Bloomberg — Ron Rosano é um dos turistas espaciais mais dedicados do mundo.
Administrador imobiliário de 65 anos de São Francisco, ele realizou uma breve viagem a bordo de um avião espacial da Virgin Galactic Holdings em 2023 e, até recentemente, esperava voar a mais de 96 km acima da Terra em um dos foguetes New Shepard da Blue Origin, fundada por Jeff Bezos.
Rosano teve que mudar seus planos, porém, após uma decisão inesperada da Blue Origin em janeiro de suspender os voos turísticos por nada menos que dois anos. Rosano está decepcionado. “Eu tinha imaginado um cenário bem grandioso do que isso poderia significar para mim”, disse ele. “Ver a Terra dessa perspectiva: é uma lição de humildade. É algo que muda a vida.”
Empresas como a Virgin Galactic e a Scaled Composites previram um mercado em expansão para o turismo espacial quando, no início dos anos 2000, anunciaram que lançariam seres humanos ao espaço suborbital.
O turismo espacial se tornará uma “indústria multibilionária”, disse Eric Anderson, cofundador da empresa de exploração espacial Space Adventures, em uma edição de 2003 da revista Space Times.
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Agora, o setor está em crise. Além de a Blue Origin ter suspendido os voos, a Virgin Galactic, de Richard Branson, não voa desde junho de 2024, enquanto trabalha no desenvolvimento de sua nova espaçonave Delta.
A Virgin Galactic divulgará seus resultados financeiros do quarto trimestre e do ano inteiro de 2025 em 30 de março. O preço das ações da empresa caiu mais de 98% desde sua estreia em outubro de 2019, por meio de uma fusão com uma entidade listada na bolsa.
“O turismo espacial ainda não se concretizou como um mercado. É verdade que tivemos várias missões patrocinadas por turistas, mas elas foram limitadas e não observamos uma demanda recorrente por elas”, afirmou Dana Weigel, gerente do programa da Estação Espacial Internacional da Nasa, durante uma apresentação realizada em 24 de março em Washington.
Entre os problemas estão a demanda limitada e a tecnologia que leva anos para ser ampliada, mesmo com o mercado potencial sendo restrito, disse Eric Zhu, analista aeroespacial e de defesa da Bloomberg Intelligence.
“O problema fundamental é a escalabilidade e o custo”, disse ele. “O setor tem como alvo uma fatia extremamente restrita de indivíduos com patrimônio líquido altíssimo, mas mesmo esse grupo não gera negócios recorrentes.”
Longa espera
A Virgin Galactic já enviou 31 passageiros ao espaço e a Blue Origin, 98 (seis dos quais voaram duas vezes), incluindo uma tripulação inteiramente feminina que voou no ano passado com Katy Perry, a âncora da CBS News Gayle King e a esposa de Jeff Bezos, Lauren Sánchez Bezos. Esse voo gerou uma reação negativa online depois que Perry cantou durante o voo e beijou o solo ao retornar à Terra.
O primeiro turista espacial, Dennis Tito, voou a bordo de uma nave Soyuz em 2001. Foguetes russos levaram nove passageiros comerciais ao espaço, mas nenhum desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia em fevereiro de 2022.
A Roscosmos, equivalente russo da NASA, quer retomar os voos turísticos para uma estação espacial russa em projeto, mas o “estigma” da viagem de Perry ainda não diminuiu, afirmou Robert English, diretor de estudos da Europa Central da Universidade do Sul da Califórnia.
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O voo “foi um alvo óbvio para os críticos”, disse ele, “porque você beija a Terra depois de sobreviver a uma jornada longa, angustiante e heróica — não após uma breve viagem de ônibus de um bilionário”.
A Virgin Galactic espera lançar o primeiro voo de teste de sua espaçonave Delta até o final de 2026.
Em resposta a um pedido de comentário, a empresa se recusou a divulgar preços de passagens ou outras informações antes do próximo anúncio de resultados. Anteriormente, a Virgin Galactic cobrava cerca de US$ 600 mil por assentos na nova espaçonave.
Os preços da Blue Origin não estão disponíveis ao público, mas Craig Curran, presidente do DePrez Group of Travel Companies em Rochester, Nova York, estima um preço de passagem de aproximadamente US$ 1,5 milhão a US$ 2 milhões.
“Na verdade, não existe um mercado de turismo espacial suborbital no momento”, disse ele. “Em termos de ter um produto real, estamos em uma fase de esperar para ver até que a Virgin Galactic entre em operação.”
Branson afirmou que deseja preencher a lacuna deixada pela Blue Origin.
“O lançamento espacial previsto para o final deste ano será realmente importante, especialmente agora que a Blue Origin parece ter desistido de levar pessoas ao espaço”, afirmou Branson em 4 de março, durante uma transmissão ao vivo para uma conferência espacial em Londres.
A Blue Origin não declarou que encerrou suas atividades no turismo espacial.
“Acho que provavelmente voltaremos a esse negócio, mas, neste momento, faz mais sentido nos concentrarmos na Lua”, disse Dave Limp, CEO da Blue Origin, em 17 de fevereiro, na Defense Tech Summit em West Palm Beach, Flórida.
Respondendo a um pedido por comentários, a Blue Origin se referiu a um comunicado à imprensa sobre a pausa do New Shepard.
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Preenchendo a lacuna
Empresas chinesas anunciaram planos para investir no turismo espacial. A Beijing Interstellar Human Spaceflight Technology pretende levar turistas ao espaço em 2028 pelo preço de 3 milhões de yuans (cerca de US$ 430 mil). A fabricante de foguetes e prestadora de serviços de voo CAS Space Technology tem como meta realizar voos tripulados de turismo espacial até 2029, segundo a empresa.
“Elas estão sinalizando ‘vamos competir’”, disse Rachel Fu, professora do departamento de turismo, hotelaria e gestão de eventos da Universidade da Flórida.
O setor ainda pode passar por um renascimento se a SpaceX, de Elon Musk, tiver sucesso com a Starship, seu enorme foguete reutilizável atualmente em desenvolvimento. A Starship poderia reduzir o custo de colocar uma pessoa em órbita em 90%, segundo Fu.
“O turismo espacial nunca teve a intenção de permanecer como um produto de luxo de nicho”, disse ela. “O pequeno grupo inicial de clientes funciona como uma ponte financeira e tecnológica rumo a um objetivo de longo prazo: reduzir o custo do acesso ao espaço e expandir a atividade comercial para além da Terra.”
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