Bloomberg Línea — Países da América Latina, como a Colômbia, consideram a experiência da Argentina com o fraturamento hidráulico (ou fracking) como uma referência para definir suas próprias políticas sobre o desenvolvimento de hidrocarbonetos não convencionais.
Na América Latina, a Argentina é vista como a principal referência no desenvolvimento comercial de hidrocarbonetos não convencionais, especialmente na formação Vaca Muerta.
A Argentina ultrapassou a Colômbia na produção de petróleo no final de 2024. Enquanto o setor petrolífero da Colômbia encerrou dezembro de 2024 com 755.469 barris de petróleo por dia, a Argentina registrou 765.600 barris de petróleo por dia.
Agora, a Colômbia, sob o governo do ultradireitista Abelardo De la Espriella, busca seguir os passos da Argentina e aprender com as medidas que sua indústria vem implementando.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
“A experiência argentina demonstra que o desenvolvimento de recursos não convencionais exige muito mais do que apenas dispor de um bom recurso geológico”, afirmou à Bloomberg Línea o analista do setor Juan David Orozco Montoya, um experiente engenheiro de petróleo colombiano.
Conforme explicou o analista, que por mais de 27 anos integrou a empresa Halliburton (HALL) como gerente nacional na Colômbia e na Argentina, para desenvolver o fraturamento hidráulico é necessário contar com tecnologia, capital, infraestrutura, mão de obra especializada, regulamentação estável e capacidade institucional.
Na opinião dele, Vaca Muerta, a gigantesca formação de hidrocarbonetos não convencionais da Argentina, demonstra a importância do aprendizado operacional.

Orozco Montoya destacou que a produtividade melhorou graças a ramificações horizontais mais extensas, à otimização das etapas de fraturamento, à redução dos tempos de perfuração e completação e à padronização dos projetos.
Além disso, ele indicou que o crescimento da produção também exige o desenvolvimento de infraestrutura de transporte, armazenamento, processamento, vias, serviços públicos e capacidade logística. “Esses elementos podem se tornar gargalos se não evoluírem no mesmo ritmo que a produção”, afirmou.
Para a Colômbia e o México, ele acrescentou, “a principal lição” é que as decisões devem se basear em informações geológicas, ambientais, econômicas e sociais obtidas por meio de estudos, projetos-piloto, monitoramento e avaliação independente. “Isso permite avançar do debate geral para decisões fundamentadas em evidências”.
Leia também: Vaca Muerta exige mais de US$ 10 bilhões para abastecer Brasil e vizinhos, diz estudo
No que diz respeito ao caso específico da Colômbia, destaca-se seu potencial em jazidas não convencionais, apesar dos atuais obstáculos legais.
Ele destaca que a Agência Nacional de Hidrocarbonetos (ANH), órgão vinculado ao Ministério de Minas e Energia, reconhece esses recursos e tem estudado aspectos relacionados à água, sismicidade, integridade dos poços e gestão ambiental.
No entanto, “a Colômbia ainda não atingiu uma fase de desenvolvimento comercial, pois nem mesmo conseguiu realizar suas perfurações-piloto de pesquisa integral comparáveis às da Argentina. O Conselho de Estado tem uma decisão que deveria permitir que essas perfurações fossem realizadas rapidamente”.
A Câmara Colombiana de Bens e Serviços de Petróleo, Gás e Energia (Campetrol) considera que, para aproveitar esse potencial, será necessário haver estabilidade regulatória, normas ambientais e condições que promovam o investimento.
Marco jurídico
José Luis Palacios, sócio da área de Energia e Recursos Naturais do escritório de advocacia Pérez-Llorca Colômbia, afirma que o fracking na Colômbia não é proibido e possui viabilidade legal e regulatória do ponto de vista do setor petrolífero (dependendo da aprovação das diretrizes técnicas ambientais para a implementação da prática).
O novo governo do ultradireitista Abelardo de la Espriella manifestou seu interesse em permitir essa atividade assim que assumir o cargo.
Palacios explicou que a única via jurídica obrigatória e permitida pela jurisprudência atual é a retomada e o cumprimento rigoroso dos Projetos-Piloto Integrados de Pesquisa (PPII).
Leia também: De olho em Vaca Muerta, Brasil pressiona por oferta de gás mais barato da Argentina
“O Conselho de Estado foi claro ao alertar que a suspensão das normas não impede a realização desses projetos-piloto, desde que sejam conduzidos ‘seguindo rigorosamente as recomendações feitas pela Comissão Interdisciplinar Independente de Especialistas’”, observou ele.
Isso abre um cenário complexo de conformidade com três etapas legais (pré-requisitos, concomitância e avaliação), que inclui a criação de comitês científicos e a definição de linhas de base, tudo isso antes mesmo de se poder discutir a fase comercial.
A Pérez-Llorca Colombia destacou que, para se alcançar a viabilidade comercial, do ponto de vista do direito administrativo e constitucional, seriam necessários, no mínimo, os seguintes marcos simultâneos:
- Conclusão bem-sucedida dos PPII: superar as fases dos Projetos-Piloto, o que exige desenvolver capacidade institucional, definir a linha de base hidrogeológica, “identificar e compensar os impactos gerados” e obter explicitamente a “licença social para a exploração”.
- Rejeitar ou arquivar o projeto de lei: que o projeto de lei que visa a proibição definitiva da exploração de jazidas não convencionais não seja aprovado no Congresso.
