Como os carros clássicos viraram tese de investimento desta gestora com R$ 2,2 bi

A Meraki Capital, criada para gerenciar um fundo customizado para a Fundação Lia Maria Aguiar, estuda fundo dedicado a um setor que movimenta cifras bilionárias em compra e venda de automóveis clássicos nos EUA e na Europa

Luiz Goshima

Bloomberg Línea — Um exemplar do Tucker, carro lançado na década de 1940 com uma proposta futurista, seria, por si só, uma raridade, já que apenas 51 unidades foram produzidas no mundo. Mas o Tucker exposto no museu Carde, em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, pertenceu a George Lucas, criador da franquia de filmes Star Wars.

O diretor-executivo do Carde e idealizador do museu, Luiz Goshima, entrou na disputa pelo carro acreditando que não o levaria. “Foi um pouco de sorte”, disse à Bloomberg Línea.

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Goshima conta que este mesmo Tucker já havia sido leiloado em meados de 2015 por US$ 3 milhões (cerca de R$ 15 milhões), mas Goshima conseguiu arrematar o carro com um lance de US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 7,6 milhões). A disputa ocorreu em Monterey, na Califórnia, EUA.

Outros leilões importantes no segmento ocorreram no mesmo dia em que o Tucker foi arrematado e, segundo Goshima, estar presencialmente na disputa fez toda a diferença.

Goshima também é sócio fundador e CEO da Meraki Capital, que hoje possui R$ 2,2 bilhões sob custódia.

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A gestora foi criada com o propósito de gerenciar um fundo customizado para a Fundação Lia Maria Aguiar, que gera rendimentos que financiam as operações da entidade filantrópica da empresária e filha de Amador Aguiar, fundador do Bradesco. Os recursos sustentam, entre outros programas, a manutenção do Carde.


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O museu já promoveu três leilões beneficentes, sendo que o último, no dia 2 de maio, arrecadou R$ 26 milhões, com 50 carros comercializados e R$ 1,2 milhão gerados para a fundação. Foram 789 lances, 43 mil acessos ao site oficial e vendas antecipadas ao pregão.

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Na visão de Goshima, este é apenas um dos sinais de como o mercado de carros antigos, movimento conhecido como Antigomobilismo, tem um grande potencial de crescimento e de investimentos no Brasil. “Há fortes indícios de que a demanda existe. Precisamos apenas trazer isso para o investidor de forma organizada”, diz.

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Para um carro ser leiloado como um clássico em casas como Sotheby’s, Bonhams e Gooding & Company, os critérios são rígidos. Os veículos precisam ter a capacidade de rodar, estrutura de chassis íntegra, documentação original, certificados de propriedade e registros de fábrica, número de série verificável, componentes originais, histórico de propriedade rastreável, entre outros itens.

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museu carde

Devido a essas exigências e a demanda crescente por itens raros, Goshima vê potencial para o antigomobilismo se consolidar como um nicho de investimento no Brasil, como já acontece no exterior.

A RM Sotheby’s, uma das principais casas de leilões do mundo, registrou em 2025 vendas de US$ 1 bilhão no mercado de carros antigos, cifra recorde para a empresa, de acordo com comunicado da companhia.

Ainda recentemente, a casa registrou em um único leilão em Mônaco € 87 milhões em vendas de carros clássicos, o maior faturamento já realizado na Europa, conforme a empresa.

Neste contexto, Goshima, que também é colecionador de obras de arte, acredita que o processo de verificação de carros antigos é totalmente rastreável. Segundo ele, lá fora já existem produtos financeiros lastreados nesse tipo de ativo.

Somente na Europa, as transações anuais de compra e venda de carros clássicos somaram € 45 bilhões em 2024, com um valor total da frota estimado em quase € 800 bilhões no período, segundo comunicado do banco Lombard Odier de dezembro.

A instituição acrescenta que o mercado de carros clássicos europeu se destaca como um importante pilar da gestão de ativos alternativos.

Alguns family offices europeus e americanos já vêm apostando na criação de fundos fechados dedicados a carros antigos. Empresas como a Hagerty Price Guide Index, dos Estados Unidos, são o elo do rastreamento de valor desses ativos, uma vez que coletam dados de apreciação dos carros clássicos.

Mercado em potencial

Os executivos da Meraki estudam como poderiam trazer ao país esse tipo de produto sob a curadoria de Goshima, considerado uma referência neste mercado.

Ele conta que suas primeiras memórias com carros remontam à infância. “Eu queria brincar, mas meu pai me levava para ‘esquentar carros’ em um local próximo à minha casa”, diz. O período era a crise de hiperinflação do Brasil no final da década de 1980, início dos anos 1990, quando o dinheiro perdia valor, literalmente, de um dia para o outro.

O pai de Goshima mantinha alguns carros zero quilômetro como uma estratégia de reserva de valor. Os modelos a etanol daquela geração precisavam ser ligados diariamente ou a cada dois ou três dias para manter o sistema limpo e evitar travamentos. “Minha ligação com carros começou cedo”, relata.

O acervo total do Carde ultrapassa 500 veículos, sendo alguns da própria empresária Lia Maria Aguiar, uma parte do museu e, a grande maioria, de Goshima.

carde

Para o sócio fundador responsável pela gestão dos fundos (CIO) da Meraki, Roberto Reis, existe uma diferença crucial entre obras de arte e carros clássicos que torna o antigomobilismo atraente como investimento alternativo.

“A arte tem geralmente um fator de interesse regional e local. Já uma Ferrari clássica, com história, desperta desejo em qualquer lugar do mundo. É uma reserva de valor significativa”, diz Reis.

Os leilões privilegiam modelos clássicos de marcas como Ferrari e Porsche, mas o executivo enfatiza que o grande valor geralmente reside no que está por trás do carro: se ele transportou alguma celebridade, como um rei ou um Papa, ou participou de momentos marcantes da história. “A escassez dos carros colecionáveis resulta nessa reserva de valor”, diz.

Com a expertise da Meraki no segmento de filantropia, a gestora avalia a gestão de recursos de outras entidades assistenciais.

“É um segmento carente de gestão financeira especializada. Assim como realizamos para a Fundação Lia Maria Aguiar, é preciso ter uma gestão próxima, capaz de entender as demandas específicas de cada fundação ou entidade assistencial, para podermos criar fundos de longo prazo que sejam customizados, com desempenho sólido”, diz o CIO da gestora.

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