Bloomberg Línea — A escalada do conflito no Oriente Médio gerou turbulências nos mercados globais, mas a América Latina está em posição relativamente confortável para atravessar a turbulência e tem menos a perder que outras geografias.
É o que avalia Ernesto Revilla, economista-chefe para América Latina do Citigroup, em entrevista à Bloomberg Línea.
“Mesmo que o conflito com o Irã seja ruim para todos na economia global, a América Latina está relativamente bem posicionada em comparação com outras regiões, particularmente em relação à Ásia e à Europa”, disse Revilla.
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A distância geográfica do conflito e a estrutura produtora de petróleo de vários países da região estão entre os fatores de proteção citados pelo economista.
Além disso, a melhora nos fundamentos macroeconômicos – como câmbio flutuante e reservas internacionais mais robustas – forma um colchão de proteção para a região que não existia em crises anteriores.
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O cenário-base do Citi prevê que os preços do petróleo devem recuar a partir de meados de junho, para então se normalizar de forma significativa.
“Esperamos que o impacto do conflito nos preços do petróleo dure mais algumas semanas, mas que o cessar-fogo se sustente, ainda que de forma instável”, disse o economista.
Nesse contexto, o crescimento da região não deve ser muito diferente do ano anterior, e a inflação não deve subir de forma expressiva. A explicação está em parte porque os governos da maioria dos países da região têm algum nível de controle sobre os repasses dos preços dos combustíveis ao consumidor, absorvendo o choque via pressão fiscal, e não via inflação direta.
Existe, no entanto, um cenário mais turbulento no qual a guerra se prolongue além do esperado, pressionando o preço do petróleo e o impacto inflacionário.
Um dos grandes riscos dessa conjuntura seria a possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos, maior economia do mundo.
“O pior cenário seria se o choque fosse grande o suficiente para que o mercado tivesse que reprecificar as expectativas sobre os juros americanos”, afirmou Revilla. “Se houvesse uma mudança para uma expectativa de juros mais altos nos EUA, poderia ser muito disruptivo para a região.”
Brasil: expectativa de queda de juros continua
No caso do Brasil, Revilla elogiou a postura do Banco Central, que cortou a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual em março, para 14,75% ao ano.
“O Banco Central do Brasil demonstrou uma prudência extraordinária. É uma instituição muito respeitada, que conquistou seu prestígio como condutor independente da política monetária”, afirmou.
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Ainda assim, o Citi mantém a projeção de taxa terminal para o Brasil em 12% ao ano, com risco de revisão para cima na próxima rodada de análises.
“Dado que o Brasil era o país que mais ia cortar juros em 2026 antes do conflito no Irã, ainda há espaço para manobra uma vez que o cenário fique um pouco mais claro”, disse Revilla.
Além do contexto externo, o Brasil enfrenta o desafio das eleições presidenciais, assim como a Colômbia. Ambos os países, segundo o economista, compartilham um problema central: a trajetória fiscal está em rota insustentável e o mercado exige sinalização clara de mudança – de quem quer que vença o pleito.
“O mercado não se importa tanto com a cor do partido que vence, mas sim com as políticas [implementadas]. E em ambos os casos, o mercado está esperando anúncios fiscais como primeira prioridade”, disse.
Para Revilla, há potencial para aumento na confiança dos investidores e de maior fluxo de capital estrangeiro para os mercados emergentes a depender das medidas anunciadas logo após as eleições.
Dólar fraco e a janela estrutural
Um fator que tem surpreendido positivamente é o comportamento do dólar. Contrariando as expectativas de que as tarifas do governo Trump fortaleceriam a moeda americana, o dólar enfraqueceu ao longo dos últimos meses, e esse movimento tem sido um vento favorável para as moedas e os ativos latino-americanos.
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“As moedas latino-americanas têm se comportado extraordinariamente bem diante de muitos choques, incluindo tarifas, reconfiguração geopolítica e o conflito com o Irã, justamente por causa do dólar fraco”, disse Revilla.
No médio prazo, o economista acredita que o dólar retomará gradualmente sua posição de força como moeda de reserva global visto que “não há alternativa” para substituição da moeda americana. A expectativa é que isso ocorra nos próximos 12 meses.
Para Revilla, o momento abre também uma janela de oportunidade mais estrutural para a região. Com os Estados Unidos se desacoplando de partes da Ásia e da Europa, e sem capacidade de produzir tudo internamente, a América Latina emerge como fornecedora natural — de commodities tradicionais, mas também de lítio, terras raras e produtos manufaturados.
“Os Estados Unidos não conseguem produzir tudo internamente, nem manufaturados nem commodities. E quando você pensa nisso, a América Latina está perfeitamente posicionada para abastecer uma economia americana dinâmica com o que ela não consegue produzir”, disse.
O economista afirma que o momento é de oportunidade para que a região seja um destino estrutural de investimentos. “É bom finalmente ver a América Latina não sendo o centro das preocupações ou da vulnerabilidade.”
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