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Ricos e odiados: violência contra CEOs expõe crise de confiança no capitalismo dos EUA

Desde o assassinato de executivo da UnitedHealthcare Group em 2024, houve um aumento alarmante nas ameaças e na violência contra executivos, incluindo ataques à casa de Sam Altman, CEO, da OpenAI

Luigi Mangione
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Opinion — À medida que o julgamento de Luigi Mangione avançava no tribunal estadual de Nova York na semana passada, o processo destacou o quanto o assassinato de Brian Thompson, executivo da UnitedHealthcare Group, abalou profundamente a comunidade empresarial.

Primeiro, há o próprio assassinato, que parece ter desencadeado uma onda de violência contra altos executivos. Nos seis meses anteriores ao assassinato de Thompson, em 4 de dezembro de 2024, uma empresa de segurança corporativa e investigações identificou cerca de 1.560 ameaças diretas contra CEOs — um número que disparou para mais de 2.200 em apenas cinco semanas depois.

Algumas ameaças não são meramente abstratas. A casa do CEO da OpenAI, Sam Altman, foi alvo de ataques (duas vezes), assim como os escritórios corporativos de sua empresa. A casa de um executivo farmacêutico da Bayer em Nova Jersey foi incendiada. A residência de um CEO de uma seguradora foi alvejada, assim como a de um político eleito no estado de Indiana que apoiava data centers. Em Ontário, na Califórnia, um funcionário foi acusado de incendiar um armazém da Kimberly-Clark.


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A violência nunca é a resposta correta. Mas, para o mundo corporativo americano, mais perturbador do que a violência pode ser o quanto a ira pública é direcionada às empresas visadas, em vez de aos supostos criminosos.

Um lembrete contundente: na audiência pré-julgamento da semana passada, um grupo de apoiadores de Mangione usava camisetas com os dizeres “Free Luigi”, enquanto um grupo que se autodenomina “Mangionistas” obteve credenciais de imprensa para combater o que eles chamam de “agenda” da grande mídia.

Essa parcela da população pode parecer ínfima, mas é mais do que uma anomalia.

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Uma pesquisa do Emerson College realizada pouco depois do assassinato de Thompson revelou que 17% dos entrevistados consideraram as ações do acusado aceitáveis — um número que saltou para 41% na faixa etária de 18 a 29 anos.

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Pela primeira vez, as agências de segurança pública dos EUA identificaram o “extremismo violento antitecnologia” como uma ameaça emergente. E, de forma mais ampla, cerca de um em cada cinco americanos apoia algum tipo de violência política.

Os números refletem um crescente sentimento de impotência e desconfiança do público em relação à ordem econômica atual — na qual os CEOs têm se tornado cada vez mais tanto os representantes quanto a face pública do próprio sistema. A disparada da desigualdade e o aumento exorbitante dos salários dos executivos convenceram os “despossuídos” de que a economia está manipulada para beneficiar os “possuidores”.

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O medo e a desconfiança crescentes em relação à inteligência artificial (IA) deixaram os trabalhadores com incertezas sobre o futuro e com a sensação de que os empregadores os veem apenas como “capital humano de menor valor” ou uma “linha de montagem humana” — porque seus chefes literalmente os descreveram dessa forma.

Como país, os Estados Unidos já passaram por isso antes — tanto no que diz respeito aos ataques quanto às tensões sociais subjacentes que alimentam o apoio a eles.

Há cerca de 150 anos, durante a Era Dourada, os EUA viveram uma mistura semelhante de inovação tecnológica e crescente desigualdade de renda que transformou a elite corporativa da época em alvo da violência e da ira públicas.

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Mas os líderes empresariais que surgiram após essa era perceberam que, se quisessem manter tanto o poder quanto o dinheiro, teriam de encontrar uma maneira de fazer o capitalismo funcionar para mais do que apenas eles próprios — o que chamaram de “interesse próprio esclarecido”.

