Fundos têm 2º ano consecutivo de saídas no Brasil, com resgates de R$ 128 bi

Fundos multimercados, de ações e renda fixa lideraram os resgates no período, em um cenário de juros e inflação elevados, bem como cautela internacional

Classes multimercado e renda fixa lideraram os resgates, com saídas de R$ 134,3 bilhões e R$ 59,8 bilhões, respectivamente
09 de Janeiro, 2024 | 12:22 PM

Bloomberg Línea — A indústria de fundos de investimento encerrou 2023 com saídas líquidas (aportes menos resgates) de R$ 127,9 bilhões, de acordo com dados da Anbima, a associação que regula o setor, divulgados nesta terça-feira (9). O resultado segue o desempenho negativo visto no ano anterior, quando os investidores retiraram R$ 129 bilhões desses produtos.

Em um contexto marcado por inflação e juros ainda elevados, bem como cautela e incertezas no ambiente internacional, os investidores resgataram R$ 74,5 bilhões dos fundos em dezembro. O montante foi puxado por multimercados e fundos de renda fixa.

Apenas três meses do ano passado se encerraram no campo positivo: julho, agosto e novembro. Os meses de março e maio, por sua vez, foram os que tiveram as maiores saídas depois de dezembro: de R$ 35 bilhões e de R$ 34,9 bilhões, respectivamente.

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No acumulado do ano, as classes multimercado e renda fixa lideraram os resgates, com saídas de R$ 134,3 bilhões e R$ 59,8 bilhões, respectivamente.

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Os fundos de ações vieram em terceiro lugar, com o saldo de aportes menos resgates negativo em R$ 17 bilhões.

“A volatilidade durante 2023 fez com que estratégias de multimercados fossem dificultadas, fazendo com que o retorno desses fundos (subclasses livre, juros e moedas, exterior e estratégias especializadas) ficassem, em média, abaixo do CDI. Isso pode explicar a saída de recursos da classe”, disse Pedro Rudge, vice-presidente da Anbima, em coletiva com a imprensa nesta terça.

Em mais um ano marcado por juros de dois dígitos, títulos de renda fixa isentos, como Letras de Crédito Imobiliárias (LCI) e do Agronegócio (LCA), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e do Agronegócio (CRAs), bem como LIGs e debêntures incentivadas, se destacaram e somaram R$ 283,9 bilhões em captações até novembro, um aumento de 35,5% na comparação anual.

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“Quando analisamos o percentual de títulos isentos, vemos que a oferta maior desse tipo de produto tem sido bastante atrativa no cenário que vivenciamos em 2023 e que devemos ver ainda nos primeiros meses de 2024. Com taxas de juros atraentes, investidores buscam instrumentos mais seguros e com retorno bastante interessante. Se tiver isenção fiscal então, melhor ainda”, disse Rudge.

Os Fundos de Investimento em Participação (FIPs) foram o “carro-chefe” no acumulado de 2023, com aportes líquidos de R$ 42,1 bilhões. Na sequência, vieram os Fundos de Investimento em Direito Creditório (FIDCs), com captação líquida de R$ 23,4 bilhões.

Rudge destacou, contudo, eventos pontuais em ambas as classes, que influenciaram no resultado: aportes em dois FIPs somando R$ 26,6 bilhões em abril e de R$ 12,8 bilhões em um fundo de ações em outubro.

O setor de fundos encerrou dezembro com patrimônio líquido de R$ 8,3 trilhões, aumento de 11,5% ante dezembro de 2022. No período, o número de fundos cresceu 5,8%, para 30.624, enquanto o total de contas teve alta de 8,4% (até novembro). Vale lembrar que um investidor pode ter mais de uma conta.

Perspectivas para 2024

Rudge destacou que 2023 foi bastante volátil, fazendo com que a percepção de risco pelos investidores variasse no período. Olhando para frente, contudo, a avaliação é positiva, sempre considerando um portfólio diversificado, disse.

“A indústria de fundos oferece alternativas bastante atraentes para o investidor alocar seus recursos. A taxa de juros reduzindo – e a tendência é de que o movimento de redução continue – acaba atraindo e aumentando a atratividade dos fundos mais arrojados. Multimercados, fundos de ações e FIIs [fundos imobiliários] tendem a ganhar maior relevancia e atratividade em um ambiente de juros menores”, afirmou.

“Considerando esses fatores e a questão da diversificação, os fundos deveriam ser uma alternativa interessante na alocação de patrimônio dos investidores, dado que permite o acesso a estratégias que o investidor sozinho ou não sabe ou não consegue.”

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Rudge, que também é sócio-gestor da Leblon Equities, reforçou a importância de uma análise de janelas mais longas ao investir em fundos de investimento e avaliou que o investidor não deve esperar uma volatilidade tão frequente como a vista nos últimos 12 a 24 meses.

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Mariana d'Ávila

Editora assistente na Bloomberg Línea. Jornalista brasileira formada pela Faculdade Cásper Líbero, especializada em investimentos e finanças pessoais e com passagem pela redação do InfoMoney.