Seth Klarman e Man Group, maior hedge fund listado, apostam em ‘barganhas’ no Brasil

Incursão de gigantes globais no país evidencia a magnitude da turbulência que atingiu o mercado de títulos corporativos do país, marcado por rebaixamentos de até oito níveis nos ratings de crédito e quedas abruptas nos preços dos ativos

O investidor Seth Klarman disse que vê oportunidades em ativos estressados no crédito corporativo no Brasil (Foto: Jeenah Moon/Bloomberg)
Por Vinícius Andrade - Giovanna Bellotti Azevedo

Bloomberg — O renomado investidor Seth Klarman deu uma resposta surpreendente em uma conferência neste mês ao ser questionado sobre onde vê oportunidades em ativos estressados.

O primeiro exemplo que ele deu à plateia em Nova York não foi uma empresa de software americana pressionada, nem uma operação de private credit mal-sucedida. Foi crédito corporativo no Brasil, onde os custos de financiamento, próximos dos níveis mais altos em duas décadas, têm pressionado os balanços.

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O CEO da Baupost Group, gestora que tinha US$ 22 bilhões em janeiro e é conhecida por alguns de seus investimentos nos Estados Unidos e na Europa, citou uma empresa brasileira que foi forçada a reestruturar sua dívida.

Além de deter a dívida da empresa, cujo nome não foi revelado, Klarman disse que uma eventual fraqueza nos papéis resultantes da reestruturação poderia se tornar “uma potencial fonte de oportunidade adicional.”


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A incursão de Klarman em busca de barganhas no Brasil evidencia a magnitude da turbulência que atingiu o mercado de títulos corporativos do país, marcado por rebaixamentos de até oito níveis nos ratings de crédito e quedas abruptas nos preços dos ativos.

O Man Group, maior hedge fund listado em bolsa do mundo, também destacou as dificuldades no Brasil ao afirmar que vem encontrando oportunidades em títulos corporativos da América Latina.

“A América Latina se destaca para nós como um foco de valor particularmente atraente”, escreveu a empresa, que administra mais de US$ 200 bilhões, em nota publicada em meados de junho. Segundo a gestora, os defaults entre emissores brasileiros de maior porte parecem idiossincráticos, e não precursores de um estresse mais amplo.

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O Man Group tem aproveitado as distorções de mercado no Brasil, especialmente no setor de óleo e gás, ao mesmo tempo em que encontrou oportunidades nos setores de utilidades públicas, manufatura, materiais básicos e transporte nos últimos meses, segundo o gestor Kaushik Rambhiya.

O Brasil se beneficiou “dos preços elevados do petróleo no primeiro semestre do ano, o que nos levou a identificar oportunidades em uma série de empresas ligadas ao setor de energia, muitas vezes negociadas em níveis elevados [de spread] ou de estresse”, disse Rambhiya.

Teste para investidores

Apesar dos níveis atraentes, investidores em crédito brasileiro têm sido repetidamente postos à prova por colapsos corporativos e disputas judiciais que alguns consideram frequentemente hostis aos credores.

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Desde uma onda de defaults iniciada pela Americanas em 2023, gestores locais passaram a adotar uma postura mais cautelosa e continuaram privilegiando ativos de menor risco, ajudando a manter os spreads de papéis AAA excepcionalmente apertados.

Leia também: Fluxo estrangeiro arrefece e trava rali da bolsa brasileira com saída de R$ 14,9 bi

Klarman, por sua vez, continua sendo um dos value investors mais acompanhados do mercado — exemplares usados de um livro que escreveu sobre o tema são anunciados por milhares de dólares na internet.

O desempenho da Baupost melhorou desde 2024, quando reduziu seu quadro de funcionários e concentrou esforços em estratégias como dívida estressada e special situations, que historicamente estiveram entre suas maiores fontes de retorno.

O fundo subiu 14% em 2025, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto que pediu anonimato para discutir informações não públicas.

Klarman, cuja empresa tem sede em Boston, não comentou suas declarações em mais detalhes por meio de um porta-voz.

Outras gestoras também estão alocando capital em emissores brasileiros.

A Elliott Investment Management e a Strategic Value Partners compraram recentemente dívida da Braskem, garantindo um lugar à mesa nas negociações da petroquímica com seus credores.

Leia também: Temores de crédito e alta do petróleo abalam emissões de títulos corporativos no Brasil

A empresa está discutindo um plano para reestruturar seu endividamento após a desaceleração do setor e um desastre ambiental que comprometeu seu balanço.

As gestoras adquiriram de credores atuais fatias da linha de crédito rotativo da Braskem.

A Elliott, por sua vez, também acumulou posições em parte dos títulos internacionais da empresa, informou a Bloomberg na semana passada.

Os investimentos vêm na esteira de uma série de reveses envolvendo nomes de peso — entre eles Braskem e a produtora de biocombustíveis Raízen — que impuseram perdas aos investidores e abalaram a confiança em segmentos do mercado de crédito corporativo brasileiro.

As consequências desses episódios se somam às preocupações geradas pela forte liquidação do ano passado, quando os problemas envolvendo a Ambipar e a Braskem desencadearam uma saída generalizada de investidores da classe de ativos.

Embora o mercado tenha concluído que se tratava de problemas específicos de cada empresa, a Braskem continua sob pressão.

A dívida corporativa brasileira ficou atrás do desempenho mais amplo dos mercados emergentes nos últimos 12 meses, com retorno médio de 1%, ante pouco mais de 5% do índice de referência.

Leia também: Fuga de títulos da Raízen e da CSN reacende temor sobre dívida corporativa brasileira

Ao mesmo tempo, as emissões de títulos corporativos brasileiros em moeda forte perderam fôlego: somaram apenas US$ 2 bilhões em maio, bem abaixo dos quase US$ 7 bilhões registrados em janeiro, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Embora os problemas dessas empresas brasileiras de destaque não sejam considerados uma ameaça sistêmica, o setor corporativo do país segue sob forte pressão.

Em abril, um número recorde de 9 milhões de empresas estava inadimplente, segundo dados da Serasa Experian. A maior parte do impacto recai sobre as companhias menores, já que os juros de dois dígitos dificultam o refinanciamento de dívidas.

Na UBS Asset Management, Shamaila Khan adota uma postura cautelosa em relação aos títulos corporativos brasileiros de alto rendimento. Segundo ela, a taxa básica de juros de 14,25% do país é “insustentável” e deve continuar pressionando as empresas.

Ainda assim, a venda forçada de papéis de algumas companhias criou oportunidades, afirmou Khan, chefe de renda fixa para mercados emergentes globais e Ásia-Pacífico da gestora.

“Estávamos menos otimistas em relação ao crédito corporativo brasileiro, mas isso não significa que não tenhamos encontrado valor”, disse. “Aproveitamos taticamente algumas dessas oportunidades.”

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