Bloomberg — As rachaduras começaram a aparecer bem antes de dezembro de 2024, quando o Banco Central percebeu que a rápida deterioração das finanças do Banco Master exigiria uma intensa supervisão diária.
Um relatório divulgado na semana passada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) detalha pela primeira vez exatamente como os problemas de liquidez acabaram levando à falência do Master, agora no centro do maior caso de fraude bancária do país.
A empresa controlada por Daniel Vorcaro estava usando uma série de manobras para enganar tanto os investidores quanto os órgãos reguladores e ocultar falhas graves em seu balanço patrimonial, de acordo com o relatório do Tribunal de Contas da União, que também analisou se o banco central havia agido adequadamente em sua supervisão da empresa.
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Para um banco tão pequeno, a conta é impressionante: O sistema bancário brasileiro terá de reunir R$ 52 bilhões (US$ 9,9 bilhões) para reembolsar os investidores que compraram a dívida do Master.
E as consequências continuam. Pessoas familiarizadas com o assunto disseram na semana passada que a Mastercard foi sobrecarregada com uma conta multimilionária porque era a rede de pagamentos para cartões emitidos pela fintech do Banco Master, o Will Bank.
Um dos primeiros sinais de angústia apareceu um ano antes do colapso do Banco Master em novembro.
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Foi quando um esforço de captação de recursos conseguiu apenas R$ 2 bilhões, muito aquém dos R$ 15 bilhões esperados. Os ativos do banco - em sua maioria, créditos para empresas sem dinheiro ou dívidas judiciais - estavam gerando pouco dinheiro, menos do que o suficiente para pagar seus investidores em títulos, segundo os documentos do Tribunal de Contas.
Para esconder esses problemas, o Banco Master usou fundos de investimento e vendas de carteiras para se livrar de ativos ruins e fazer com que suas finanças parecessem sólidas, disse o Tribunal de Contas.
Embora esses e outros tipos de acordos semelhantes tenham levado o banco central, já em 2021, a exigir ajustes, os buracos nas finanças da empresa aumentaram.
Um golpe ainda mais duro veio em outubro de 2023, quando foi instituída uma mudança na forma como os bancos podiam classificar as dívidas com ordem judicial que mantinham em seus balanços.
A mudança tornou a manutenção de tais dívidas mais onerosa e, naquela época, o Banco Master possuía mais de R$ 6 bilhões desses instrumentos. Seus ativos totais também eram nove vezes maiores do que em 2019, quando Vorcaro assumiu o controle.
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Apesar de sua crise de liquidez, o Banco Master continuou a se expandir, comprando o Will Bank no primeiro semestre de 2024.
Mas surgiram novos problemas. O banco central descobriu que a fintech não estava investindo adequadamente seus ativos e teve que fazer um ajuste de 1,8 bilhão de reais, de acordo com os documentos.
O órgão regulador determinou que a empresa Will Bank deveria dedicar todos os novos fundos que recebesse para cumprir as obrigações anteriores.

Ainda assim, as diretrizes do banco central não estavam conseguindo manter o Banco Master à tona, e a empresa concordou com o órgão regulador que resolveria seus problemas em seis meses.
Antes do fim do prazo, o Banco Master anunciou que seria parcialmente vendido ao Banco de Brasília em um negócio de R$ 2 bilhões que manteria Vorcaro próximo à tomada de decisões na empresa combinada.
Enquanto o banco central analisava a proposta de acordo, foi enviada uma ajuda do FGC, o fundo de garantia de depósitos do país, tornando o fundo efetivamente responsável pelos pagamentos aos investidores do Master que possuíam vencimentos de curto prazo.
A ideia era oferecer ao Master uma saída com a menor perda possível, segundo os documentos. Vorcaro também capitalizou o banco vendendo ativos, inclusive alguns de seus investimentos pessoais.
Mas esses planos foram por água abaixo em setembro, quando o banco central anulou o acordo BRB-Master em meio a preocupações sobre supostos laços entre o Master e gestores de ativos que haviam sido mencionados em uma investigação sobre o crime organizado.
Vorcaro começou a buscar capital novo e um novo comprador, já que a liquidez de seu banco se aproximava de zero. Ele ofereceu um novo plano de 180 dias que o levaria a se liquidar de forma organizada até dezembro de 2026, depois de vender a maior parte de seus ativos.
Ao mesmo tempo, os cálculos do banco central mostraram que o Banco Master precisaria de um ajuste de balanço de 20 bilhões de reais, quatro vezes mais do que seus R$ 5,2 bilhões em patrimônio líquido. O Master estava rapidamente se tornando insolvente.
Vorcaro jogou uma última cartada, anunciando a venda do Banco Master para um grupo de investidores liderado pela Fictor Holding.
Mas o banco central nem sequer começou a analisar o acordo para aprovação: A oferta chegou aos escritórios do órgão regulador às 22h55 da noite de 17 de novembro, como mostram os documentos, sete horas depois que o banco já havia votado pela liquidação do Master.
Naquele mesmo dia, Vorcaro seria preso em um aeroporto de São Paulo quando tentava embarcar em um jato para Dubai, onde disse que se encontraria com investidores dispostos a comprar o banco. Um advogado que representa o ex-CEO não quis comentar.
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