Bloomberg Línea — A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de cortar a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,50% ao ano, foi recebida pelos economistas das principais instituições financeiras como um sinal de que o ciclo de afrouxamento monetário deve ser mais gradual e mais curto do que se antecipava antes da reunião.
O tom do comunicado foi lido por parte dos economistas como mais duro (hawkish) do que o de março, com o Banco Central reconhecendo que a inflação e os núcleos aceleraram e se distanciaram adicionalmente da meta.
A piora das projeções de inflação foi interpretada pela maioria das casas como um sinal de que o espaço para cortes está se estreitando. A projeção do Copom para o horizonte relevante (quarto trimestre de 2027) subiu de 3,3% para 3,5%.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
O principal elemento que concentrou a atenção dos analistas foi a adição de uma palavra ao comunicado. Ao tratar dos próximos passos da política monetária, o Copom incluiu o termo “extensão” ao lado de “ritmo” — sinalizando que não apenas a velocidade dos cortes, mas o tamanho total do ciclo pode ser ajustado.
“... O período prolongado de manutenção da taxa básica de juros em patamar contracionista propiciou evidências da transmissão da política monetária sobre a desaceleração da atividade econômica, criando condições para que ajustes no ritmo e extensão dessa calibração, à luz de novas informações, sejam possíveis de forma a assegurar o nível compatível com a convergência da inflação à meta.”
Comunicado do Copom
A mudança apareceu primeiro na versão em português e depois foi incorporada à versão em inglês. Para UBS BB e Goldman Sachs, essa foi a principal inovação do comunicado. O ASA também destacou a mudança como a alteração mais relevante de linguagem.
Leia também: Copom reduz Selic para 14,50% e sinaliza ‘cautela e serenidade’ diante de incerteza
A alteração ocorre no momento em que a guerra no Irã segue pressionando os preços do petróleo e elevando a incerteza sobre a trajetória da inflação global. Na visão do PicPay, o Copom passou a tratar o conflito de forma mais estrutural, avaliando seus efeitos sobre cadeias produtivas e preços de commodities.
Cortes de 0,25 ponto
Com esse quadro, o consenso entre as principais casas aponta para um novo corte de 0,25 ponto percentual em junho como cenário-base, sem sinalização de aceleração.
O Bradesco avalia que a maior probabilidade é de manutenção desse ritmo, condicionado a um recuo dos preços do petróleo ao longo do ano. O Bank of America (BofA) e o Citi convergem para a mesma direção, ambos projetando cortes de 25 pontos-base nas próximas reuniões até que a Selic atinja 13,25% no final de 2026 — embora o Citi alerte que os riscos são assimétricos em direção a um ciclo ainda mais curto.
O Goldman Sachs destacou que a revisão das projeções de inflação veio acima do esperado, com a projeção para 2026 subindo 70 pontos-base, para 4,6%, e que a deterioração vai além dos preços administrados, afetando também os preços livres. O banco mantém a Selic em 13,25% no final de 2026, mas reconhece riscos altistas para essa estimativa.
O UBS BB revisou formalmente seu cenário-base, abandonando a expectativa de cortes de 50 pontos-base em junho e agosto e passando a trabalhar com 25 pontos-base em cada uma dessas reuniões.
O Itaú, que antes da reunião inclinava-se para uma aceleração do ritmo de cortes, recuou dessa posição após o comunicado. O banco agora espera um novo corte de 0,25 ponto em junho, e revisou de 13,00% para 13,25% o nível da Selic no final do ciclo de cortes em 2026.
Leia também: Espaço para corte da Selic já está perto do fim, segundo Gustavo Loyola
A XP mantém, por ora, a expectativa de cortes de 50 pontos-base em junho e agosto, condicionados ao recuo do petróleo para a faixa de US$ 80 a US$ 90 por barril, seguidos de uma pausa no período eleitoral — o que levaria a Selic a 13,50% no final de 2026. Ainda assim, a própria XP reconhece que um ciclo menor ou mais lento está se tornando cada vez mais provável diante da deterioração do cenário inflacionário.
O que disseram os economistas
Fernando Honorato Barbosa – Bradesco
“Entendemos que a maior probabilidade é de um novo corte de 25 pontos-base na próxima reunião do Copom. Nosso cenário, que pressupõe recuo dos preços de petróleo ao longo do ano, é compatível com continuidade do ciclo.”
Mario Mesquita – Itaú
“O comunicado menciona que a extensão do ciclo será avaliada à luz das informações que vierem a ser divulgadas. Isso é sempre o caso, mas quando as autoridades enfatizam esse ponto, há um indício de certo desconforto com as expectativas atuais para a taxa terminal de juros.”
Leonardo Porto – Citi
“Os riscos são claramente assimétricos em direção a um ciclo de cortes ainda mais curto, especialmente se as condições atuais prevalecerem nos próximos meses.”
Alberto Ramos – Goldman Sachs
“A referência à ‘extensão’ do ciclo de normalização da taxa foi uma inovação ao comunicado que, em nossa avaliação, aponta para o potencial de um ciclo de normalização mais curto.”
David Beker – Bank of America
“O tom mais cauteloso sinaliza que tanto o ritmo quanto a extensão total do ciclo de afrouxamento dependem dos dados.”
Alexandre de Azara – UBS BB
“A menos que vejamos uma queda sustentada nos preços do petróleo — como o Brent recuando abaixo de US$ 90 por barril por cerca de um mês —, esperamos que o Copom continue com esse ritmo mais lento.”
Caio Megale – XP
“Uma calibração menor ou mais lenta está se tornando cada vez mais provável, pois acreditamos que o cenário de inflação pode se deteriorar ainda mais à frente.”
Leonardo Costa – ASA
“Na prática, o BC segue dependente de dados e deve manter o ritmo de 25bps por reunião, com a possibilidade de encerrar o ciclo mais cedo do que o mercado espera caso o cenário externo ou a inflação piorem.”
Ariane Benedito – PicPay
“A Selic terminal dependerá de dois gatilhos que o BCB deixou explícitos: ancoragem das expectativas e resolução do cenário geopolítico.”
Ian Lima – Inter Asset
“O plano de voo indica uma recalibração gradual, com o objetivo de ganhar tempo e ajustar o ritmo de flexibilização monetária conforme evoluam as informações sobre os conflitos no Oriente Médio e seus possíveis efeitos secundários decorrentes das restrições na oferta de petróleo.”
Leia também
Diogo Guillen, ex-diretor do Banco Central, será novo economista-chefe do Itaú
Goldman eleva projeção da Selic para 13,25% em 2026 diante do choque do petróleo









