Opinión - Bloomberg

Combustíveis fósseis não oferecem mais segurança energética. A solução é energia limpa

O ano de 2025 marcou um avanço significativo na utilização de energias renováveis, com o aumento de painéis solares e turbinas eólicas em todo o mundo, incluindo países em desenvolvimento. No entanto, a guerra no Irã mudou o cenário

Oil pumping jacks in an oil field at sunset in Russia. Photographer: Andrey Rudakov/Bloomberg
Tempo de leitura: 6 minutos

Bloomberg Opinion — O ano de 2025 representou um grande avanço na revolução da energia limpa, com a instalação de fontes renováveis, como painéis solares e turbinas eólicas, atingindo níveis recordes não apenas nos países desenvolvidos, mas também nas economias emergentes.

Então veio a guerra no Irã, uma reviravolta global que certamente mudará nosso futuro coletivo de maneiras imprevisíveis. Diante de mais uma crise energética — apenas quatro anos após a provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia — a questão de saber se a trajetória ascendente da energia limpa estará entre as perturbações é urgente.

Embora esses tipos de choques reforcem os argumentos a favor das energias renováveis, que oferecem tanto fornecimento seguro quanto preços estáveis, eles também tendem a criar condições fiscais — inflação crescente, taxas de juros mais altas, perturbações na cadeia de abastecimento — que não são exatamente propícias ao investimento necessário para financiar novos projetos de energia limpa.


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Então, quais forças prevalecerão? A história nos dá pistas.

Os dois choques do petróleo da década de 1970, precipitados pela Guerra do Yom Kippur em 1973 e pela Revolução Iraniana em 1979, impulsionaram o primeiro avanço em direção à eficiência energética.

Os Estados Unidos, por exemplo, introduziram um limite máximo de velocidade nacional e os americanos perderam o gosto por veículos gigantescos que consumiam muita gasolina. Outros países foram estimulados a explorar fontes domésticas alternativas: a Dinamarca decidiu apostar na energia eólica, enquanto a França construiu 50 reatores nucleares em uma década. Sim, o mundo continuou viciado em hidrocarbonetos, mas as crises deram início a algo importante.

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O aumento repentino dos preços em 2022, causado pela invasão da Ucrânia pela Rússia, pode ter sido o primeiro choque energético em que os benefícios das energias renováveis para a segurança foram verdadeiramente valorizados. Os países tomaram medidas para intensificar a transição, destinando mais recursos às energias renováveis e à eletrificação — embora nem tudo tenha sido um mar de rosas.

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As altas taxas de juros afetaram particularmente o setor eólico, levando a gargalos na cadeia de suprimentos, cancelamento de projetos e cortes de empregos. Mas, assim como nos anos 70, o resultado final foi o progresso.

Dois relatórios publicados na semana passada mostram que, antes do início da guerra no Irã, essas sementes já estavam começando a brotar. A análise global de energia da Agência Internacional de Energia (AIE) constatou que a energia solar estava particularmente forte — a maior fonte individual de crescimento do setor energético em 2025 — e que as novas instalações de energias renováveis atingiram uma capacidade recorde de 800 gigawatts.

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O think tank Ember, por sua vez, informou que as fontes limpas atenderam a todo o crescimento da demanda por energia no ano passado. E, em uma mudança importante, ainda que simbólica, as energias renováveis ultrapassaram o carvão na matriz elétrica global, e o carvão caiu para menos de um terço da geração global pela primeira vez na história.

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O principal impulsionador desse crescimento é, simplesmente, o custo.

Considere o Paquistão, onde a escassez de energia e uma rede elétrica sobrecarregada levaram a um aumento no número de pessoas instalando seus próprios painéis solares nos telhados. Como resultado, o país evitou importar cerca de US$ 12 bilhões em petróleo e gás entre 2021 e o início de 2026, de acordo com uma análise do think tank Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA) e da consultoria de energia Renewables First; se a guerra no Irã mantiver os preços elevados, o país poderá economizar cerca de US$ 6,3 bilhões adicionais até o final do ano.

