Bloomberg — Os investidores iniciaram a segunda-feira (2) avaliando o risco de que o conflito no Oriente Médio interrompa o fornecimento global de energia, após os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã.
A reação mais intensa ocorreu no petróleo, que avançou cerca de 8%, superando US$ 78 por barril, depois de subir até 13% no início das negociações. Os investidores estão concentrados na situação do Estreito de Ormuz — que está praticamente fechado. A rota é considerada crucial para o fluxo global de petróleo.
As ações de energia e defesa, que são vistas como potenciais refúgios, avançaram, enquanto os papéis de companhias aéreas recuaram na Ásia, à medida que os mercados globais iniciam a semana em modo de aversão ao risco.
“Os mercados acionários devem passar a ter o petróleo como principal motor dos movimentos de preços”, disse Michael Kantrowitz, estrategista-chefe de ações da Piper Sandler & Co. “As ações permanecerão pressionadas enquanto o petróleo continuar subindo.”
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Ativos considerados portos seguros registraram ganhos. O ouro à vista avançou 2%, para cerca de US$ 5.380 por onça. O índice Bloomberg Dollar Spot subiu 0,5%. Os Treasuries, por sua vez, recuaram ao longo de toda a curva de juros.
As bolsas asiáticas caíram 1,6%, enquanto os futuros dos índices acionários dos Estados Unidos recuaram mais de 1,3%.
“O desfecho ainda é altamente incerto, podendo variar de uma solução política relativamente rápida a uma escalada mais ampla do conflito na região”, disse Mathieu Racheter, chefe de estratégia de ações do Julius Baer. “Em um cenário de guerra de baixa visibilidade, os mercados tendem a reagir a probabilidades, e não a fatos concretos.”

O Citigroup elevou a recomendação para ações do Reino Unido de underweight para overweight, afirmando que o mercado britânico possui forte exposição a commodities e setores defensivos, funcionando como um hedge geopolítico. O banco reduziu a recomendação para o Japão.
À medida que investidores avaliam os desdobramentos do conflito, estes são os setores a observar com a abertura das negociações.
Energia
No setor de energia, grandes companhias registraram fortes ganhos na Ásia. A australiana Woodside Energy Group e a PetroChina, listada em Hong Kong, chegaram a subir até 11% e 5,9%, respectivamente. O mercado também acompanha gigantes globais como Exxon Mobil, Chevron, Shell, TotalEnergies, Repsol e BP.
“Tudo depende do impacto da resposta iraniana sobre a oferta global de petróleo — ao menos no curto prazo, e possivelmente por mais tempo”, afirmou Rob Thummel, gestor da Tortoise Capital.
Segundo ele, um salto nos preços pode ser temporário caso o fornecimento não seja severamente afetado. Em um cenário considerado menos provável, o fechamento prolongado do Estreito de Ormuz poderia levar o barril acima de US$ 100.
O Irã afirmou não pretender fechar a rota marítima, responsável por cerca de 20% do fluxo global de petróleo, embora haja sinais de interrupções no tráfego de petroleiros.
Empresas de transporte de petróleo também tendem a se beneficiar, disse Thummel. Por outro lado, preços mais elevados do petróleo costumam pressionar as margens de refinarias como Marathon Petroleum e Valero Energy.
Defesa
As ações de defesa acumulam alta ao longo do último ano com o aumento das tensões globais, e o novo conflito no Oriente Médio reforçou o movimento.
No Japão, a Hosoya Pyro-Engineering chegou a subir 20%, enquanto a chinesa Avic Shenyang Aircraft e a fabricante de drones AVIC Chengdu UAS avançaram até 5,4% e 20%, respectivamente. A taiwanesa Aerospace Industrial Development subiu 5,8%.
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Investidores também acompanham contratadas militares americanas como Lockheed Martin e Northrop Grumman, além das europeias Rheinmetall e BAE Systems.
