Leilões e R$ 45 bi de debêntures: como o saneamento virou protagonista da renda fixa

Diante do amadurecimento do marco regulatório e da necessidade de recursos vultosos para financiar novos projetos, o setor tem atraído cada vez mais o investidor do mercado de capitais

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Bloomberg Línea — Historicamente financiado por recursos públicos, o setor de saneamento tem se tornado cada vez mais uma alternativa de renda fixa para o investidor.

Com a expansão dos leilões de projetos de água e esgoto dos últimos anos, o mercado de capitais encerrou 2025 com emissões de debêntures que somaram R$ 44,7 bilhões, segundo levantamento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

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Somente no primeiro trimestre deste ano, o montante emitido foi de R$ 11,4 bilhões para saneamento.

O número reflete não apenas a escala do investimento necessário para universalizar o serviço até 2033 mas também a confiança crescente de investidores em um setor que, até pouco tempo atrás, era visto basicamente como estatal.


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“O saneamento tem registrado praticamente o mesmo volume de emissões de debêntures que o setor de rodovias, cujo mercado privado vem amadurecendo há mais de 30 anos”, afirma o sócio do Levy & Salomão Advogados, Saulo Puttini.

Ele acrescenta que o prazo médio de retorno do investimento desses títulos (duration) é significativamente mais longo do que seus pares em rodovias, chegando a 30 anos.

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Neste cenário, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desempenha um papel importante na subscrição de garantias.

“Trata-se de uma indústria relativamente nova, que ainda precisa testar reequilíbrios de contratos, por exemplo. Mas o mercado está acreditando muito”, diz Puttini.

Na visão do sócio da assessoria financeira Virtus BR Partners, Douglas Bassi, já é possível afirmar que o saneamento virou uma aposta de renda fixa para o investidor. “É preciso avaliar o todo para saber se há algum risco corporativo, mas no geral as debêntures [do setor] pagam boas taxas com risco relativamente baixo.”

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Desde a aprovação do novo marco regulatório do saneamento em 2020, aproximadamente R$ 202 bilhões de investimentos foram contratados em 66 leilões, segundo dados da Abcon, entidade que representa as empresas do setor. O volume refere-se a cerca de 1.700 municípios que colocaram em contrato suas metas de universalização.

Ainda de acordo com o último dado oficial do governo federal, o investimento já desembolsado para o setor alcançou volume recorde em 2024, de R$ 29 bilhões – um aumento de 67% sobre 2020, período anterior ao novo marco.

A diretora técnica da Abcon, Ilana Ferreira, afirma que o setor como um todo ainda é amplamente dependente dos recursos de tarifas para se financiar no âmbito das empresas públicas.

No entanto, diante da entrada significativa de operadores privados no saneamento, seja por concessões ou Parcerias Público-Privadas (PPPs), houve a entrada de novas modalidades de recursos para financiar o setor, principalmente do mercado de capitais, com o BNDES ainda desempenhando um papel essencial.

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Outras instituições como o IFC (braço do Banco Mundial) e a Caixa, com os recursos provenientes do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), completam o rol de principais financiadores de novos projetos de água e esgoto.

Ferreira pondera que o setor ainda passa por um momento de capex elevado para expandir as redes e que o retorno desse tipo de investimento é naturalmente mais demorado. “Por isso, as linhas dessas instituições são muito importantes”, diz.

Carteira de projetos

A Abcon contabilizava até o fim de abril 24 projetos de água e esgoto em estruturação no âmbito do governo federal, somando quase R$ 36,7 bilhões em investimentos previstos. O critério para ingresso na carteira da entidade é que o projeto tenha passado por consulta pública, uma etapa mais avançada do processo.

Esse volume contempla contratos para 592 municípios. Um dos mais emblemáticos é o projeto de Porto Alegre, que há anos vem sendo gestado e, por ora, é esperado para ser leiloado no primeiro semestre de 2027. O serviço de água e esgoto da maior parcela do Rio Grande do Sul, excluindo a capital, foi 100% privatizado em leilão arrematado pela Aegea em 2022.

Nesta conta, não está incluído o projeto de privatização da Copasa, companhia estadual de Minas Gerais.

O próximo leilão do setor deve ocorrer na Paraíba e está previsto para 15 de maio. O projeto contempla uma concessão de 25 anos, em bloco único, e investimento estimado de aproximadamente R$ 3 bilhões.

Outras oportunidades aguardadas pelo mercado incluem leilões em Sergipe, Alagoas, Ceará e Rio Grande do Norte.

A diretora da Abcon avalia que as opções de projetos de grande porte estão acabando, mas ainda há oportunidades de investimentos para municípios. “A tendência de leilões para os próximos anos é de projetos municipais”, diz Ferreira.

Ela acrescenta que o setor deve passar ainda por um importante período de amadurecimento, com as normas de referência da ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico) e a reforma tributária.

“Precisamos de um olhar atento para os pedidos de reequilíbrio contratual. Para garantir a adaptação ao novo marco e o atendimento à população, a segurança jurídica nesse processo é essencial”, afirma.

Na visão do sócio do Levy & Salomão, acelerar a análise dos pedidos de reequilíbrio de contratos pode justamente preservar o valor das debêntures do setor de saneamento. “Se houver um acúmulo de revisões tarifárias decorrente de pedidos de reequilíbrio, o mercado pode começar a reprecificar essas dívidas”, avalia Puttini.

O advogado observa, porém, que à medida que a indústria torna-se mais padronizada, mais apelo terá para os investidores.

Na avaliação de Ferreira, a velocidade de leilões de saneamento está dentro do esperado. “Passamos por uma transformação muito drástica no setor, uma mudança normativa quase visceral. De modo geral, os estados todos estão se movimentando para a universalização”, avalia.

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