Bloomberg Línea — O consumo das famílias brasileiras se mantém pressionado, apesar de um avanço da renda, impulsionado por um mercado de trabalho resiliente.
Em 2025, por exemplo, a chamada renda bruta disponível cresceu 4,7%, mas o consumo avançou apenas 1,3%, um dos maiores desvios em relação à média da série histórica, de acordo com um relatório da equipe de pesquisa econômica do Itaú.
Historicamente, o consumo cresce cerca de 70% do ritmo da renda. No ano passado, ficou muito aquém disso.
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Para este ano, a expectativa é de que esta tendência se mantenha. Economistas do Itaú projetam um crescimento de 1,4% do consumo das famílias em 2026, ante um avanço esperado de 3,6% na renda disponível.
De acordo com o estudo, publicado na quinta-feira (7), os economistas do banco apontam algumas razões para explicar por que o avanço do consumo segue limitado mesmo com o crescimento da renda.
A resposta, segundo o banco, passa pelo canal do crédito, com a desaceleração das concessões de empréstimos para pessoas físicas.
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As concessões nas linhas de consignado, empréstimo pessoal não consignado e veículos — o que o banco chama de “crédito Core PF” — passaram de crescimento de 20,6% em 2024 para apenas 1,8% em 2025.
O desempenho, no entanto, foi desigual entre os produtos: o consignado privado explodiu, com alta de 168,9%, após mudanças regulatórias que ampliaram a concorrência nesse segmento. O crédito pessoal não consignado cresceu 9,3%. Já o financiamento de veículos praticamente parou, com avanço de apenas 0,6%.
“Quando o crescimento da renda não é acompanhado por condições de crédito compatíveis, o consumo reage de forma mais contida, refletindo restrições financeiras, custo do crédito e maior seletividade na tomada de empréstimos”, escrevem os economistas Rodrigo Tolentino, Natalia Cotarelli e Marina Garrido, autores do estudo.
Com base em modelos econométricos, o Itaú estima que uma queda de 1 ponto percentual nas concessões de crédito reduz o consumo em aproximadamente 0,8 ponto percentual, com o efeito máximo ocorrendo cerca de seis meses depois.
Essa dinâmica fica visível quando se olha para as categorias de consumo separadamente.
Bens mais dependentes de crédito — como móveis, eletrodomésticos, veículos e material de construção — apresentaram desempenho persistentemente mais fraco do que itens cuja demanda responde mais diretamente à renda, como alimentos, combustíveis, farmácia e vestuário.
“Itens mais dependentes de crédito vêm apresentando desempenho persistentemente mais fraco do que aqueles cuja demanda responde mais diretamente à evolução da renda”, escrevem os analistas no relatório.
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O segundo canal é o peso crescente dos juros e das parcelas de dívida no orçamento das famílias. Quanto mais renda vai para pagar dívidas, menos sobra para consumir — e o Itaú mostra que, ao descontar esses gastos da renda disponível, a curva resultante se aproxima muito mais do consumo efetivo das famílias.
O indicador que mede esse comprometimento da renda atingiu a máxima histórica de 29,7% em fevereiro de 2026. O banco, porém, pondera que parte expressiva desse avanço se deve ao cartão de crédito parcelado sem juros — modalidade que, em muitos casos, funciona como meio de pagamento, não como endividamento.
Excluindo esse componente, o indicador cai para cerca de 20%, nível elevado, mas abaixo do pico histórico de 2011. Com o mercado de trabalho aquecido — o desemprego está abaixo de 8% —, o efeito negativo sobre o consumo tende a ser menor do que o número bruto sugere.
O que esperar de 2026
Para o ano, o Itaú projeta que o consumo volte a crescer abaixo da renda — padrão que já se repetiu em 2023 e 2025.
A expectativa de renda favorável (alta de 3,6%), apoiada pela resiliência do mercado de trabalho e pela manutenção dos programas de transferência de renda, deve sustentar o consumo e conter a inadimplência, mesmo em um ambiente de crédito mais restritivo.
“O cenário implícito segue sendo o de que, mais uma vez, o consumo deve crescer abaixo da renda, refletindo a presença de condições monetárias ainda restritivas e a defasagem típica do canal de crédito”, escrevem os analistas.
Para o Itaú, as taxas de juros nas linhas de crédito “Core PF” parecem ter atingido o pico, e a expectativa é de redução gradual, mesmo que o ciclo de afrouxamento monetário seja menor do que o esperado anteriormente.
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