Não é só no Brasil: CEOs alertam para impacto das apostas online no consumo na África

‘As pessoas estão colocando dinheiro em um buraco negro que poderia ser gasto com comida’, disse Pieter Engelbrecht, CEO da Shoprite Holdings, a maior rede de supermercados da África; receita do setor de apostas na África deve superar US$ 13 bilhões neste ano

Nos últimos anos, a taxa de inadimplência entre apostadores na África do Sul cresceu quatro vezes mais rápido do que entre não apostadores,, segundo dados da Experian e da Vault22 (Foto: Eduardo Leal/Bloomberg)
Por Loni Prinsloo - Rivaldo Jantjies - Mpho Hlakudi

Bloomberg — O crescimento das apostas online na África tem reduzido a renda que normalmente seria destinada a supermercados, entretenimento e contas de celular.

Enquanto isso, os líderes das maiores empresas do continente alertam para os danos que essa tendência causa aos orçamentos familiares.

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“As pessoas estão colocando dinheiro em um buraco negro que poderia ser gasto com comida”, disse Pieter Engelbrecht, CEO da Shoprite Holdings, a maior rede de supermercados da África.

As apostas online se expandiram rapidamente pelo continente, com a receita bruta do setor projetada para alcançar US$ 13,5 bilhões neste ano, mais que o dobro do nível de 2023, segundo dados da H2 Gambling Capital.

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Impulsionadas por uma população jovem e em rápido crescimento, pelo aumento do uso de smartphones e pela regulação permissiva, as empresas de apostas atraem usuários em ritmo acelerado, deixando seus clientes com menos dinheiro para gastar em outros itens discricionários.

O gasto bruto com jogos de azar mais que dobrou desde 2023 (Fonte: H2)

O Tesouro da África do Sul classificou o fenômeno como uma “importante preocupação de política pública” que pode exigir intervenção do governo por meio de mais regulação e tributação, disse um porta-voz à Bloomberg.

À medida que os gastos com apostas online aumentam, cresce também o estresse financeiro entre os usuários mais frequentes. A parcela média da renda destinada a apostas dobrou para 2% entre 2021 e 2025, segundo pesquisa do Standard Bank, o maior banco da África, compartilhada com a Bloomberg News. Os gastos são bastante desiguais: cerca de 7% das pessoas gastam mais de 100% da própria renda com apostas, recorrendo a crédito e outras fontes complementares, segundo o estudo.

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Na África do Sul, maior economia do continente, os gastos com apostas aumentaram cerca de 50% ao ano nos últimos três anos, mesmo com a desaceleração do consumo em geral, de acordo com dados do banco Absa. O avanço das apostas vem acompanhado do aumento do endividamento e da inadimplência.

O CEO do Absa, Kenny Fihla, disse que as tendências de apostas são um “grande indicador” de inadimplência nos empréstimos. “Quanto mais os clientes se endividam, mais eles apostam e maior fica o buraco”, afirmou durante teleconferência de resultados no mês passado.

“Esse é um problema enorme e, francamente, estamos preocupados”, disse ele.

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Nos últimos anos, a taxa de inadimplência entre apostadores na África do Sul cresceu quatro vezes mais rápido do que entre não apostadores, avançando 2% ao mês, segundo dados publicados no ano passado pela Experian e pelo aplicativo financeiro Vault22.

As apostas se tornaram a 12ª maior categoria do índice de preços ao consumidor do país, logo atrás da cerveja. Atualmente, representam mais da metade (54,5%) dos gastos com lazer, como esportes, cinema e academias, segundo a agência estatal de estatísticas.

(Fonte: Experian/ Vault22/ Bloomberg)

O fenômeno afeta até as operadoras de telefonia móvel, segundo a MTN Group, maior empresa de telecomunicações sem fio da África. A companhia afirmou que o crescimento “moderado” do segmento pré-pago na África do Sul foi “agravado pela parcela crescente da renda disponível destinada às apostas online”, segundo seu relatório anual de 2025, publicado no mês passado.

Marcas de moda também sentem o impacto do avanço das apostas, segundo o CEO do grupo varejista Woolworths Holdings Ltd. “Como as apostas disputam o orçamento discricionário do consumidor, há áreas do nosso negócio mais vulneráveis”, disse Roy Bagattini à Bloomberg News.

“As pessoas torram seus salários em apostas online antes de pagar aluguel, mensalidade escolar e transporte”, afirmou Oscar Bishop, ex-viciado em jogos e atual embaixador da South African Responsible Gambling Foundation. “A pandemia das apostas online saiu completamente do controle.”

(Foto: Rivaldo Jantjies/Bloomberg)

No auge do vício, Bishop disse que comprava “cada vez menos comida a cada mês” e inventava desculpas para a família, alegando que precisava consertar o carro.

Bishop defendeu mais regulação, proibição de publicidade e limites para o valor que cada pessoa pode gastar com apostas por mês. As apostas online são reguladas principalmente em nível provincial, embora muitos cassinos offshore operem direcionados ao público sul-africano sem licença.

As empresas do setor aproveitam o aumento da demanda. A Super Group, listada em Nova York e dona das marcas Betway e Spin, deixou o mercado dos EUA para concentrar esforços em mercados de crescimento mais acelerado na África.

Leia também: Um bilionário contra as bets: empresário alerta para vício e pede regulação nos EUA

A receita da companhia no continente cresceu 27% em 2025, puxada principalmente pela África do Sul. O ritmo segue forte: a Virgin Bet entrou no mercado em março e o número de licenças de apostas esportivas subiu para 400, alta de 40% em relação ao ano fiscal de 2020/2021, segundo o Ministério do Comércio.

Super Group e Virgin Bet se recusaram a comentar.

Ulrik Bengtsson, CEO da operadora Sunbet e da Sun International, afirmou que, embora os gastos familiares com apostas tenham aumentado, eles ainda permanecem baixos em relação às despesas com bens e serviços essenciais.

Uma indústria licenciada e que paga impostos é “a solução para a proteção do consumidor, e não o problema”, disse ele, ao contrastar sua empresa com as “milhares de plataformas offshore que já miram consumidores sul-africanos fora de qualquer alcance regulatório”.

A Sun International ajudou a fundar uma entidade do setor voltada a operadores licenciados para apoiar o desenvolvimento de uma regulação mais eficiente para apostas.

Em novembro, o Tesouro da África do Sul abriu uma consulta pública para discutir como um imposto sobre apostas online poderia ajudar a compensar parte dos custos sociais associados ao vício em jogos, “incluindo estresse financeiro, perda de produtividade, dificuldades familiares e impactos negativos sobre a saúde mental”, disse um porta-voz à Bloomberg.

As contribuições recebidas na consulta pública serão debatidas em um workshop e ajudarão a moldar um projeto de legislação nacional sobre o imposto proposto ainda neste ano, acrescentou o porta-voz.

As tentativas de atualizar a legislação sobre jogos de azar, criada em 2004, para adaptá-la à era digital têm fracassado repetidamente, segundo Toby Chance, parlamentar da Aliança Democrática.

“Faltou vontade política”, afirmou, acrescentando que o país está sendo “roubado” por operadores ilegais que não pagam sua parte justa de impostos.

--Com a ajuda de Prinesha Naidoo, Adelaide Changole e Ntando Thukwana.

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