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Mercado se prepara para derrocada com virada histórica de Lula no segundo turno

As quedas esperadas podem levar ao acionamento de mecanismos como ‘circuit breakers’; em uma pesquisa do Citi com 73 investidores, publicada na sexta-feira, a maioria esperava que a vitória de Lula levasse a uma queda de pelo menos 5% do real

Luiz Inacio Lula da Silva
Por Leda Alvim - Giovanna Belotti Azevedo - Barbara Nascimento
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Bloomberg — Operadores se preparam para fortes perdas nos mercados brasileiros nesta segunda-feira (26), depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva protagonizou uma surpreendente virada e derrotou Flávio Bolsonaro, o senador pelo PL que era o preferido dos investidores.

As primeiras indicações apontavam para uma forte derrocada: um ETF que acompanha ações brasileiras chegou a cair 16% no Japão, maior queda intradiária desde 2020, enquanto um contrato de derivativos cambiais negociado na CME indicava o dólar a R$ 5,55.

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Embora não seja uma indicação direta de preço, o movimento implica uma desvalorização de mais de 10% do real em relação ao fechamento de sexta-feira (23).

Mesas de operações em São Paulo disseram esperar que as vendas sejam tão intensas na manhã desta segunda-feira, e as quedas tão acentuadas, que mecanismos como “circuit breakers” possam ser acionados.


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A corretora Monte Bravo havia estimado que o Ibovespa poderia despencar 11% na primeira hora de negociação em caso de vitória de Lula.

Em uma pesquisa do Citi (C) com 73 investidores, publicada na sexta-feira, a maioria esperava que esse resultado levasse a uma queda de pelo menos 5% do real, com as taxas de swap subindo mais de 1 ponto percentual, à medida que operadores desmontassem as apostas em cortes de juros que haviam acumulado após Bolsonaro superar Lula no primeiro turno, no início deste mês.

“Vai ser um dia duro. O mercado vai reprecificar tudo o que foi prometido”, disse Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management, que administra R$ 1,1 trilhão em ativos. “Todo mundo foi pego de surpresa. Todo mundo está tentando entender.”

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Lula, que na visão dos mercados dificilmente promoverá a austeridade fiscal de que o Brasil precisa para reduzir os juros, obteve 51,8% dos votos no segundo turno. Bolsonaro teve 48,2%, segundo a Justiça Eleitoral, com praticamente todas as urnas apuradas.

Os investidores haviam se posicionado amplamente para uma vitória de Flávio depois que sua surpreendente liderança no primeiro turno, no início deste mês, desencadeou uma forte alta dos ativos, atraindo bilhões em fluxos estrangeiros diante da expectativa de um ajuste fiscal há muito demandado, que abriria espaço para juros mais baixos à frente.

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Instituições como UBS Global Wealth Management, Morgan Stanley, JPMorgan Chase e Citigroup correram para divulgar recomendações otimistas para os ativos brasileiros.

Conforme as pesquisas continuavam apontando para um segundo turno apertado e Lula anunciava uma série de medidas voltadas aos eleitores, muitos investidores começaram a reforçar suas proteções para os portfólios. Ainda assim, uma vitória de Bolsonaro continuava sendo amplamente vista como o cenário-base.

“Os mercados não estavam posicionados para isso. O que estamos vendo em Tóquio é o desmonte da aposta eleitoral: a alta após o primeiro turno está sendo praticamente toda devolvida de uma só vez”, disse Anna Wu, estrategista de investimentos e fundadora da Floodlines Research, no noite de domingo.

“Na minha visão, é mais do que uma reação imediata, já que o mercado local agora enfrenta um risco real de enfraquecimento da dívida pública e da moeda.”

‘Circuit breakers’

Um “circuit breaker” é acionado quando o Ibovespa cai 10% ou mais, interrompendo as negociações por 30 minutos. Se as perdas se aprofundarem para 15% após a retomada, o mercado é suspenso por mais uma hora.

Uma queda de 20% permite que a B3 determine por quanto tempo as negociações deverão permanecer interrompidas.

Os mercados de derivativos do país — alguns dos ativos mais líquidos da América Latina — não têm circuit breakers, mas estão sujeitos a limites de oscilação que restringem os movimentos dos preços.

Para as taxas de juros futuros, há uma faixa de negociação de 90 pontos-base em cada direção, enquanto os futuros de câmbio podem oscilar 6% para cima ou para baixo. Em ambos os casos, quando o limite é atingido, as negociações ficam praticamente paralisadas e a bolsa precisa autorizar a ampliação da faixa.

A última vez que as ações brasileiras acionaram um circuit breaker foi no início de 2020, quando a pandemia abalava os mercados globais.

Problemas fiscais

Desde que voltou ao poder, em janeiro de 2023, Lula, de 80 anos, buscou melhorar a vida dos trabalhadores brasileiros por meio do estímulo ao consumo e da ampliação da expansão do crédito iniciada durante a pandemia. Mas fez pouco para enfrentar os déficits crescentes do país, que, segundo investidores, são a razão de o Brasil ter algumas das maiores taxas de juros reais do mundo.

Os problemas fiscais do Brasil são profundos, e seus efeitos aparecem em toda a economia. A inadimplência das famílias está em nível recorde, milhões de empresas estão com pagamentos em atraso e produtores rurais estão dando calote em um ritmo sem precedentes.

O próprio governo tem pouco espaço de manobra, com a dívida pública acima de 80% do PIB e um orçamento em grande parte comprometido com despesas obrigatórias.

As dúvidas sobre o compromisso de Lula com o controle do déficit fiscal chegaram ao auge no fim de 2024. Uma onda de vendas levou o real à mínima histórica e atingiu desde ações e dívida em moeda local até títulos denominados em dólar.

Ainda assim, os mercados brasileiros tiveram uma trajetória turbulenta, mas no fim das contas positiva, durante seu terceiro mandato. Os juros elevados, embora restritivos para a economia, tornam a moeda atraente para operações de ‘carry trade’ em meio a um dólar mais fraco e a um movimento de diversificação para fora dos mercados americanos, que também ajudou a impulsionar os mercados emergentes de forma mais ampla.

Reprecificação

Por enquanto, os investidores se preparam para o que Homin Lee, estrategista do Lombard Odier em Cingapura, classificou como uma reversão “inevitável” da alta provocada pela expectativa de vitória de Bolsonaro.

O estrategista do Wells Fargo, Alvaro Vivanco, escreveu antes do segundo turno de domingo que, em caso de uma vitória surpreendente de Lula, esperava que o real se enfraquecesse para R$ 5,30 por dólar quando os mercados reabrissem na segunda-feira.

Guilherme Abbud, CEO da Persevera Asset Management, disse que a moeda poderia se desvalorizar 7% e que um circuit breaker na bolsa é “possível”.

“Pode ser um pouco pior porque movimentos de queda tendem a envolver mais pânico e stop-losses motivados pela emoção”, disse Abbud. “Pelo menos inicialmente, desapareceria a perspectiva de uma grande mudança na política econômica.

Lula pode eventualmente adotar uma postura mais cautelosa em relação aos gastos, mas é pouco provável que o mercado lhe dê o benefício da dúvida.”

Com uma vitória de Lula, “a expectativa é que todo mundo recue”, disse Cathy Hepworth, que lidera a equipe de dívida de mercados emergentes da PGIM, gestora com US$ 1,5 trilhão em ativos.

“Será uma reprecificação muito mais significativa, talvez por algum tempo, dado o tamanho da alta recente das taxas”, disse ela antes da votação. “Mas ainda é o Brasil, e Lula é um animal político, então as coisas acabarão se estabilizando.”

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