Bloomberg — Donald Trump e Xi Jinping concordaram em manter uma trégua comercial até o início de 2027, sem que nenhum dos dois esteja disposto a abalar as relações entre as maiores economias do mundo, mesmo com a persistência de tensões em torno das terras raras, das restrições tecnológicas e de Taiwan.
No momento em que Xi desembarcou nos EUA na quarta-feira (23), o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou que um acordo firmado pelos líderes no ano passado agora será prorrogado por mais dois meses, até 10 de janeiro. Isso alivia grande parte da tensão em torno da primeira visita de Estado de Xi aos EUA desde 2015 e abre caminho para mais duas reuniões entre os presidentes, previstas para os próximos meses em cúpulas em Shenzhen e Miami.
Ainda assim, a breve prorrogação mostra que a “estabilidade estratégica construtiva” que sustenta a relação continua frágil.
Os EUA acusaram a China de não cumprir as promessas de fornecer um fluxo constante de terras raras, enquanto Pequim continua confiante de que seu controle sobre esses elementos cruciais para a defesa e a fabricação de alta tecnologia impedirá Trump de reimpor tarifas exorbitantes.
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“Podemos conviver com isso porque estamos confiantes de que, em dois meses, os EUA não conseguirão se tornar independentes do fornecimento chinês de terras raras”, afirmou Wu Xinbo, diretor do Centro de Estudos Americanos da Universidade de Fudan e ex-assessor do Ministério das Relações Exteriores da China. “Eles voltarão e implorarão pelas exportações chinesas de ímãs de terras raras para os EUA.”

A notícia da prorrogação pareceu reduzir o risco imediato de uma interrupção no abastecimento, prejudicando as ações de empresas que buscam oferecer alternativas ao fornecimento chinês de terras raras.
A Toyo Engineering caiu cerca de 9% em Tóquio, e a australiana Lynas Rare Earths registrou queda de até 5%. Os mercados em geral demonstraram pouco entusiasmo, com o índice de referência chinês CSI 300 caindo 1,7% e o índice MSCI de ações asiáticas recuando 0,8%, também pressionados pelos preços elevados do petróleo e pelos rendimentos dos títulos dos EUA.
Bessent se reuniu na quarta-feira com seu homólogo chinês, He Lifeng, em Washington, para definir os termos, dando continuidade às negociações realizadas em Nova York no último fim de semana. Mesmo assim, o secretário do Tesouro dos EUA deixou clara sua insatisfação ao anunciar a trégua.
“Há alguns compromissos que não foram cumpridos de forma perfeita pelo lado chinês”, disse Bessent à Fox News. Autoridades americanas haviam detalhado suas expectativas e agora queriam ver se Pequim “poderia ser um pouco mais rigorosa na implementação do acordo” nos próximos meses.
Ambos os lados parecem ter se contentado com menos do que o esperado. O representante comercial Jamieson Greer indicou esta semana que os EUA buscavam prorrogar a trégua por três a seis meses, ao mesmo tempo em que destacava a falta de confiança entre as nações. A China havia buscado um período mais longo, com o objetivo de garantir o acordo atual durante todo o mandato do presidente Trump.
A agricultura é outra fonte de insatisfação por parte dos EUA. A China está a cerca de metade do caminho para cumprir sua promessa de comprar 25 milhões de toneladas de soja norte-americana este ano, mas o progresso tem sido mais lento em relação a um compromisso separado de adquirir cerca de US$ 17 bilhões em produtos agrícolas norte-americanos adicionais.
“Estamos incentivando-os a dar andamento a esses compromissos”, disse Bessent na quarta-feira.

A falta de avanços tangíveis nas negociações comerciais não impediu Trump de estender o tapete vermelho para Xi na Base Conjunta de Andrews, onde ele se tornou o primeiro presidente dos EUA em seis décadas a receber um homólogo estrangeiro, excluindo as visitas do Papa. Os dois realizarão reuniões mais substantivas e um jantar de Estado na quinta-feira, em Washington.
“A cúpula está gerando uma estabilização controlada”, afirmou Han Lin, diretor nacional da The Asia Group na China, acrescentando que a prorrogação da trégua atendeu às baixas expectativas que ambos os lados tinham ao chegar ao encontro. “Se Trump e Xi se encontrarem novamente em novembro ou dezembro, talvez o objetivo seja guardar o melhor para o final.”
A China tem buscado manter as tarifas dos EUA em um nível relativamente baixo, ao mesmo tempo em que pressiona Trump a eliminar restrições de segurança nacional e a adiar qualquer venda de armas a Taiwan.
Embora ambos os lados tenham buscado impulsionar o comércio de itens não sensíveis, eles fizeram pouco progresso em relação a um Conselho de Investimento que poderia abrir as portas para que empresas chinesas expandissem suas operações nos EUA — uma perspectiva que enfrenta ampla oposição no Congresso dos EUA.
A China também está enfrentando um aumento das tensões comerciais com a Europa, onde os líderes têm se mostrado cada vez mais preocupados com a erosão do setor manufatureiro diante das exportações chinesas de veículos elétricos, eletrônicos de consumo e outros produtos de ponta.
“Os riscos potenciais de imposição de tarifas por parte dos EUA e da UE representam riscos potenciais de queda para as perspectivas de exportação da China”, afirmou Lynn Song, economista-chefe para a Grande China do ING Bank NV em Hong Kong. “Torna-se cada vez mais importante para a China fortalecer a demanda interna daqui para frente.”
O que diz a Bloomberg Economics...
“A prorrogação da trégua adia o cronograma para quaisquer acordos significativos para possíveis encontros entre Trump e Xi em Shenzhen, em novembro, e em Miami, em dezembro.”
— Chang Shu e Eric Zhu
Ambos os líderes também enfrentam desafios internos que se tornariam mais difíceis com uma disputa comercial mais ampla.
Trump, de 80 anos, aproxima-se das eleições de meio de mandato de novembro com seus colegas republicanos correndo o risco de sofrer perdas que poderiam enfraquecer sua posição no Congresso. Xi, de 73 anos, enfrenta um crescimento econômico lento, demanda interna fraca e elevado desemprego entre os jovens, à medida que se aproxima um ano em que o Partido Comunista elegerá novos líderes em um encontro que ocorre duas vezes por década.
“Analisando o panorama mais amplo das relações bilaterais, nenhum dos lados pode se dar ao luxo de mais turbulências neste momento”, afirmou Zhao Hai, vice-presidente do Instituto Chinês de Hong Kong, um centro de estudos afiliado à Academia Chinesa de Ciências Sociais, um grupo de pesquisa governamental em Pequim. “Especialmente uma nova escalada que resultaria em uma situação em que todos sairiam perdendo.”
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