Do petróleo às ações globais: investidores ajustam posições após ataques no Irã

Estrategistas veem uma rotação para ativos tradicionalmente defensivos, como ouro e dólar; ações de energia e defesa sobem, enquanto papéis de companhias aéreas e redes hoteleiras tiveram perdas

A Marathon Petroleum Corp. refinery in Detroit, Michigan.
Por Matthew Griffin - Subrat Patnaik - Paul Jarvis

Bloomberg — As ações de companhias aéreas, operadoras de cruzeiros e redes hoteleiras caíram nesta segunda-feira (2), à medida que investidores reagiram ao conflito no Oriente Médio às os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã no fim de semana. Papéis de energia e defesa, por outro lado, avançaram.

Os papéis da American Airlines chegaram a recuar 7,4% na abertura do pregão em Nova York, enquanto a Carnival despencou quase 12%. Já a Exxon Mobil subiu 4,7%, atingindo máxima intradiária recorde, e empresas de defesa como Lockheed Martin e RTX registraram ganhos.

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Operadores do mercado avaliam o risco de que os combates interrompam o fornecimento global de energia e pressionem a inflação. O petróleo Brent chegou a saltar até 13% antes de reduzir parte dos ganhos.

“A situação permanece altamente dinâmica, e ainda é incerto por quanto tempo esse conflito vai durar, com riscos potenciais para o fornecimento de energia, o transporte marítimo no Estreito de Ormuz, a aviação e o turismo”, escreveu Emmanuel Cau, estrategista do Barclays.

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O índice S&P 500 Index caiu até 1,2%, acompanhando as perdas registradas anteriormente na Ásia e na Europa.

A seguir, os principais setores em foco nos mercados globais:

Energia e materiais

Grandes companhias de energia registraram ganhos ao redor do mundo. Além da Exxon, Chevron e Occidental Petroleum avançaram, levando o setor energético dos EUA a ampliar a alta iniciada na sexta-feira para níveis recordes.

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Também subiram a norueguesa Equinor, a espanhola Repsol, a australiana Woodside Energy Group e a chinesa PetroChina.

Energy, Defense Stocks Rise as Travel Shares Fall

Segundo Rob Thummel, gestor da Tortoise Capital, o impacto dependerá da resposta iraniana sobre a oferta global de petróleo — possivelmente apenas temporário, mas com efeitos mais duradouros em cenários extremos.

Um fechamento prolongado do Estreito de Ormuz poderia levar o barril acima de US$ 100, embora seja considerado menos provável.

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O Irã afirma não pretender fechar a rota, responsável por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo, mas o tráfego de petroleiros praticamente parou.

Empresas de transporte marítimo de petróleo também tendem a se beneficiar. As ações da Nordic American Tankers chegaram a subir 11%.

No setor de materiais, a CF Industries Holdings saltou 8,3%, já que o Irã é grande exportador de ureia e preços mais altos favorecem a companhia.

Em contrapartida, fertilizantes mais caros podem pressionar margens de grupos agrícolas como Archer-Daniels-Midland e Bunge, cujas ações recuaram.

Defesa

Papéis do setor de defesa acumulam alta ao longo do último ano com a intensificação das tensões globais, e o novo conflito reforçou o movimento.

Além de Lockheed Martin e Northrop Grumman, a fabricante de drones AeroVironment subiu até 18%, enquanto a Kratos Defense & Security Solutions avançou 9,6%.

Analistas do Truist Financial avaliam que os ataques devem sustentar a demanda por ações do setor, especialmente se o conflito se prolongar, reforçando o plano do presidente Donald Trump de elevar os gastos militares dos EUA para US$ 1,5 trilhão até 2027.

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A demanda por maiores investimentos em defesa também pode se espalhar pelo Oriente Médio, segundo análise do Jefferies Financial Group, beneficiando emresas de defesa americanas já relevantes nas vendas militares externas.

Na Europa, a BAE Systems subiu até 8,3%. Na Ásia, avançaram a japonesa Hosoya Pyro-Engineering, a chinesa Avic Shenyang Aircraft Company e a AVIC Chengdu UAS.

Viagens e transporte

A alta do petróleo eleva custos de combustível para companhias aéreas e operadoras de cruzeiros, enquanto o aumento das tensões ameaça a demanda global por viagens.

Companhias do Golfo Pérsico enfrentam interrupções operacionais que podem afetar a logística global da aviação.

As ações da American Airlines, Delta Air Lines e United Airlines recuaram. Na Europa, o grupo International Consolidated Airlines Group caiu até 13%, maior queda desde novembro de 2021.

UK Defense and Airline Stocks Detach Amid Iran Conflict | Moves are representative of broader stock market reaction

A australiana Qantas Airways, a Japan Airlines e a Singapore Airlines também registraram perdas.

Operadoras de cruzeiros como Carnival, Royal Caribbean Cruises e Norwegian Cruise Line Holdings recuaram.

O impacto imediato deve ocorrer nas empresas de aviação e turismo diante do fechamento de espaços aéreos e possíveis cancelamentos de voos, afirmou Francis Tan, da CA Indosuez Wealth Asset Management.

Redes hoteleiras também podem ser afetadas. A InterContinental Hotels Group, com mais de 100 hotéis na região, caiu até 6,2% em Londres, enquanto a francesa Accor recuou 11%.

O fechamento do espaço aéreo no Oriente Médio também ameaça margens de empresas de logística como FedEx, United Parcel Service (UPS) e DHL Group, devido ao aumento do consumo de combustível em rotas mais longas.

Por outro lado, gargalos no transporte pelo Mar Vermelho e pelo Canal de Suez permitem que armadores como a AP Moller-Maersk cobrem tarifas mais altas. As ações da companhia subiram até 7,7% em Copenhague.

Bens de luxo

Empresas de luxo tendem a sofrer quando viagens internacionais são interrompidas, especialmente entre destinos frequentados por consumidores de alta renda.

Segundo o RBC Capital Markets, o setor pode enfrentar pressão no curto prazo devido ao impacto do conflito sobre confiança do consumidor, geração de riqueza e fluxos turísticos.

Uma cesta de ações europeias de luxo compilada pelo UBS caiu até 4,5% na segunda-feira, ampliando a queda acumulada no ano para 10%. As suíças Richemont e Swatch lideraram as perdas.

-- Com a colaboração de Winnie Hsu, Paul Jarvis, Neil Campling, Monique Mulima, Peyton Forte, Arvelisse Bonilla Ramos, Alexandra Semenova, Natalia Kniazhevich, Isolde MacDonogh, Julien Ponthus, Levin Stamm e Abhishek Vishnoi.

-- Reportagem atualizada às 14h45, para incluir os movimentos das ações após a abertura.

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