Bloomberg Línea — O aumento das taxas de rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA voltou a causar tensão nos mercados emergentes e intensificou a pressão sobre a América Latina, num momento em que os investidores reajustam suas expectativas em relação à inflação, às taxas de juros e ao risco global, após a escalada do conflito no Oriente Médio.
Embora na quarta-feira as taxas tenham recuado parcialmente após a forte correção do início da semana, a queda acumulada nos últimos três meses continua indicando uma mudança no custo global do dinheiro.
A taxa dos títulos do Tesouro de 10 anos gira em torno de 4,58%, enquanto a dos títulos de 30 anos dos EUA permanece acima da marca de 5%, um nível que o mercado não via desde antes da crise financeira global.
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O movimento não se limitou aos Estados Unidos. Na América Latina, as taxas de rendimento dos títulos soberanos subiram acentuadamente nos últimos três meses, da Colômbia à Argentina e ao México.

Esse ajuste reflete algo mais amplo do que uma reação tática ao conflito no Oriente Médio ou à volatilidade dos preços da energia. O mercado começou a reavaliar o cenário, o que elevou o piso dos ativos sem risco e reduziu o apelo relativo dos mercados emergentes.
“O mais importante é que o mercado está reavaliando simultaneamente a duração, a inflação e o prêmio de prazo”, afirmou Jonathan Fortun, economista do Instituto de Finanças Internacionais.
“Para a América Latina, isso significa uma taxa livre de risco mais alta, maior concorrência pelo capital global e menos espaço para que os ativos locais se beneficiem exclusivamente do carry”, acrescentou.
Um novo custo de capital para os mercados emergentes
A alta do preço do petróleo e a escalada do conflito no Oriente Médio acabaram alterando as expectativas em relação à inflação e às taxas de juros em nível global.
À medida que o Brent ultrapassou os US$ 110 por barril, o mercado começou a antecipar que o Federal Reserve poderia manter uma política monetária mais restritiva por mais tempo ou até mesmo voltar a aumentar as taxas.
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Essa mudança elevou acentuadamente as taxas de rendimento dos títulos do Tesouro dos EUA e desencadeou vendas de títulos soberanos de outras regiões, uma vez que os investidores passaram a exigir retornos mais elevados para compensar o risco de inflação persistente e um custo de capital mais alto.

Alejandro Rojas, economista sênior do Banco de Bogotá, observou que “no final de 2025, os agentes previam um ciclo de cortes na taxa do Fed que, devido à guerra entre o Irã e os Estados Unidos, parece ter ficado no passado”.
A pressão inflacionária já começou a se refletir nos dados. Em março, a inflação ao consumidor nos Estados Unidos subiu para 3,8%, seu nível mais alto desde maio de 2023, enquanto a inflação ao produtor atingiu 6%, o maior nível desde dezembro de 2022.
Com o Brent projetado em cerca de US$ 95 por barril para o restante do ano, o mercado começou a avaliar o risco de um novo surto de inflação global e de um período mais prolongado de taxas de juros elevadas.
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Essa pressão sobre os títulos alterou uma dinâmica que, durante anos, favoreceu a América Latina. Com taxas baixas nos Estados Unidos e no Japão, os investidores globais buscaram retornos em títulos de dívida emergente, moedas latino-americanas e estratégias de carry trade.
O novo cenário começa a reverter parte desses fluxos e ameaça afetar a região, com um impacto que, de qualquer forma, não será uniforme.
Fortun explicou que “países com moedas líquidas, bancos centrais confiáveis e curvas de rendimento locais profundas podem continuar atraindo demanda”, especialmente aqueles que mantêm taxas reais positivas. O Brasil e o México conservam parte dessa vantagem relativa, embora a margem de manobra tenha diminuído.

A pressão é maior sobre as economias com déficits externos elevados, inflação persistente ou maiores necessidades de refinanciamento. Nesses casos, o ajuste das taxas de juros nos Estados Unidos se reflete mais rapidamente nas moedas, nos spreads soberanos e no financiamento corporativo.
Agustín Vargas, analista de mercado da Capitaria, afirmou que o Tesouro dos Estados Unidos “continua sendo a referência global para o custo do dinheiro”; por isso, quando as taxas de longo prazo nos Estados Unidos sobem dessa forma, “as condições financeiras restritivas para as economias emergentes aumentam automaticamente”.
Essa tendência também altera a lógica da alocação global de capital. Durante anos, muitos investidores aceitaram riscos maiores para obter retornos superiores nos mercados emergentes.
Atualmente, os investidores voltam a encontrar rendimentos historicamente elevados em ativos norte-americanos, mas com menor risco.
Vargas afirmou que “quando o Tesouro oferece retornos mais atraentes e com menor risco relativo, uma parte significativa do capital global tende a sair dos ativos emergentes e retornar aos Estados Unidos”. Esse efeito costuma se refletir rapidamente nas moedas latino-americanas, nos custos de financiamento e na volatilidade do mercado de renda fixa.
O dólar começou a refletir essa dinâmica. Francesco Pesole, estrategista do ING, observou que a atual onda de vendas de títulos é impulsionada pela inflação e não por receios fiscais, “o que é inequivocamente positivo para o dólar”.

