia.
Leia também: CVC foca em renegociar dívida e descarta novo aporte de capital, diz VP
O custo da dívida trocada caiu de CDI (referência de juros) mais 4,5% para CDI mais 3,9% ao ano, segundo o comunicado. A redução de 0,6 ponto percentual deve gerar economia de mais de R$ 4 milhões em juros, segundo Gomes.
As parcelas de outubro de 2026 e abril de 2027 dão lugar a vencimentos em setembro de 2027 e setembro de 2029, segundo o comunicado.
Cvc
Recurso liberado
O caixa liberado após a renegociação vai para investimento na operação e para reduzir a antecipação de recebíveis, prática que também gera juros, segundo Gomes.
Entre as prioridades, ele citou continuar investindo em tecnologia e nas equipes, hoje mais enxutas: somente em maio, foram mais de 100 cortes confirmados. A rede somava 1.627 lojas entre Brasil e Argentina no final de junho.
A alavancagem da companhia deve fechar 2026 abaixo de 0,5 vez o Ebitda ajustado, o mesmo patamar já registrado no segundo trimestre, ante 0,9 vez um ano antes.
“Não foi uma necessidade, foi uma oportunidade”, disse Gomes, reafirmando que a companhia tinha caixa para pagar a dívida mesmo sem a troca.
Isso não fecha a porta para novas captações, segundo ele. Uma queda do CDI ou a reabertura do mercado de crédito privado pode permitir cortar mais o custo da dívida no futuro.
Teste operacional
Para o CEO Fabio Mader, o trabalho de tornar a companhia mais eficiente segue em curso após a reestruturação financeira.
“Temos olhado outras oportunidades como essa, sempre visando ser uma empresa mais eficiente, mais rápida para tomar decisões mais assertivas”, afirmou à Bloomberg Línea.
No mercado, o otimismo é mais comedido. O BTG Pactual manteve recomendação neutra (nem compra, nem venda) para a ação, com preço-alvo de R$ 3 em 12 meses, segundo relatório de 12 de agosto sobre o segundo trimestre. Os analistas reconheceram que a reestruturação “está se traduzindo no resultado”, mas seguiram cautelosos.
Leia também: Alemã Fraport assume Jericoacoara e promete modernizar aeroporto da capital do kitesurfe
“Os ganhos de custo estão ficando visíveis, mas não o suficiente para mudar nossa visão”, escreveram os analistas, que esperam “crescimento de receita mais saudável, estabilização do take rate (comissão sobre vendas) e algum alívio no custo financeiro” antes de rever a recomendação.
Em julho, o Itaú BBA encerrou a cobertura da ação da CVC, então avaliada em outperform (equivalente à recomendação de compra) e com o mesmo preço-alvo de R$ 3, sem detalhar o motivo em nota de uma linha.
A Fitch Ratings também soa cautelosa. Em 15 de setembro, antes da conclusão da troca de debêntures, a agência revisou a perspectiva sobre a CVC de positiva para estável, citando dificuldades para fortalecer o caixa livre da companhia diante da pressão sobre o turismo e do enfraquecimento da demanda doméstica. “O desempenho abaixo das expectativas pressionará fortemente o rating da empresa”, alertou a Fitch.
As ações da CVC seguem descontadas, com queda de 34,09% em 2026 e de 26,40% em 12 meses, cotadas a R$ 1,45, na contramão do Ibovespa, que acumulava alta de 14,29% no ano, até a sexta-feira (25). O próximo teste do grupo de viagens está marcado para o dia 11 de novembro, após o fechamento do pregão, quando divulga o resultado do terceiro trimestre.
O cenário competitivo também se acirrou nos últimos anos. A Decolar diz investir cerca de US$ 100 milhões por ano em tecnologia e inteligência artificial e foi a primeira do setor na região a lançar uma assistente de viagem com IA generativa, segundo a própria companhia. A empresa é parte do grupo sul-africano Prosus, dono também de iFood e OLX Brasil.
Indagado sobre rumores de uma aproximação com a rival, o CFO da CVC negou: “Nunca recebemos nenhuma proposta, formal ou informal, nem da Decolar nem de nenhum outro player. Somos uma companhia de capital aberto. Se uma proposta chegar, vai ao conselho e, provavelmente, à assembleia”, disse Gomes.








