Bloomberg — Guilherme Benchimol, fundador e presidente executivo do conselho da XP, faz um alerta: um ajuste fiscal é necessário para que o país consiga reduzir os juros e criar um ambiente de investimentos sustentável.
Um dos maiores empreendedores do Brasil afirma que não há atalho — um reequilíbrio relevante das contas públicas é pré-condição para atração de mais investimentos ao país e para o desenvolvimento de um mercado de investimentos com menor dependência de aplicações atreladas ao CDI e maior participação em ativos de risco.
“A gente tem que fazer algum tipo de ajuste na economia, independente de quem for o presidente. Tem que acontecer, não há outro caminho,” disse Benchimol, em entrevista à Bloomberg News em São Paulo, no sábado (25).
“Em qualquer lugar do mundo, investir é alongar, é diversificar, é assumir alguns riscos. No Brasil, você ganha dinheiro comprando título isento com liquidez diária com alto retorno em curto prazo. Tem uma inversão de valores, isso não é sustentável. Em algum momento, isso vai dar confusão.”
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Uma melhora nas condições macroeconômicas também traria mais impulso para os planos de expansão da empresa, que busca dobrar sua participação de mercado para 22% e liderar o setor de investimentos do Brasil até 2033.
Uma das maiores plataformas de investimentos da América Latina, a XP atende cerca de 5 milhões de clientes, que possuem cerca de R$ 1,5 trilhão em ativos sob custódia.
As contas públicas continuam sendo um dos principais desafios da economia brasileira. O país perdeu o grau de investimento em 2015, em grande parte devido ao aumento dos déficits fiscais. Desde então, sucessivos governos têm encontrado dificuldades para recompor as contas do governo e restabelecer a credibilidade da política fiscal.
A maior corretora do Brasil compete com os grandes bancos brasileiros e, diante das altas taxas de juros, enfrenta a redução do apetite do brasileiro por tomar algum tipo de risco em seus investimentos, segundo Benchimol. “As pessoas ficam curto-prazistas”, disse. “Nesses últimos quatro anos foi realmente mais difícil.”
Leia também: Benchimol, Street e Vélez se unem para destravar crescimento de PMEs brasileiras
A taxa Selic, atualmente em 14,25%, segue perto do patamar mais elevado em quase duas décadas. Embora o Banco Central tenha iniciado um ciclo de cortes, o avanço da flexibilização monetária tem sido limitado por um ambiente de forte estímulo fiscal às vésperas das eleições de outubro e pela pressão inflacionária decorrente da alta dos preços de energia em meio ao conflito entre EUA e Irã.
Caso Master
Sobre o escândalo bancário que abalou o setor financeiro brasileiro e está assombrando os principais candidatos à presidência do país, Benchimol afirmou tratar-se de uma fraude que “enganou a todos” e envolveu diferentes poderes do governo. Para ele, a lição para todo o mercado é aprimorar a governança para evitar que uma crise semelhante volte a acontecer.
Antes do colapso do Banco Master, a XP e outras plataformas de investimentos venderam títulos emitidos pelo banco a seus clientes.
Leia também: Benchimol: times mais próximos ficam mais atentos aos detalhes, que fazem a diferença
“Realmente não dá para que uma coisa dessa tão grande não seja pega antes. Porque todo mundo foi enganado,” disse. “Contra fraude, ficam aprendizados que vão desde o regulador até o distribuidor. É sobre como que você redobra nível de governança para que você possa evitar que o sistema não possa ser enganado novamente.”
Planos de expansão
Inspirada pelo modelo da gestora americana Charles Schwab, a XP trouxe ao Brasil uma proposta de plataforma aberta de investimentos, com produtos de múltiplas instituições para diversos perfis de clientes.
Com valor de mercado de cerca de US$ 9 bilhões na Nasdaq, a companhia hoje abriga uma rede formada por mais de 18 mil assessores de investimentos e cerca de 500 escritórios independentes.
A estratégia de liderar o mercado de investimentos do Brasil via crescimento dos ativos sob custódia envolve democratizar serviços de planejamento financeiro tradicionalmente restritos a clientes de alta renda, utilizando inclusive ferramentas de inteligência artificial.
O plano de crescimento inclui ainda aprimoramentos no banco e o desenvolvimento de uma conta corrente mais robusta, segundo Benchimol.
Leia também: Vamos ser duros com assessores para melhorar a qualidade do serviço, diz Benchimol
Nos últimos anos, a XP diversificou seu modelo de negócios, expandindo-se para corporate banking e soluções de crédito. A empresa ampliou ainda a atuação nos segmentos de companhias de pequeno e médio porte.
A XP responde por apenas cerca de 1,5% da receita total gerada pelo setor financeiro brasileiro, o que, na avaliação do executivo, revela um espaço para ganhar participação de mercado nos próximos anos. “A gente está só começando”, disse.
O lucro líquido ajustado da XP no primeiro trimestre subiu 7%, para R$ 1,32 bilhão. Segundo analistas, os resultados mais recentes indicam que a base de clientes continua crescendo, embora em um ritmo mais moderado. A captação líquida somou R$ 14 bilhões, recuo de 39% frente ao primeiro trimestre do ano passado.
Ajuste
Benchimol não quis comentar suas expectativas para as eleições, mas afirmou ter convicção de que o Brasil terá suas contas públicas “arrumadas mais cedo ou mais tarde”.
“Não tem país que gera déficits públicos consistentemente no tempo. O que acontece com ele? Quebra. Então ele vai ter uma escalada na inflação descontrolada e isso faz com que as pessoas mais pobres percam. Ninguém tem interesse que isso aconteça”, afirmou.
A necessidade de controle das contas públicas é reconhecida pelos principais candidatos à presidência, mas as propostas para enfrentar o problema ainda carecem de definição, segundo participantes de mercado e especialistas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, tem priorizado medidas de estímulo ao crescimento e à renda, enquanto o senador Flávio Bolsonaro ainda não apresentou seu programa econômico. Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, divulgada na sexta-feira (24), Lula aparece com 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 43% de Flávio Bolsonaro.
“Quando você compara com os outros emergentes do mundo, o Brasil tem uma carga tributária bem mais alta que os seus pares comparáveis, tem endividamento muito mais alto também. Também tem uma população mais endividada. Então a gente tem que fazer algum tipo de ajuste na economia, independente de quem for o presidente”, disse Benchimol.
Veja mais em bloomberg.com
© 2026 Bloomberg L.P.








