Bloomberg Línea — O Itaú Unibanco avalia que o ambiente externo mais adverso deve pesar sobre o real até o fim do ano, diante de uma série de fatores que favorece a valorização do dólar.
Entre eles estão a expectativa de juros elevados nos Estados Unidos, uma deterioração dos termos de troca com um preço do petróleo menor, e os riscos associados ao período eleitoral no Brasil.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Com isso, a equipe de pesquisa econômica do banco elevou de R$ 5,15 para R$ 5,30 a sua projeção para a taxa de câmbio ao fim de 2026 e vê a moeda americana se valorizando a R$ 5,50 em 2027 (ante R$ 5,35 na projeção anterior), de acordo com relatório de revisão de cenário publicado nesta sexta-feira (26).
O banco reconhece que o diferencial de juros do Brasil em relação aos Estados Unidos ainda oferece algum suporte para a moeda brasileira, mas “o conjunto desses fatores aponta para uma trajetória de depreciação à frente”, escrevem os economista do Itaú no relatório.
Leia também: Bolsa brasileira destoa de NY com saída de estrangeiros, diz gestor da Franklin Templeton
Sobre a política monetária, a equipe do Itaú avalia que o ciclo de cortes de juros já está quase no fim diante da maior pressão inflacionária e da aceleração da atividade econômica, impulsionada por medidas fiscais e parafiscais.
A expectativa agora é de que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve fazer mais uma redução de 0,25 ponto da Selic em agosto, para 14%.
Anteriormente, o banco via a possibilidade de mais um corte, levando a Selic a 13,75% ao ano. Agora, os economistas reconhecem o risco de que até mesmo o último corte em agosto não se concretize, diante do cenário de expectativas de inflação desancoradas e crescimento mais forte da economia.
O Itaú avalia que a descrição do cenário pelo Banco Central ficou mais dura na decisão mais recente do Copom neste mês, com uma leitura “menos benigna” das projeções para a inflação.
Para os economistas, isso indica uma postura mais cautelosa do Banco Central, mas “sem fechar totalmente a porta para novos cortes”.
“O comitê seguiu ressaltando que a magnitude do ciclo de calibração será ajustada a depender da evolução dos dados. Mas, ao caracterizar o balanço de riscos como tendo assimetria altista, sinaliza que qualquer espaço que ainda exista para a flexibilização está se esgotando rapidamente”, escrevem os economistas do Itaú.
Leia também: Alívio nos preços de fertilizantes deve ajudar milho no Brasil e deixar soja de lado
Sobre a inflação, o Itaú manteve a projeção de 5,6% para o IPCA no fim de 2026, deixando de incorporar aumentos adicionais de gasolina ao longo do ano, uma vez que o recuo do petróleo reduz a pressão por novos reajustes.
O banco, no entanto, elevou a projeção para a inflação de alimentos, diante da possível pressão dos efeitos do El Niño sobre os preços de grãos.
No campo fiscal, o Itaú avalia que o Brasil continua a ter um desafio estrutural elevado diante de despesas substanciais fora da regra fiscal, com repercussões para a política monetária.
O banco projeta um déficit fiscal primário de 0,5% do PIB em 2026 e de 0,6% do PIB no ano que vem.
A estimativa é que o impulso fiscal neste ano fique próximo de 1% do PIB, decorrente de aumentos de gastos com transferências de renda e de medidas como a mudança do Imposto de Renda e programas como Gás do Povo, Luz para Todos, entre outros.
O Itaú avalia que, com as regras atuais, o ajuste fiscal necessário para estabilizar a dívida pública é em torno de 4 pontos percentuais do PIB e continuará subindo.
“Nesse contexto, o desenho das regras vigentes tem permitido uma expansão de despesas primárias incompatível com a trajetória requerida, com aumento das exceções às regras e dos estímulos ao crédito direcionado via despesas financeiras, de tal modo que a credibilidade da âncora fiscal vem sendo prejudicada, com repercussões sobre a plena transmissão da política monetária.”
Projeções do Itaú para a economia brasileira:
Dólar (fim de período)
- 2026: R$ 5,30 — revisado para cima (de R$ 5,15)
- 2027: R$ 5,50 — revisado para cima (de R$ 5,35)
Selic (fim de ano)
- 2026: 14,00% — revisado para cima (de 13,75%); último corte em agosto
- 2027: 12,50% — mantido
PIB (crescimento real)
- 2026: 2,1% — mantido
- 2027: 1,7% — mantido
IPCA
- 2026: 5,4% — mantido
- 2027: 4,5% — mantido
Resultado primário (% do PIB)
- 2026: −0,5% — mantido
- 2027: −0,6% — mantido
Dívida bruta (% do PIB)
- 2026: 82,8% — revisado para cima (de 82,6%)
- 2027: 86,5% — revisado para cima (de 86,0%)
Taxa de desemprego (fim de ano)
- 2026: 5,7% — mantido
- 2027: 6,0% — mantido
Conta corrente (% do PIB)
- 2026: −2,7% — revisado (de −2,6%)
- 2027: −2,7% — revisado (de −2,6%)
Leia também
Oxford Economics identifica ‘buracos fiscais’ e alerta para riscos de dívida no Brasil
Comunicação do Banco Central segue em xeque e mercado vê risco à meta de inflação









