Escândalo do Master atinge Ciro Nogueira, antes intocável, e abala elite política

Polícia Federal cumpriu mandados de busca contra o senador em investigação sobre suposta atuação em favor do Banco Master; defesa de Nogueira classifica acusações como ‘ridículas’, enquanto caso amplia riscos políticos para Flávio Bolsonaro e Lula às vésperas da eleição presidencial

Avanço da investigação sobre o Master coloca um dos principais líderes do Centrão sob pressão e preocupa aliados de Flávio Bolsonaro no cenário para 2026
Por Andrew Rosati

Bloomberg — Em um Congresso conhecido pela política intensa e transacional, o senador Ciro Nogueira construiu uma reputação quase intocável graças à habilidade de articular alianças e negociar acordos que o ajudaram a afastar acusações de corrupção ao longo de sua longa carreira. Agora, novas denúncias ameaçam derrubá-lo.

Na quinta-feira, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão contra Nogueira, tornando-o o político eleito de maior destaque a enfrentar suspeitas de irregularidades ligadas ao Banco Master, instituição que está no centro de uma ampla investigação de fraude.

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Investigadores afirmam que Nogueira, que foi ministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, usou sua influência para ajudar o ex-presidente do Master, Daniel Vorcaro, a expandir os negócios do banco em troca de propina.

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O senador nega irregularidades, “especialmente em sua atuação parlamentar”, disseram seus advogados. Ainda assim, o avanço formal das investigações — após meses de escrutínio sobre sua relação com Vorcaro — marca mais um desdobramento dramático no escândalo que já sacode a elite política brasileira às vésperas da eleição presidencial de outubro.

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Revelações sobre as conexões de Vorcaro com altos escalões da política têm pressionado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com adversários tentando canalizar a insatisfação do eleitorado com a corrupção, embora o líder de esquerda não tenha sido diretamente ligado ao Master.

O caso contra Nogueira, um dos principais nomes do campo conservador, passou a representar risco para o candidato de direita Flávio Bolsonaro, filho mais velho de Jair Bolsonaro e principal adversário de Lula na disputa.

Flavio Bolsonaro classificou as acusações como “graves” em nota divulgada na quinta-feira e afirmou apoiar uma investigação rigorosa.

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Nos bastidores, porém, aliados no Congresso manifestam preocupação com possíveis desdobramentos políticos mais amplos da apuração em pleno ano eleitoral, segundo uma pessoa familiarizada com o tema que pediu anonimato.

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“É um movimento que obriga todos os principais atores a recalcular suas estratégias no tabuleiro de 2026”, disse Marcio Coimbra, presidente da consultoria Casa Politica. “Nogueira é a principal ponte entre a base conservadora e a engrenagem pragmática do Legislativo.”

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Operador do Congresso

Ao longo de três décadas em Brasília, Nogueira se destacou pela habilidade de construir alianças em um Legislativo fragmentado.

Herdeiro de uma família abastada do estado do Piauí, o senador de 57 anos seguiu os passos do pai na política, exerceu quatro mandatos como deputado e foi eleito para o Senado em 2010.

Hoje, preside o Progressistas, partido de centro-direita, e é um dos principais nomes do Centrão — bloco de perfil ideológico flexível historicamente associado à política de negociação em Brasília.

Suas alianças mudaram com frequência: após apoiar a ex-presidente Dilma Rousseff, afilhada política de Lula, votou a favor do impeachment em 2016.

Em 2018, apoiou alternativas mais moderadas a Jair Bolsonaro antes de integrar seu governo. Desde então, mantém proximidade com o ex-presidente e sua influente família.

(Foto: Andressa Anholete/Bloomberg)

A Polícia Federal afirma que ele usou essa influência para beneficiar Vorcaro — preso desde sua segunda detenção em março — em troca de “vantagens econômicas indevidas”, segundo documentos judiciais divulgados na quinta-feira.

De acordo com as autoridades, Nogueira recebeu pagamentos mensais recorrentes de até R$ 500 mil do banqueiro, além de benefícios como o uso de imóvel de alto padrão, viagens internacionais, hospedagens e voos em jatos privados.

Os investigadores também afirmam que funcionários do Master redigiram uma emenda proposta por Nogueira em 2024 que quadruplicaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para R$ 1 milhão — uma mudança constitucional amplamente vista como voltada a beneficiar o banco, que ficou conhecida como “emenda Master”.

A proposta, que não foi aprovada, teria multiplicado por seis os negócios do banco, criando risco de uma “verdadeira catástrofe no mercado”, segundo documentos judiciais.

Vorcaro descreveu Nogueira como “um grande amigo” em mensagens de texto reveladas anteriormente na investigação, embora o senador minimize a relação.

Procurado na sexta-feira, o advogado de Nogueira classificou como “ridícula” a acusação de pagamentos e disse esperar que as autoridades levantem o sigilo bancário “para provar que o senador não recebeu qualquer valor”. Segundo ele, Nogueira nunca fez viagens custeadas por Vorcaro ou pelo Master.

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Em publicação nas redes sociais, o senador afirmou que o caso é uma tentativa politicamente motivada de “manchar minha honra pessoal”, classificando-o como um “ataque malicioso e sem fundamento”.

Riscos para Bolsonaro

Nogueira já enfrentou acusações de corrupção anteriormente e saiu ileso. Em 2020, foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República por supostamente receber R$ 7,3 milhões em pagamentos ilegais da construtora Odebrecht — hoje Novonor —, no centro da Operação Lava Jato.

O senador negou as acusações. O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, mas não resultou em condenação.

Os riscos do caso Master, porém, vão além do parlamentar, cujo gosto por luxo frequentemente desperta curiosidade em Brasília.

(Foto: Arthur Menescal/Bloomberg)

O escândalo já levou à prisão de funcionários do Banco Central e colocou o Supremo Tribunal Federal sob escrutínio por aparentes vínculos entre ministros e Vorcaro.

Isso contribuiu para desgastar a popularidade de Lula antes da eleição, em meio à percepção de que o presidente — que chegou a ser preso por condenações por corrupção posteriormente anuladas — mantém proximidade com a Corte.

A ligação de Nogueira com o banqueiro pode ser ainda mais direta, enquanto suas conexões com a família Bolsonaro são mais profundas do que as de Lula com o Judiciário.

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No ano passado, Flávio Bolsonaro afirmou que Nogueira tinha “bom perfil” como possível vice-presidente antes de lançar sua candidatura. O presidenciável de 45 anos já enfrentou acusações de irregularidades no passado, ligadas a um suposto esquema de desvio de recursos em seu gabinete quando era deputado estadual no Rio de Janeiro.

Bolsonaro negou irregularidades, e o caso acabou arquivado.

Com a corrupção entre as principais preocupações dos brasileiros, o imbróglio “pode criar obstáculos para que ele conquiste eleitores de centro ou indecisos, o que tende a ser decisivo em uma disputa potencialmente apertada”, disse Mario Braga, analista geopolítico da consultoria RANE.

A velocidade com que o caso Master avança sobre a política brasileira também levanta dúvidas sobre se ele pode, no fim, abalar o próprio sistema que Nogueira representa.

“O ponto central não é apenas se ele será julgado”, disse Coimbra. “É saber se isso marca o fim de uma era em que um líder partidário podia agir como um soberano informal, protegido pelo peso dos votos que controla no Senado.”

--Com a ajuda de Daniel Carvalho.

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