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A resposta do mundo corporativo americano moderno a muitas dessas mesmas tendências subjacentes tem sido muito mais limitada. Há mais guarda-costas e veículos blindados, mas muito menos evidências de qualquer reflexão real sobre o crescente ressentimento anticorporativo.

O público vê muito interesse próprio e duvida cada vez mais da parte esclarecida. Parece que os titãs e magnatas de hoje se apaixonaram tanto pelo futuro da IA que, coletivamente, deixaram de dar ouvidos às lições do passado.

Durante a Era Dourada, a aristocracia abastada tornou-se o foco da ira do público, à medida que os avanços tecnológicos levavam a concentrações de riqueza como o país nunca havia visto antes.

Figuras como J.P. Morgan, John D. Rockefeller e o presidente da Carnegie Steel, Henry Frick, foram todos alvos de ataques violentos ou conspirações. Vale notar que muitos dos magnatas da época dirigiram ataques violentos contra trabalhadores em greve.

“Foi um momento em que esses grandes industriais e financistas se tornaram símbolos daquela nova ordem mundial — um mundo que muita gente não gosta”, diz a professora de história da Universidade de Yale, Beverly Gage, cujo livro The Day Wall Street Exploded narra o ataque de 1920 ao edifício J.P. Morgan, que matou 39 pessoas.

Assim como acontece com os poderosos de hoje, os “barões ladrões” do final do século XIX e início do século XX reagiram às ameaças e à instabilidade social reforçando sua segurança. Na época, viajavam em vagões blindados e contratavam agências de segurança privada. Hoje, constroem bunkers de luxo para sobrevivência.

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Mas talvez seja aí que terminem as semelhanças históricas. Saindo da Era Dourada, na era pós-Depressão e da Segunda Guerra Mundial, a aristocracia empresarial aceitou mais prontamente impostos mais altos, sindicatos, regulamentação e salários. Eles reconheceram que pagar um salário decente significava que os trabalhadores poderiam comprar os bens e serviços que suas empresas produziam.

Em seu livro The Fracturing of the American Corporate Elite, o professor de sociologia da Universidade de Michigan, Mark Mizruchi, argumenta que esse posicionamento foi motivado em parte por um senso de responsabilidade, mas também por esse “interesse próprio esclarecido”.

“A visão deles era de que a melhor maneira de manter seus próprios privilégios era garantir que toda a sociedade repousasse sobre uma base sólida”, disse-me Mizruchi.

Houve um momento em que parecia que os líderes empresariais de hoje estavam interessados não apenas em construir impérios, mas também em salvar o mundo. No entanto, com a mudança dos ventos políticos, o discurso de que as empresas são uma força para o bem ou que tornam o mundo um lugar melhor desapareceu.

Isso tornou mais difícil para o público acreditar em Altman quando ele diz que a IA pode tornar “o futuro incrivelmente bom, para sua família e para a minha” ou no presidente da Amazon (AMZN), Jeff Bezos, quando ele promete que dobrar seus impostos não ajudará um professor ou uma enfermeira a pagar as contas.

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Em seu trabalho, Mizruchi cita um colega sociólogo que descobriu que um fator, mais do que qualquer outro, levou à queda de vários impérios ao longo da história: as elites de cada império chegaram a um ponto em que começaram a acumular recursos para si mesmas, privando suas sociedades em geral dos fundos necessários para funcionar.

Ele escreve: “Na verdade, as corporações e os ricos de hoje estão acumulando os recursos da sociedade para si mesmos, enquanto privam o tesouro dos fundos que são extremamente necessários para reparar e fortalecer a sociedade da qual depende sua riqueza.”

Essa pode muito bem ser a forma mais autodestrutiva de visão de curto prazo que existe no mundo corporativo americano hoje.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Beth Kowitt é colunista da Bloomberg Opinion e cobre o mundo corporativo dos Estados Unidos. Foi redatora e editora sênior da revista Fortune.

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