O ING acrescentou que o apelo do dólar americano como moeda de refúgio atingiu seu nível mais alto desde o final de 2022.
Além disso, há outra consequência: a combinação de taxas reais mais altas e um dólar mais forte reduz o espaço para cortes agressivos nas taxas de juros na América Latina. Fortun afirmou que “o ciclo de cortes na região não desaparece, mas se torna mais lento, mais condicionado e mais dependente da taxa de câmbio”.
Isso ocorre enquanto a região ainda enfrenta riscos inflacionários associados ao petróleo e aos transportes, com o Brent mantendo-se acima dos US$ 100 por barril, alimentando preocupações quanto à persistência da inflação em várias economias.
Taxas de longo prazo
O mercado de títulos começou a mostrar sinais de tensão mais graves do que os observados durante episódios recentes de volatilidade. A ultrapassagem sustentada da taxa de rendimento dos títulos do Tesouro de 30 anos acima de 5% é um marco simbólico para os investidores globais.
William Marshall, economista da Goldman Sachs, escreveu em uma nota que “as taxas têm funcionado como uma válvula de escape” para o choque energético.
Padhraic Garvey, diretor regional de pesquisa para a América do ING, alertou que a taxa dos títulos do Tesouro de 10 anos ultrapassou os 4,5% sem que surgissem compradores significativos, um sinal de que o mercado ainda não encontrou um teto para as taxas de juros nos Estados Unidos.

Por isso, o ING elevou a probabilidade de que as taxas de rendimento subam para 4,75% ou até mesmo 5%, o que aumentaria ainda mais a pressão sobre as moedas e a dívida dos mercados emergentes.
Marshall acrescentou que a pressão atual se deve principalmente a riscos macroeconômicos e não a problemas de absorção da dívida dos Estados Unidos. O banco afirmou que “as preocupações com a inflação são mais acentuadas” e que os títulos deixaram de funcionar como uma cobertura eficiente para a carteira no curto prazo.
Para os governos e as empresas latino-americanas, o problema não é necessariamente um fechamento total do mercado, mas um aumento sustentado do custo de capital. Fortun afirmou que “os emissores de maior qualidade ainda podem acessar o mercado, mas o farão a taxas mais altas e com investidores mais seletivos”.
Entre os setores mais sensíveis ao aperto financeiro, segundo Vargas, da Capitaria, estão infraestrutura, construção civil, imobiliário e serviços públicos, especialmente empresas com dívidas denominadas em dólares.
O analista também previu um cenário mais complexo para o mercado de renda fixa emergente, no qual os emissores terão de oferecer retornos mais elevados para atrair capital.
O Japão aumenta a pressão sobre os fluxos globais
O ajuste das taxas não é uma questão exclusivamente americana. O Japão começou a dar sinais de tensão que poderiam afetar outra fonte histórica de liquidez global.

Dados da Associação de Corretores do Japão, citados pela Bloomberg, mostraram que os investidores estrangeiros venderam, em abril, 81,3 bilhões de ienes líquidos em títulos japoneses de prazo muito longo, a primeira saída líquida desde dezembro de 2024.
Além disso, a taxa de rendimento do título japonês de 30 anos atingiu seu nível mais alto desde que começou a ser emitido, em 1999.
Essa tendência ocorre enquanto o Banco do Japão reduz as compras de títulos e normaliza gradualmente sua política monetária. Durante anos, as taxas extremamente baixas no Japão ajudaram a sustentar estratégias globais de carry trade e a demanda por títulos do Tesouro e dívida emergente.
Fortun alertou que, se as taxas de rendimento japonesas continuarem subindo, “parte desse capital terá mais incentivos para permanecer no Japão ou reduzir a exposição externa”. Isso poderia tornar mais frágeis algumas estratégias financiadas em ienes e aumentar a volatilidade das moedas emergentes.
Esse contexto acrescenta mais uma fonte de pressão sobre a América Latina. A menor disponibilidade de capital global coincide com um momento em que vários governos ainda precisam refinanciar a dívida, manter o acesso ao mercado externo e conter a volatilidade cambial.
Rojas, do Banco de Bogotá, alertou que esse cenário teria efeitos diretos sobre países como a Colômbia, devido à dependência do país de fluxos externos para financiar seu déficit em conta corrente.
O economista acrescentou que a pressão não se limitaria apenas a taxas mais altas. A expectativa de um dólar mais forte também aumentaria a pressão sobre a taxa de câmbio e os mercados de renda fixa, num contexto em que os rendimentos dos títulos soberanos já subiram simultaneamente nos Estados Unidos, na Europa e na América Latina.
Os investidores estão agora acompanhando de perto cinco variáveis: a inflação subjacente nos Estados Unidos, a evolução do mercado de trabalho, a demanda nos leilões do Tesouro, os preços do petróleo e os sinais da Reserva Federal. Vargas destacou que esses fatores determinarão se o mercado de títulos entrará em uma mudança mais estrutural que afetará os ativos latino-americanos.









