Bloomberg — Arminio Fraga, um dos mais famosos investidores em fundos hedge do Brasil, divulgou no início deste mês que estava transferindo seus fundos para o quarto maior banco do país.
As taxas de juros de dois dígitos do Brasil simplesmente geram um retorno alto demais atualmente para atrair clientes suficientes a ponto de manter um fundo como o dele em operação por mais tempo, admitiu ele.
Ao vender seus fundos para a unidade de gestão de ativos do Banco Bradesco, Fraga, discípulo de George Soros e ex-presidente do Banco Central, indicou uma tendência que vem ganhando força recentemente no Brasil: Gestores de fundos hedge, especialmente aqueles que fazem grandes apostas macroeconômicas, estão fechando suas empresas independentes e, em muitos casos, procurando bancos para que contratem suas equipes e assumam o controle de seus fundos.
“Estamos passando por uma desaceleração cíclica dos fundos hedge, com taxas de juros extremamente altas e uma concorrência muito forte de produtos que contam com vantagens fiscais”, afirmou Fraga, que abriu sua empresa, a Gavea Investimentos, no Rio de Janeiro há duas décadas, em entrevista à Bloomberg News.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
“Os fundos hedge, em geral, não têm apresentado bom desempenho recentemente.”

A Itaú Asset Management contratou no mês passado Luiz Eduardo Portella, um dos fundadores da Novus Capital, para formar uma equipe de investimentos em fundos hedge.
A Itaú Asset também informou, em junho, que estava incorporando a Solana Capital, empresa de gestão de ações, e nomeou Eduardo Zilberman, ex-funcionário do fundo de hedge SPX Capital, como chefe de pesquisa econômica no início deste ano.
Tudo isso faz parte de uma reviravolta impressionante no êxodo que começou há cerca de uma década, quando dezenas de gestores de recursos deixaram os principais bancos brasileiros para abrir ou ingressar em novos fundos hedge ou gestoras de ações.
Leia também: Gávea, de Armínio Fraga, fecha multimercados e transfere fundos para Bradesco Asset
Naquela época, o país vinha reduzindo sua taxa de referência, notoriamente alta — chegando, por fim, a um mínimo histórico de 2% durante a pandemia —, o que forçou a comunidade de investidores local a buscar alternativas aos retornos fáceis que vinham obtendo há anos simplesmente por deter títulos da dívida pública. Fundos hedge recém-criados, que prometiam retornos elevados em ações locais, futuros de taxas de juros, títulos corporativos e mercados internacionais, preencheram grande parte desse vazio.
“Abrir uma gestora de ativos costumava ser ‘três amigos e um terminal’”, disse Guilherme Zaczac, chefe de alternativas líquidas para o Brasil na UBS Global Wealth Management, em São Paulo. “Mas não é assim que esse negócio funciona. É preciso haver rigor; não deveria ser tão fácil abrir uma gestora de ativos.”
A bonança não durou muito. À medida que o Banco Central elevou as taxas de juros de volta a níveis de dois dígitos em 2022 para conter a inflação impulsionada pela pandemia, os investidores começaram a evitar riscos, preferindo produtos de renda fixa.

Os fundos hedge foram afetados como resultado — especialmente aqueles que não podiam contar com o apoio ou a base de clientes de um grande banco. Com ferramentas de investimento mais baratas, como os fundos negociados em bolsa, ganhando popularidade e as taxas agora estagnadas acima de 10% pelo quarto ano consecutivo, a pressão só vem aumentando.
Os ativos combinados detidos por sete dos maiores fundos hedge independentes do Brasil em suas estratégias macro no mercado interno caíram quase pela metade desde 2022, para cerca de 89 bilhões de reais (US$ 17 bilhões), de acordo com dados da Anbima, a associação nacional de mercados de capitais.
Leia também: Gávea, de Armínio Fraga, fecha multimercados e transfere fundos para Bradesco Asset
O número de fundos macro diminuiu cerca de 20% desde seu pico em 2021, chegando a 743 em julho.
De maneira mais ampla, o setor de fundos hedge do Brasil está a caminho de registrar o quinto ano consecutivo de saídas de recursos, com retiradas totalizando 672 bilhões de reais desde 2022, segundo os dados.

Ao mesmo tempo, as unidades de gestão de fundos das grandes instituições financeiras brasileiras mostraram-se mais resilientes.
O montante combinado de recursos sob gestão em fundos macro que fazem parte dessas grandes empresas quase dobrou desde 2019, chegando a 542 bilhões de reais em junho, de acordo com dados compilados pela Bloomberg que acompanham as seis maiores empresas.
“Essa solução é importante da perspectiva dos grandes bancos para atrair executivos que não conseguem construir um negócio por conta própria”, afirmou Pedro Rudge, diretor da Anbima e um dos fundadores do fundo Leblon Equities, com sede no Rio de Janeiro.
Leia também: SPX vê saída de dois gestores e trader em escritório na Ásia
Os gestores que fazem parte de empresas maiores “não têm custos de back-office nem de conformidade, e ainda mantêm autonomia para conduzir a estratégia do fundo”.
Além dos retornos medíocres, que ficaram aquém da taxa interbancária de referência, conhecida como CDI, nos últimos anos, os fundos hedge também têm sofrido com a concorrência dos títulos corporativos isentos de impostos no Brasil, que têm atraído tanto investidores institucionais quanto de varejo.

No início deste ano, as perspectivas pareciam estar melhorando para o setor local de fundos hedge. Investidores internacionais estavam injetando dinheiro nas ações do país, e as apostas de que o Banco Central teria espaço para reduzir as taxas deixaram muitos otimistas.
Então, o choque do petróleo provocado pela guerra no Irã subverteu as apostas em cortes de taxas em todo o mundo e desferiu um duro golpe nos fundos hedge locais. Março foi o pior mês para eles desde 2020, segundo dados da Anbima.
Os operadores agora esperam que o Banco Central do Brasil mantenha a taxa de referência acima de 13% pelo menos até o final do próximo ano.
Leia também: Saída recorde de hedge funds pressiona ações de tecnologia e acende alerta, diz Goldman
Para Fraga, essas taxas altíssimas revelam um problema muito maior para o país e, consequentemente, para o setor de fundos hedge: um governo que está tomando emprestadas quantias enormes de dinheiro nos mercados de dívida locais para financiar um déficit orçamentário cuja magnitude explodiu nos últimos anos.
“Os sinais que vêm dessa frente não são meramente cíclicos”, afirmou Fraga, que foi recentemente indicado pelo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, como consultor externo.
“O governo toma empréstimos e está pagando taxas de juros extremamente altas por longos períodos. Portanto, o problema aqui é mais profundo e mais preocupante.”
Veja mais em bloomberg.com
©2026 Bloomberg L.P.








