Copa, feriados e voos mais caros levam a ‘guerra por agendas’ em viagens corporativas

Copa do Mundo, eleições e feriados emendados comprimem o calendário corporativo e inflacionam hotéis e voos nos dias disponíveis; alta de mais de 30% nas tarifas domésticas desde o início da guerra no Irã adiciona pressão sobre orçamentos de viagens

Passageiro no aeroporto do Galeão, no Rio

Bloomberg Línea — Se para o torcedor a Copa do Mundo de 2026 é sinônimo de festa, para o gestor de viagens corporativas no Brasil a competição de futebol se traduz em uma dor de cabeça logística.

Em um ano com um grande número de feriados emendados, eleições no segundo semestre e um calendário de jogos do Mundial que desorganiza a rotina de negócios, o planejamento de eventos corporativos, reuniões e deslocamentos de executivos se tornou um quebra-cabeça para encontrar as melhores opções de custos e disponibilidade.

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A consequência prática é uma “guerra por agendas”, uma vez que os eventos corporativos competem pelas mesmas datas escassas, o que inflaciona hotéis e voos nos dias disponíveis.

“A estratégia de precificação ficou bem difícil. As empresas que tinham um orçamento não têm achado nada naquele preço”, diz Aline Bueno, CEO da Argo Solutions, plataforma brasileira de gestão de viagens corporativas, em entrevista à Bloomberg Línea.


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Só em 2025, sua empresa operacionalizou mais de 6 milhões de trechos aéreos e 3 milhões de reservas de hotel. A executiva projeta que, somando Copa, feriados e eleições, as viagens corporativas deverão diminuir até o fim do primeiro semestre.

Segundo ela, o maior impacto da Copa não é, inicialmente, o deslocamento de executivos para os Estados Unidos, o México ou o Canadá, que sediam o Mundial. Mas o fato de os jogos - principalmente os da Seleção - concorrerem pelas agendas na hora de organizar eventos e viagens.

“O impacto para as empresas é que o negócio não pode parar, mas você não consegue fazer uma reunião de board no meio de um jogo”, diz.

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Leia mais: França campeã e Brasil entre os favoritos: a previsão do BofA para a Copa de 2026

Isso ocorre depois de um momento de expansão do setor. Em 2025, as viagens corporativas encerraram o ano com faturamento recorde de R$ 147,8 bilhões, um crescimento de 6,3% em relação ao ano anterior, segundo pesquisa realizada pela FecomercioSP em parceria com a Alagev (Associação Latino-Americana de Gestão de Eventos e Viagens Corporativas).

A projeção no início do ano para 2026 era de um crescimento de 7%, chegando a R$ 158 bilhões. O cenário, porém, mudou diante do calendário apertado e do aumento de custos, após a guerra do Irã, que encareceu as passagens aéreas.

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Dados do monitor de preços do J.P. Morgan, divulgados em relatório na terça-feira (19), apontam que as tarifas aéreas domésticas no Brasil acumulam alta superior a 30% em base anual desde o início da guerra no Irã.

O diagnóstico é compartilhado por Luiz Moura, cofundador da agência de viagens corporativas VOLL, cujos clientes incluem Itaú, Nubank e iFood. “O ano já é desafiador, marcado por uma concentração maior de feriados em dias de semana, que habitualmente aumentam em 20% o preço das passagens”, afirma.

Moura lembra que eventos de grande porte já afetam o planejamento das empresas. Dados da VOLL mostram que, na semana do show de Shakira no Rio de Janeiro, em maio, a compra de passagens aéreas para viagens corporativas ao destino caiu 30% em comparação ao mesmo período de 2025.

A pressão de custos se concentra nas rotas mais movimentadas do país. O trecho São Paulo–Rio de Janeiro concentra 12% dos voos corporativos no país, ao custo médio de R$ 979 por bilhete, segundo levantamento da VExpenses, solução de gestão de despesas corporativas da VR, com base em 53 milhões de transações de 4.858 empresas entre 2021 e 2025.

Em seguida aparecem Porto Alegre–São Paulo (R$ 1.190), Belo Horizonte–São Paulo (R$ 961) e Curitiba–São Paulo (R$ 927). Em hospedagem, São Paulo lidera com 6,6% das estadias, seguida por Belo Horizonte (3,6%), Rio de Janeiro (3,4%) e Brasília (2,9%).

Levantamento da Alagev com 52 gestores associados e divulgado em abril mostra que 96% já perceberam aumento nas tarifas. Entre eles, 38% indicam alta aproximada de 20%, 27% relatam crescimento acima desse patamar e 31% percebem elevações em torno de 10%.

O impacto é mais significativo no mercado doméstico, citado por 71% dos respondentes como o mais afetado, seguido por rotas para a Europa (12%), América do Norte e América Latina (6% cada).

Para lidar com o aumento de custos, as empresas têm adotado algumas estratégias desde a pandemia e que voltam a ganhar ainda mais força agora.

Antes o mercado era dominado por viagens de “bate e volta”, como ir a Brasília de manhã e voltar à noite. Agora, para otimizar custos, as empresas alongam as estadias.

“As empresas sugerem acumular vários objetivos numa mesma viagem. O período de permanência aumentou para quase três noites”, diz Aline Bueno, da Argo Solutions.

O raciocínio é simples: amplia-se o gasto com hotel, mas otimiza-se o bilhete aéreo, usando uma única passagem para realizar múltiplas tarefas durante o tempo de estadia. Isso exige novas políticas de gestão, focadas em antecedência e disponibilidade.

Além dos custos mais elevados, outra preocupação é com a menor oferta de voos. Diante das dificuldades de fornecimento, parte das companhias aéreas reduziram suas rotas, o que pode afetar o planejamento.

No Brasil, o número de voos diminuiu em quase 5% em maio na comparação com estimativas de um mês antes, de acordo com a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).

No caso da Argo, a empresa decidiu investir R$ 80 milhões em uma nova plataforma com inteligência artificial para enfrentar esses desafios.

A ferramenta busca aprender padrões do usuário, sugerir rotas e fornecer insights sobre o uso do orçamento corporativo. O objetivo é migrar do sistema fragmentado atual, no qual cada passagem ou hotel vira um “pedido” separado, para o conceito de Travel as a Service (TaaS), segundo a CEO.

A meta ambiciosa é alcançar R$ 60 milhões em faturamento neste ano fiscal com o novo recurso, apostando em criatividade para extrair negócios de um calendário lotado de obstáculos.

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