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Embora a Ásia tenha sentido o impacto mais forte dos preços, a Europa também sofreu, especialmente em termos de combustível de aviação e diesel.

Na quarta-feira (29), a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen, afirmou que a conta das importações de combustíveis fósseis da UE havia aumentado em mais de € 27 bilhões em apenas 60 dias. Em todo o continente, os países que mais avançaram com fontes de energia limpa, como França e Espanha, estão orgulhosos, já que seus preços de eletricidade devem permanecer relativamente baixos mesmo que o conflito persista e eleve os preços do gás.

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Mas, embora se possa pensar que tais evidências impulsionariam o crescimento das energias renováveis, a guerra também está criando novos obstáculos. Os fabricantes de tecnologia limpa sentirão o fechamento do Estreito de Ormuz em suas cadeias de abastecimento. Ingredientes essenciais na produção de metais para energia limpa, como níquel, cobre, cobalto e lítio, são transportados por essa via navegável, assim como as matérias-primas para painéis solares. Espere aumentos de preços e escassez.

O impacto econômico da guerra pode fazer com que os países precisem cortar gastos atualmente destinados a investimentos climáticos, a fim de apoiar seus cidadãos durante uma crise de combustíveis e alimentos.

Se as taxas de juros subirem novamente, como aconteceu em 2022, os projetos eólicos e solares, que exigem grande investimento de capital, podem ficar em risco; um estudo da Smith School, da Universidade de Oxford, constatou que o aumento dos custos de financiamento tem um impacto negativo maior sobre a competitividade de custo das energias renováveis do que sobre os projetos de combustíveis fósseis.

Dito isso, as coisas parecem diferentes do que eram em crises anteriores — atribuo isso a uma mudança em nossa mentalidade.

Como escreveu o ambientalista Bill McKibben no início de abril: “O mundo em nossas mentes mudou, de forma decisiva, na direção da energia renovável proveniente do sol e do vento.” Os combustíveis fósseis costumavam ser considerados confiáveis e baratos — em qualquer clima, a qualquer hora do dia, era possível ligar um motor ou acender um fósforo e obter energia, calor e luz.

Agora, estamos começando a entender que a dependência dos hidrocarbonetos não é mais uma forma confiável de fazer a economia crescer. Recordando o choque energético de 2022, Nic Fulghum, analista de dados sênior da Ember, disse: “As pessoas não querem passar por esses períodos de alta inflação a cada quatro anos.”

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As pesquisas confirmam isso. Uma pesquisa realizada em março pela Cluster17 para a POLITICO revelou que as pessoas apoiam de forma esmagadora a transição para as energias renováveis, com 39% afirmando que a Europa deveria acelerar a transição mesmo que os custos de energia aumentem no curto prazo. Apenas 17% afirmaram que a UE deveria priorizar o preço em detrimento do impacto ambiental.

Em países sensatos, surgiu repentinamente um enorme interesse político pela energia limpa. No final de março, o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, anunciou em um discurso que o “futuro do país estaria em sério risco” se continuasse dependendo de combustíveis fósseis. O governo deu continuidade a isso uma semana depois com uma implantação acelerada de energias renováveis, que prevê que um dos maiores importadores mundiais de petróleo, gás natural e carvão implante 100 GW de energia limpa até 2030.

Em agosto, a Indonésia anunciou que construiria 100 GW de energia solar. Em abril, o presidente Prabowo Subianto pediu que a execução do programa fosse acelerada, com o objetivo de reduzir a energia gerada a diesel em 10 GW este ano.

Em um discurso na semana passada, Ed Miliband, secretário de segurança energética e emissões líquidas zero do Reino Unido, declarou: “A era da segurança dos combustíveis fósseis chegou ao fim, e a era da segurança da energia limpa deve amadurecer.” Ele está certo.

Esta coluna reflete as opiniões pessoais do autor e não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Lara Williams é colunista da Bloomberg Opinion e escreve sobre mudanças climáticas.

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