Bloomberg — Os dirigentes do Federal Reserve mantiveram a taxa de juros sem alteração, mas revelaram uma divisão crescente sobre as perspectivas para a política monetária em meio à incerteza elevada provocada pelo conflito no Oriente Médio.
Quatro dirigentes votaram contra a decisão, incluindo três que se opuseram a uma linguagem no comunicado pós-reunião que sugeria que o banco central voltaria, eventualmente, a cortar os juros.
A presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, e a presidente do Fed de Dallas, Lorie Logan, “apoiaram a manutenção da faixa-alvo para a taxa dos fundos federais, mas não apoiaram a inclusão de um viés para afrouxamento no comunicado neste momento”, afirmou o comitê.
O governador Stephen Miran votou em favor de uma redução de 0,25 ponto percentual nos juros.
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A votação de 8 a 4 foi a primeira desde outubro de 1992 em que quatro dirigentes registraram votos dissidentes contra uma decisão do Federal Open Market Committee. O comitê manteve a taxa básica de referência dos fundos federais na faixa de 3,5% a 3,75% ao ano.
O S&P 500 e os Treasuries permaneceram em queda após a decisão.
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Às vésperas da reunião, investidores e economistas esperavam amplamente que o Fed mantivesse os juros sem alteração pelo restante do ano.
Os dirigentes fizeram uma pequena alteração no comunicado, afirmando que “os desdobramentos no Oriente Médio contribuem para um alto nível de incerteza sobre as perspectivas econômicas”. Antes, o texto dizia que as implicações do conflito sobre a economia eram incertas.
Os dirigentes repetiram a expressão que se refere a “a extensão e o momento de ajustes adicionais” nas taxas. As autoridades reduziram os juros três vezes nos últimos meses de 2025.
O futuro de Powell
A reunião foi provavelmente a última de Jerome Powell à frente do banco central americano, depois que o Departamento de Justiça encerrou uma controversa investigação criminal contra o Fed, abrindo caminho para a confirmação de Kevin Warsh como próximo presidente da instituição pelo Senado.
O mandato de Powell como presidente expira em 15 de maio, mas ele pode permanecer em seu assento no conselho até janeiro de 2028.
Warsh assumirá o comando enquanto a guerra entre EUA e Israel contra o Irã continua a alimentar a incerteza entre líderes empresariais e economistas.
A disparada nos preços de energia resultante do conflito ameaça pressionar ainda mais uma inflação já persistente, e o peso extra sobre os consumidores pode levar a um crescimento mais lento e a demissões.
Isso configura o pesadelo de qualquer banqueiro central: inflação mais alta e desemprego em alta, que puxam a política monetária em duas direções opostas ao mesmo tempo.
Por ora, a taxa de desemprego parece ter se estabilizado. Mas a criação líquida de empregos caiu a quase zero no último ano, o que deixa o mercado de trabalho vulnerável a choques, segundo vários dirigentes.
Ao mesmo tempo, a inflação está acima da meta de 2% do Fed há cinco anos. Enquanto os dirigentes se reuniam na quarta-feira, os preços do petróleo Brent atingiram o nível mais alto desde junho de 2022.
Embora nenhum dirigente do Fed tenha dito esperar que o próximo movimento de política monetária seja uma alta de juros, vários deles querem sinalizar que isso seria possível.
Um relatório divulgado no início deste mês mostrou que a inflação ao consumidor subiu em março pelo maior ritmo em quase quatro anos, impulsionada por um aumento recorde nos preços da gasolina.
Essa alta está, por ora, concentrada nos preços de energia, mas empresas e economistas alertam que, quanto mais longa for a guerra, maior a chance de a inflação se alastrar para bens e serviços fora do setor de energia.
Fica ou sai
Enquanto isso, Warsh tem agora um caminho livre para a confirmação, depois que o senador republicano Thom Tillis retirou sua oposição à indicação de Warsh em razão da investigação do DOJ.
O Comitê Bancário do Senado votou na quarta-feira para levar a indicação de Warsh ao plenário do Senado. Após confirmado, Warsh ocupará o assento de Miran.
A notícia, no entanto, dificilmente convencerá Powell a deixar o banco central de vez. Powell se comprometeu a permanecer no cargo até que a investigação do DOJ fosse concluída “com transparência e definitividade.”
Mesmo ao declarar o encerramento da investigação, a procuradora distrital dos EUA para o Distrito de Columbia, Jeanine Pirro, deixou claro que poderia reabri-la “caso os fatos assim o justifiquem.”
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