Eleição traz volatilidade, mas gatilho para mercado brasileiro é externo, segundo BofA

David Beker, estrategista para América Latina do Bank of America diz que investidor estrangeiro já conhece Lula e que fluxo de capital deve ser definido por Fed, dólar e apetite a risco global; BofA projeta mais altas de juros nos EUA do que precifica o mercado

Entre os fatores de incerteza no exterior, estão o movimento de juros nos Estados Unidos e o apetite de investidores estrangeiros para teses além da inteligência artificial (Foto: Michael Nagle/Bloomberg)
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Bloomberg Línea — A eleição presidencial de 2026 deve elevar a volatilidade dos ativos brasileiros ao longo do segundo semestre, mas não é o principal fator que vai definir a direção do mercado local.

Essa é a avaliação de David Beker, chefe de economia no Brasil e estratégia para América Latina do Bank of America (BofA), que aponta o cenário externo – sobretudo a trajetória dos juros americanos – como o principal gatilho para os ativos brasileiros nos próximos meses.

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“A eleição aumenta a volatilidade [nos mercados], mas é aquela operação de curto prazo”, afirmou Beker a jornalistas nesta sexta-feira (3).


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Segundo o estrategista, a volatilidade local pode ser ainda menor na comparação com outros países da região que já passaram por eleições este ano, como o Peru e Colômbia – dois países em que o investidor internacional não tinha histórico de relação com os candidatos.

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Não é o caso do Brasil.

“O investidor estrangeiro já conhece o Lula. Essa é a grande diferença da eleição brasileira para outros pleitos da América Latina”.

A expectativa do BofA é de que o novo governo traga alguma mudança fiscal a partir de 2027 – independente do vencedor das eleições.

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A depender da magnitude das mudanças, uma eventual melhora na percepção fiscal do país pode beneficiar o mercado do Brasil dentro da classe de emergentes. Ainda assim, o movimento sozinho não seria suficiente para garantir um desempenho superior generalizado dos ativos brasileiros.

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“Minha avaliação é mais baseada num cenário macroeconômico externo incerto”, diz Beker. Entre os fatores de incerteza, estão o movimento de juros nos Estados Unidos e o apetite de investidores estrangeiros para teses além da inteligência artificial.

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Fed mais ‘hawkish’

O BofA mantém uma projeção fora do consenso de mercado para os juros americanos. O banco projeta três altas de juros ainda este ano, enquanto a avaliação geral aponta para apenas uma elevação ainda em 2026.

Beker reconhece que dados recentes – como o payroll mais fraco divulgado na véspera – jogam contra essa tese, mas o BofA optou por manter o call, avaliando que a pressão inflacionária nos Estados Unidos e a atividade ainda robusta sustentam o cenário.

Caso o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) seja mais duro que o esperado pelo mercado, este tende a ser um fator negativo para os mercados emergentes, que sofrem com o fortalecimento do dólar e com a queda de apetite por ativos de risco fora dos Estados Unidos.

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Bolsa brasileira

As incertezas no exterior deixam o investidor estrangeiro mais volátil em suas posições no Brasil e nos mercados emergentes.

Os números da B3 ilustram esse movimento: do total de cerca de R$ 60 bilhões que entraram na bolsa brasileira no início deste ano, R$ 30 bilhões já saíram.

Para Beker, o principal problema da bolsa brasileira hoje é a ausência de um catalisador claro para uma reprecificação dos ativos.

“A bolsa está barata, mas não é uma barganha. O que nos favoreceria seria uma rotação de fluxo de capital de IA para ações de valor, mas não enxergamos isso acontecendo nesse momento”.

O portfólio recomendado do BofA para a América Latina reflete essa cautela. O banco concentra as posições em papéis líquidos, com peso relevante no setor financeiro – como Itaú, BTG Pactual e B3. As ações de utilities, que também estão entre as preferidas do mercado em momentos de estresse, perdem espaço na carteira do BofA para os shoppings, mais atrativos em termos de preço.

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Beker também pondera que apostar em small caps ou em ações mais sensíveis a juros ainda é arriscado, já que o fluxo predominante de capital segue vindo do investidor estrangeiro, concentrado em papéis líquidos e no índice.

O investidor local, por sua vez, segue realizando resgates constantes em fundos de ações e multimercados e têm menor capacidade de sustentar a alta dos papéis domésticos.

“O principal driver de performance [das ações brasileiras] ainda é o investidor estrangeiro. E, no momento, ele está reduzindo posições”.