Durigan diz que guerra pode forçar BCs a agir: ‘os riscos vão muito além do Brasil’

Ministro da Fazenda que sucedeu Haddad disse em entrevista à Bloomberg News que conflito pode elevar inflação global e limitar cortes de juros

Ministro assumiu comando da pasta no mês passado, após Fernando Haddad ter deixado o cargo para concorrer ao governo de São Paulo
Por Martha Beck - Vinícius Andrade

Bloomberg — O novo ministro da Fazenda do Brasil advertiu que uma guerra prolongada no Irã poderia forçar os bancos centrais de todo o mundo a agir para conter a inflação, complicando os esforços para apoiar o crescimento econômico.

Como a incerteza em torno do conflito no Oriente Médio persiste, os investidores estão cada vez mais descartando uma guerra de curta duração, disse Dario Durigan em uma entrevista à Bloomberg News à margem das reuniões do FMI e do Banco Mundial em Washington. Por enquanto, os dirigentes estão agindo com cautela para evitar a ampliação da volatilidade.

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“Se essa guerra se prolongar, os bancos centrais precisarão reagir”, disse ele, acrescentando que os riscos vão muito além do Brasil.

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No Brasil, o banco central deu início a um ciclo de flexibilização há muito esperado em março, realizando um corte modesto de um quarto de ponto na taxa básica de juros e alertando que outras reduções dependerão do impacto da guerra sobre a inflação.

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A medida, que deixou a Selic em 14,75%, atraiu reclamações do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seus aliados, que estão preocupados com as perspectivas de reeleição do líder esquerdista neste ano.

Durigan, 41 anos, assumiu o comando da política econômica do Brasil no mês passado, quando Fernando Haddad deixou o cargo para concorrer ao governo de São Paulo. Sua nomeação sinaliza a continuidade das políticas fiscais e econômicas do Brasil.

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Ele agora enfrenta o desafio de preservar a credibilidade fiscal e, ao mesmo tempo, lidar com as crescentes pressões eleitorais.

Durigan coordenou medidas para amortecer o impacto do conflito sobre os preços dos combustíveis, incluindo cortes de impostos e subsídios que totalizam mais de 30 bilhões de reais (US$ 6 bilhões), parte dos quais não se enquadra nas regras fiscais do Brasil.

Ele também está supervisionando um novo programa de renegociação de dívidas para famílias e empresas, à medida que Lula procura lidar com o aumento do endividamento - que atingiu 49,7% da renda familiar em janeiro - e reforçar o apoio público.

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Durigan disse que a incerteza em torno da eleição de outubro no Brasil pode estar alimentando as expectativas de inflação, mas argumentou que o histórico de Lula, incluindo a política fiscal, está bem estabelecido. Por outro lado, disse ele, a oposição ainda não apresentou um plano econômico consistente.

“Acho que ainda há alguma incerteza sobre o cenário eleitoral, o que pode estar causando alguma volatilidade, mas, além disso, também não consigo identificar outros motivos” para o aumento das expectativas de inflação de longo prazo.

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Ele atribuiu o recente aumento do ônus da dívida do Brasil, em grande parte, à política monetária, ao mesmo tempo em que afirmou que o governo tem cumprido o prometido na área fiscal.

Durigan disse que é improvável que o dólar americano perca seu papel central nas finanças globais, enquanto os esforços do Brasil para explorar mercados alternativos - incluindo uma venda planejada de títulos denominados em euros - têm como objetivo construir curvas de rendimento de referência e avançar na internacionalização de sua dívida pública.

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