Inadimplência recorde pressiona bancos e fintechs da Argentina e desafia governo Milei

Percentual de famílias com atraso em dívidas saltou de 2,6% para 11,5% do total de empréstimos em apenas três meses; salto corrói os resultados de bancos e outras instituições financeiras, obrigando muitos a elevar provisões

Pedestres em Buenos Aires: queda na inflação anual foi um choque para famílias acostumadas a ver suas dívidas se dissolverem em termos reais com a inflação. (Foto: Anita Pouchard Serra/Bloomberg)
Por Ignacio Olivera Doll

Bloomberg — Uma alta expressiva na inadimplência das famílias tem abalado bancos e fintechs da Argentina, apresentando mais um desafio à ambiciosa reforma econômica do presidente Javier Milei.

O percentual de famílias com atraso no pagamento de dívidas saltou para o maior nível em 15 anos — 11,5% do total de empréstimos em março —, ante 2,6% no fim de 2024, segundo dados publicados pelo banco central neste mês.

PUBLICIDADE

Esse salto corrói os resultados de bancos e outras instituições financeiras, obrigando muitos a elevar provisões para créditos duvidosos, enquanto alguns registraram prejuízo no primeiro trimestre.

Leia também: ‘Dinheiro no colchão’: argentinos resistem a apelo de Milei e mantêm US$ 170 bi em casa

Quatro instituições — Ualá, Compañía Financiera Argentina, Banco de Servicios Financieros e Banco del Sol — receberam aportes de capital nos últimos meses para compensar a erosão do patrimônio, segundo a FIX SCR, afiliada local da Fitch Ratings na Argentina.

PUBLICIDADE

“O problema foi que muitos bancos e fintechs saíram com o pé no acelerador nos empréstimos em 2024, quando o cenário macroeconômico da Argentina mal começava a se estabilizar”, disse Fernanda López, diretora sênior da FIX SCR.


Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.


Os tremores no setor bancário são, ao menos em parte, um desdobramento da agenda de reformas de Milei, que conseguiu reduzir a inflação endêmica do país ao mesmo tempo que afetou diferentes setores da economia.

PUBLICIDADE

A queda na inflação anual — de 290% no início do governo Milei para menos de 33% atualmente — foi um choque para famílias acostumadas a ver suas dívidas se dissolverem em termos reais com a inflação.

Ao mesmo tempo, a alta nas tarifas de serviços públicos corroeu a renda disponível, enquanto o crescimento do país sofreu um baque no fim do ano passado.

Leia também: Milei avança para privatizar Casa da Moeda em meio à queda na circulação de notas

PUBLICIDADE

Os danos no setor bancário foram generalizados, embora alguns analistas digam que os credores evitaram um cenário mais grave ao reforçar o capital, com apoio do banco central.

Inadimplência Atinge Máxima de 15 Anos na Argentina

Entre os bancos mais pressionados está o Banco de Servicios Financieros, braço financeiro do Carrefour na Argentina, que precisou de um aporte de capital depois que a inadimplência ultrapassou 49% no primeiro trimestre, segundo dados do banco central.

A Ualá recebeu um aporte de US$ 197 milhões em março, após a inadimplência atingir 39,5% em fevereiro — índice medido antes das baixas contábeis, que reduziram a taxa para cerca de 15%, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.

A Compañía Financiera Argentina, financeira de consumo conhecida como Efectivo Sí e voltada ao público de baixa renda, registrou queda de 26% no patrimônio líquido no fim de 2025 e anunciou um aporte de capital antes de ser absorvida nesta semana pelo Banco Columbia por pouco mais de US$ 30 milhões, segundo comunicado da empresa.

A companhia ainda apresenta taxa de inadimplência de 39%, de acordo com dados de fevereiro divulgados pelo banco central.

Corte de custos

O impacto também leva os bancos a reduzir custos para preservar capital.

O Banco Supervielle lançou planos de demissão voluntária em março e abril com o objetivo de reduzir seu quadro de funcionários em cerca de 500 pessoas, de um total de mais de 2.900, segundo pessoas familiarizadas com o assunto que falaram com a Bloomberg News.

Leia também: Argentina tenta salvar exportação de soja após rejeição holandesa a transgênicos

No sistema bancário como um todo, as instituições já cortaram 6.000 postos de trabalho no último ano, de um total de 96.000 funcionários no fim de 2024.

“Os credores concentram esforços intensos na recuperação de crédito, com equipes comerciais oferecendo aos tomadores prazos mais longos e isenção de juros. Fazem isso porque percebem disposição para pagar por parte dos indivíduos, mas não capacidade de pagamento”, disse López.

Provisões para Créditos Ruins dos Bancos Argentinos Saltam Seis Vezes em um Ano

O Banco Central tenta aliviar parte da pressão. Em abril, afrouxou a política monetária, reduzindo as taxas para cerca de 20% ao ano, mesmo com a inflação ainda em 32%, e flexibilizou os requisitos de reservas para liberar liquidez.

Autoridades do Banco Central também orientaram bancos e fintechs a oferecer aos devedores inadimplentes alívio por meio de prazos mais longos, juros menores e isenção de encargos por atraso, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

Leia também: Desgaste de Milei pressiona títulos e amplia preocupação do mercado sobre a Argentina

Alejandro Butti, presidente-executivo do Banco Santander Argentina, disse que o salto na inadimplência das famílias reflete as elevadas taxas de juros reais do ano passado e a estagnação dos salários reais nos últimos dez meses. Ele acredita que a inadimplência está próxima do pico e deve recuar com a queda das taxas.

“A recuperação dos salários reais a partir de abril deve ajudar a reduzir a inadimplência”, disse ele em evento em Buenos Aires na semana passada.

Outros são menos otimistas quanto ao fim do pior momento.

“Ainda não vimos o pico da inadimplência”, disse Marcelo De Gruttola, vice-presidente para instituições financeiras da Moody’s Ratings. Ainda assim, “começamos a ver o ritmo de deterioração desacelerar.”

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

Startup argentina Belo, que surfou onda do Pix, capta US$ 14 mi para avançar em LatAm

BofA reforça aposta em Brasil e Argentina e vê Ibovespa a 210 mil pontos em 2026