- Publicação de diretrizes ambientais. Com essas diretrizes (ato administrativo), seria viabilizada a concessão de licenças ambientais para a execução dos PPII e, eventualmente, de outros projetos dessa natureza.
Potencial
De acordo com dados da Secretaria de Energia da Argentina, divulgados pela Campetrol, em junho de 2026 o país atingiu uma produção de 894.000 barris diários de petróleo e cerca de 5.600 milhões de pés cúbicos diários de gás natural.
Estima-se que 68% do petróleo e 63% do gás produzidos sejam provenientes de jazidas não convencionais.
No mesmo período, a Colômbia produziu cerca de 713.000 barris diários de petróleo e 704 milhões de pés cúbicos diários de gás natural comercializado.
Ou seja, a Argentina produziu 25% a mais de petróleo e oito vezes mais gás do que a Colômbia, consolidando-se como um dos principais produtores de hidrocarbonetos da América Latina graças ao desenvolvimento de seus recursos não convencionais, segundo a Campetrol.
O desenvolvimento de Vaca Muerta impulsionou a criação de uma cadeia de valor industrial em torno do setor energético.
De acordo com o Ministério da Economia da Argentina, o crescimento de Vaca Muerta permitiu que o país registrasse um superávit comercial energético de US$ 2.684 milhões durante o primeiro quadrimestre de 2025, revertendo anos de dependência das importações de energia.
“Essa transformação foi possível graças à combinação de vários fatores: continuidade na política energética, regras claras para o investimento, incorporação contínua de tecnologia, desenvolvimento da infraestrutura de transporte e processamento e uma articulação eficaz entre o governo, as empresas e as comunidades”, responderam porta-vozes da Campetrol em um comunicado.
Na visão da entidade, “a principal lição é que o sucesso não depende apenas dos recursos geológicos, mas da capacidade institucional de desenvolver esses projetos com estabilidade regulatória e rigor técnico”.
Caminho da Argentina
A Campetrol considera que os campos não convencionais representam uma oportunidade estratégica para a América Latina.
Ele defende que esses jazigos permitem aproveitar os recursos próprios para fortalecer a segurança e a soberania energética, reduzir a dependência das importações e melhorar a competitividade econômica.
“A experiência argentina demonstra esse potencial”, reforçou a entidade no comunicado.
No caso da Argentina, o governo continua promovendo investimentos para ampliar a infraestrutura de transporte e exportação de petróleo e gás, incluindo oleodutos, gasodutos e projetos de gás natural liquefeito (GNL).
Segundo explica a Campetrol, esse projeto também exigiu uma visão de longo prazo.
Dados da consultoria McKinsey & Company, citados pela Campetrol, indicam que, para sustentar o crescimento projetado para Vaca Muerta, será necessário incorporar entre 15 e 25 novas perfuratrizes de alta especificação nos próximos cinco anos.
Além disso, será necessário aumentar o investimento anual em perfuração e completação e fortalecer toda a cadeia de suprimentos.
Em 2024, a Tecpetrol, a YPF (YPF) e a Shell Argentina (SHEL) formaram o fórum de desenvolvimento “Redes de Valor”, uma iniciativa voltada para fortalecer a competitividade das pequenas e médias empresas fornecedoras, melhorar a produtividade, promover a inovação e desenvolver talentos locais.
Segundo as empresas, esse espaço visa gerar sinergias entre os programas de desenvolvimento de fornecedores, fortalecer a infraestrutura regional e consolidar uma rede de empresas locais mais competitiva.
A Tecpetrol destacou que, por meio de seu programa ProPymes, vem apoiando o fortalecimento dos fornecedores locais por meio de capacitação, transferência de conhecimento, melhorias na produtividade e desenvolvimento tecnológico, com o objetivo de aumentar a participação das empresas nacionais na cadeia de suprimentos de Vaca Muerta.
Essa estratégia também recebeu o apoio do Estado argentino.
O Programa de Fortalecimento da Cadeia Nacional de Hidrocarbonetos, liderado pelo Governo e pela YPF, visa melhorar a competitividade de mais de 5.000 pequenas e médias empresas fornecedoras, promover a substituição de importações, incorporar tecnologia e fortalecer as capacidades produtivas nacionais.
A Campetrol destaca que os resultados já começam a se refletir nas regiões onde ocorre a exploração de Vaca Muerta.
Por exemplo, ele afirma que o governo de Río Negro informou que, somente no primeiro trimestre de 2026, os grandes projetos de energia geraram US$ 15.902 milhões em compras junto a fornecedores locais, com 103 empresas de Río Negro já integradas à cadeia de suprimentos e 479 empresas registradas para participar dos novos empreendimentos energéticos.
Nesse contexto, a Campetrol acredita que, na Colômbia, o desenvolvimento dos campos não convencionais poderia impulsionar o crescimento das pequenas e médias empresas fornecedoras, atrair investimentos, gerar empregos e promover o desenvolvimento econômico nas regiões onde os projetos são executados.
Em particular, o relatório destaca que regiões como Puerto Wilches e Barrancabermeja poderiam ser algumas das principais beneficiárias de um eventual desenvolvimento dos campos não convencionais, dado o alto potencial identificado no Vale Médio do Magdalena.
Estima-se que esses recursos na Colômbia possam representar cerca de 8.234 milhões de barris de petróleo e 167.000 gigapés cúbicos de gás natural, o que equivale a quatro vezes as reservas comprovadas de petróleo e cerca de 70 vezes as reservas atuais de gás do país.









