Bloomberg — Argentina e Inglaterra voltarão a protagonizar uma das rivalidades mais intensas do futebol nesta quarta-feira (15), na semifinal da Copa do Mundo, em um momento em que uma disputa territorial que já dura décadas ganha novo fôlego fora de campo.
O sexto confronto entre a Argentina e os Três Leões em Copas do Mundo talvez seja o mais aguardado desde 1986, quando o gol da “Mão de Deus”, de Diego Maradona, eliminou a Inglaterra, quatro anos após a breve, porém brutal, Guerra das Malvinas, que deixou cerca de 900 mortos.
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‘La Mano de Dios’

Durante a maior parte de seu governo, Javier Milei procurou reduzir o tom da retórica sobre o arquipélago controlado pelo Reino Unido, localizado ao largo da costa argentina, evitando as promessas nacionalistas de recuperar as ilhas feitas por seus antecessores de esquerda.
Mas a partida recolocou o tema em evidência em um momento em que as expectativas de melhora nas relações entre os dois países começaram a diminuir, após a nomeação de um novo chanceler por Milei, a perspectiva de exploração de petróleo nas Malvinas e recentes sinais de que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode reavaliar o apoio americano à reivindicação britânica sobre as ilhas, conhecidas na Argentina como Islas Malvinas.
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Na noite de terça-feira, a vice-presidente Victoria Villarruel publicou no X que o confronto desta quarta-feira “não é apenas mais uma partida” e chamou os adversários da Argentina de “piratas usurpadores”.
“Contra os ingleses, é sempre algo mais”, escreveu. “São as Malvinas, é o Diego, é a última do Leo e é colocar os invasores em seu devido lugar”, afirmou, em referência a Maradona e ao atual astro Lionel Messi.
No sábado, antes da vitória da Argentina sobre a Suíça nas quartas de final, o chanceler Pablo Quirno publicou um artigo em um jornal reiterando a reivindicação argentina sobre as ilhas.
Ao classificar o tema como uma “preocupação diária”, Quirno citou recentes apelos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Comitê Especial de Descolonização das Nações Unidas para que o Reino Unido retome as negociações com a Argentina sobre a soberania das ilhas.
Também rejeitou a ideia de que o referendo de 2013, no qual os moradores das Falklands votaram pela permanência como território britânico, tenha qualquer efeito jurídico, classificando-o como uma “armadilha”.
Em contraste, no Reino Unido, a última sessão de perguntas ao primeiro-ministro na Câmara dos Comuns antes do recesso parlamentar de verão, nesta quarta-feira, foi marcada por referências ao desempenho da Inglaterra na Copa, mas sem qualquer menção às Falklands.
Keir Starmer, que se declara um “grande fã de futebol”, disse aos parlamentares que espera encerrar a semana com mais duas vitórias: a semifinal contra a Argentina e a final de domingo diante da Espanha.
As declarações de Quirno e Villarruel representam uma mudança em relação à percepção de melhora das relações bilaterais desde que Milei assumiu a Presidência, em 2023.
O libertário chegou a descrever Margaret Thatcher, primeira-ministra britânica durante a Guerra das Malvinas, como uma das “grandes líderes da história da humanidade”.
Em 2024, seu governo fechou um acordo com Londres para identificar soldados argentinos, organizar viagens de familiares aos túmulos e retomar voos diretos semanais para as ilhas.
Mesmo antes da publicação do artigo, porém, a nomeação de Quirno, em outubro, já havia começado a afetar a cooperação entre os dois países.
“Houve uma mudança política quando eles trouxeram o novo chanceler, passando de uma postura de cooperação com o Reino Unido para uma visão mais alinhada ao movimento pró-Malvinas”, afirmou Ben Judah, pesquisador visitante da Chatham House e ex-assessor do ex-chanceler britânico David Lammy. “O acordo que assinamos foi, na prática, abandonado, e o governo ficou menos aberto à cooperação com o Reino Unido.”
Segundo uma pessoa familiarizada com o assunto, que pediu anonimato para tratar de questões internas, parte da preocupação de Quirno está relacionada ao avanço de um projeto de exploração de petróleo em águas próximas às Malvinas. O chanceler não respondeu a um pedido de comentário.
Em dezembro, duas empresas estrangeiras avançaram com planos para desenvolver o campo de petróleo Sea Lion, decisão que levou a Argentina a sustentar que qualquer exploração unilateral em território disputado viola resoluções da ONU. A medida também provocou uma rara crítica de Milei.
Diplomatas britânicos ficaram apreensivos em abril após o vazamento de um memorando do Pentágono sugerindo que o governo Trump revisaria o status das Falklands como forma de punir o Reino Unido pelo apoio considerado insuficiente à guerra no Irã.
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O funcionário do Pentágono que redigiu o documento havia se reunido dois meses antes com o ministro da Defesa da Argentina durante a Conferência de Segurança de Munique. Após o vazamento, Milei afirmou que fazia “todo o humanamente possível” para colocar as ilhas sob controle argentino.
Em resposta, diplomatas britânicos buscaram garantias junto aos Estados Unidos e as receberam rapidamente do Departamento de Estado. Ainda assim, continuaram monitorando de perto a retórica vinda de Buenos Aires, segundo um diplomata.
‘É um jogo de futebol’
Às vésperas da semifinal, a ministra do Interior do Reino Unido, Yvette Cooper, pediu aos torcedores que concentrassem a atenção na partida, enquanto autoridades dos dois lados do Atlântico minimizaram o significado político do confronto.
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“Sei que há muito foco novamente em todos esses temas por causa da partida de futebol. Mas devemos nos concentrar no jogo, que é o importante nesta semana, e não nos distrair com questões que simplesmente não mudaram e não vão mudar”, afirmou à LBC.
A Argentina, liderada por Messi, usará camisas azuis em homenagem à conquista de 1986, em vez do tradicional uniforme listrado em branco e azul. Para o técnico Lionel Scaloni, a partida tem importância apenas esportiva, sobretudo pelo objetivo de conquistar um segundo título mundial para Messi, provavelmente em sua última Copa do Mundo.
“É um jogo de futebol e nada mais”, afirmou Scaloni aos jornalistas.
Gary Lineker, ex-atacante inglês que disputou a partida da “Mão de Deus” contra Maradona, adotou tom semelhante ao responder às críticas por ter usado “Malvinas” para se referir às ilhas nesta semana.
“Sinceramente, acho que eles querem nos vencer porque querem ganhar a Copa do Mundo, e acho que nós queremos vencê-los porque queremos ganhar a Copa do Mundo”, afirmou no podcast The News Agents. “Não para provar algum ponto mais de 40 anos depois.”
A retórica política argentina, por sua vez, segue uma longa tradição de líderes do país recorrerem à questão das Malvinas para reforçar o apoio interno. O governo Milei intensificou esse discurso em um momento de queda de popularidade, em meio a escândalos de corrupção e outros problemas domésticos.
“Não vejo esta partida de futebol se transformando em um grande foco de tensão diplomática”, afirmou Judah. “Mas ela é sintomática de como a Presidência de Milei acabou representando uma oportunidade perdida para Reino Unido e Argentina redefinirem suas relações.”
--Com a colaboração de Jonathan Gilbert e Alex Morales.
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