Da Argentina à Bolívia, os países onde o risco-país caiu na América Latina

Países que passaram por guinadas ‘pró-mercado’ viram o Índice de Títulos de Mercados Emergentes recuar de patamares acima de 2.000 pontos para níveis abaixo de 500 em alguns casos, o que reflete a reprecificação do risco soberano

Javier Milei
23 de Fevereiro, 2026 | 10:51 AM

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Vários países latino-americanos têm apresentado fortes oscilações nos preços de seus títulos e, consequentemente, em seu risco-país, devido a mudanças políticas. Isso é observado, particularmente, naqueles que passaram de governos de esquerda ou centro-esquerda para regimes mais pró-mercado.

Um dos casos mais notórios é o da Argentina. Até 17 de novembro de 2023, o Índice de Títulos de Mercados Emergentes (EMBI, na sigla em inglês), elaborado pelo JPMorgan, indicava que o risco-país argentino estava em 2.416 pontos.

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Em 19 de novembro daquele ano, o atual presidente, Javier Milei, venceu o segundo turno das eleições contra o candidato peronista Sergio Massa e começou uma queda no spread soberano que, após os últimos dois anos e três meses, levou o indicador aos atuais 520 pontos.

Embora a Argentina seja hoje o segundo país com o EMBI mais alto da América Latina, atrás apenas da Venezuela, o que aconteceu com Milei continua sendo o principal fator determinante para o preço dos títulos.

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Em 2025, depois que o atual presidente perdeu uma eleição legislativa no principal distrito (a província de Buenos Aires), o indicador chegou a subir para 1.456 pontos.

No entanto, em 25 de outubro, o mileísmo venceu as eleições parlamentares nacionais e começou uma forte compressão dos rendimentos, até os níveis atuais.

Outro exemplo muito notável é o do Equador, onde o risco-país vinha aumentando depois que Daniel Noboa teve um mau desempenho no primeiro turno em fevereiro de 2025, quando buscava a reeleição.

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Tudo parecia indicar que o correísmo voltaria ao poder com Luisa González, e o risco-país subiu para 1.908 pontos. No entanto, em 13 de abril, Noboa foi reeleito e o EMBI caiu mais de 500 pontos.

Atualmente, o risco-país do Equador está em 467 pontos, abaixo do risco-país da Venezuela, da Argentina e da Bolívia.

Precisamente, a Bolívia é outro caso exemplar. Após 20 anos de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS), a vitória do centrista Rodrigo Paz Pereira em 2025 impulsionou uma forte recuperação da dívida soberana, o que levou o risco-país a ultrapassar os 500 pontos ( atualmente está em 470, abaixo da Argentina).

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No início do ano passado, o índice girava em torno de 2.100 pontos.

Outro exemplo notável é o de Honduras, país em que o conservador Nasry Asfura, com o apoio explícito de Donald Trump, venceu as eleições de 2025 para substituir a esquerdista Xiomara Castro, esposa de Manuel Zelaya. Atualmente, o EMBI hondurenho está em 190 pontos, empatado com o brasileiro e abaixo do correspondente a potências regionais como Colômbia e México.

No início de 2025, estava perto dos 380 pontos. Outro exemplo de trade político , embora muito mais arriscado, é o posicionamento em títulos venezuelanos que alguns investidores vêm mantendo.

No final de 2025, o EMBI da Venezuela era de 12.592 pontos, mas os títulos subiram fortemente após a prisão do ex-presidente Nicolás Maduro e, atualmente, o spread é de 7.951.

O que determina o risco-país

O risco-país é uma variável utilizada para estimar como os investidores avaliam a solvência de um Estado e sua disposição para honrar os compromissos da sua dívida soberana.

Na prática, expressa o prêmio adicional que um país deve validar em termos de taxas de juros para se endividar em comparação com os Estados Unidos. A referência mais difundida é o EMBI, calculado pelo JPMorgan Chase.

Esse índice estabelece a diferença entre o rendimento dos títulos públicos de economias emergentes e o dos títulos do Tesouro americano, considerados um ativo de menor risco.

A medição surge da evolução dos preços dos títulos soberanos negociados no exterior. Quando esses papéis perdem valor, seja por vendas massivas ou por uma deterioração da confiança, sua taxa de retorno aumenta.

Esse aumento no rendimento amplia a diferença em relação aos títulos americanos e, consequentemente, eleva o risco-país.