“O mercado deve interpretar o cenário como amplamente positivo para ações europeias de defesa”, afirmou Jens-Peter Rieck, analista da MWB Research, acrescentando que os movimentos tendem a refletir mais o sentimento do mercado do que revisões nas estimativas de lucro.
O presidente Donald Trump já pressionou aliados europeus e asiáticos a ampliar gastos com defesa e propôs aumento de cerca de US$ 500 bilhões no orçamento militar dos Estados Unidos.
Segundo a analista Sheila Kahyaoglu, da Jefferies, a demanda por maior financiamento militar pode agora se expandir para o Oriente Médio, beneficiando contratadas americanas, que já concentram parcela relevante das vendas militares externas na região.
Metais preciosos
Em momentos de incerteza geopolítica, investidores costumam buscar ativos considerados seguros, como ouro e prata, o que tende a impulsionar mineradoras. Os preços dos metais preciosos — já em forte alta no último ano — voltaram a subir nas semanas que antecederam o conflito.
Na Austrália, a Genesis Minerals avançou até 8,6%, enquanto a Chifeng Jilong Gold Mining, em Hong Kong, subiu 6,4%. Entre as empresas monitoradas estão Agnico Eagle Mines, Barrick Mining e Newmont na América do Norte, além das europeias Fresnillo e Hochschild Mining.
O índice canadense S&P/TSX Composite pode superar outros mercados, dada sua elevada exposição aos setores de mineração e energia, que representam cerca de 38% do indicador.
Viagens e transporte
O aumento do petróleo também pressiona o setor de viagens e transporte. Custos mais altos de combustível reduzem margens das companhias aéreas, enquanto o agravamento das tensões ameaça a demanda global e as operações.
Ações de empresas aéreas nos Estados Unidos registraram na sexta-feira a maior queda desde abril, antecipando o impacto do conflito.

Transportadoras do Golfo Pérsico ampliaram suspensões de voos, potencialmente afetando rotas globais. Na Ásia, a australiana Qantas chegou a cair 10%, a Japan Airlines recuou 7,1% e a Singapore Airlines perdeu 7,5%.
Investidores acompanham papéis como American Airlines, Delta Air Lines e a alemã Deutsche Lufthansa.
“O impacto imediato recairá sobre ações de companhias aéreas e turismo, diante do fechamento de espaços aéreos no Oriente Médio e possíveis cancelamentos de voos rumo à Europa”, disse Francis Tan, estrategista-chefe para a Ásia da CA Indosuez Wealth Management.
Cada variação de 5% na estimativa de preços de combustível da Jefferies para 2026 representa impacto entre 5% e 10% no lucro por ação de Delta e United Airlines, enquanto para a American Airlines o efeito pode chegar a 35%, segundo Kahyaoglu.
Ainda assim, companhias norte-americanas têm exposição direta limitada à região, com a Air Canada apresentando a maior, equivalente a 1,1% da capacidade.
Operadoras de hotéis também podem ser afetadas por interrupções nas viagens. A InterContinental Hotels Group, que opera mais de 100 hotéis na região, viu suas ações caírem 3% em Londres na sexta-feira.
O fechamento do espaço aéreo no Oriente Médio também ameaça margens de empresas de carga como FedEx, United Parcel Service e DHL, devido ao aumento do tempo de trânsito e do consumo de combustível, segundo a Bloomberg Intelligence.
Por outro lado, interrupções nas rotas pelo Mar Vermelho e pelo Canal de Suez podem permitir que transportadoras marítimas como a AP Moller-Maersk elevem tarifas.
-- Com a colaboração de Winnie Hsu, Paul Jarvis, Neil Campling, Monique Mulima, Peyton Forte, Arvelisse Bonilla Ramos, Alexandra Semenova, Natalia Kniazhevich, Isolde MacDonogh, Julien Ponthus, Levin Stamm e Abhishek Vishnoi.
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