Opinión - Bloomberg

Discriminação por idade no Citigroup: recurso pode reverter sentença

Ex-funcionário terá que provar seu caso novamente depois que tribunal sugeriu que a idade de seu substituto poderia ser relevante

Citigroup
Tempo de leitura: 4 minutos

Bloomberg Opinion — Se você já assistiu ao clássico de Oliver Stone de 1987, Wall Street – Poder e Cobiça, já viu a cena em que um corretor chamado Dan é demitido supostamente por “não ter batido a meta”. Sua idade não é mencionada, mas a saída de Dan, já grisalho, implica que ele é considerado muito velho para seu cargo. A mensagem fica ainda mais evidente quando o jovem corretor Bud Fox, interpretado por Charlie Sheen, ganha uma nova sala.

A cena vem à mente na esteira das manchetes sobre Niels Kirk, diretor administrativo do Citigroup (C) que processou a empresa por discriminação de idade após sua demissão. Um tribunal de recursos do Reino Unido anulou recentemente a decisão do tribunal do trabalho de cerca de US$ 3,2 milhões a Kirk e o caso será ouvido de novo. Independente do que acontecer em última instância, o litígio chama a atenção para a forma como os preconceitos sobre a idade permanecem em todas as profissões em geral – e principalmente no mundo das finanças.

Assim como no Reino Unido, os Estados Unidos, o Brasil e grande parte do mundo proíbem a discriminação contra trabalhadores mais velhos. Mesmo assim, essa discriminação parece estar arraigada na cultura das finanças. Apesar de os insiders terem se rebelado contra a tendência, os banqueiros e principalmente os traders reclamam há muito que uma “crescente discriminação por idade” força uma aposentadoria prematura.

LEIA +
Chamar homens de ‘careca’ não é assédio sexual – ponto

É por isso que o caso decidido em março de 2020 sobre um processo de discriminação por idade contra a PricewaterhouseCoopers é tão significativo. A quantia envolvida – US$ 11,6 milhões – é trivial, visto que, após a dedução dos honorários advocatícios, a soma deveria ser dividida entre cerca de 5 mil indivíduos. Importa muito mais a promessa da PwC de considerar candidatos com mais de 40 anos de idade para cargos básicos. Essa concessão não é nada pequena. O acordo possivelmente vai quebrar o elo entre percepção de idade e percepção de capacidade. Não é preciso ser jovem para ser ambicioso e sedento.

PUBLICIDADE

Para ter certeza, os profissionais mais velhos e mais jovens do setor financeiro muitas vezes diferem. Por exemplo, conforme os banqueiros envelhecem, sua tolerância ao risco tende a diminuir. Mas muitas vezes uma maior preocupação com o risco é uma qualidade positiva. Além disso, as leis contra a discriminação existem, entre outros motivos, para evitar a aplicação injusta de médias a casos individuais.

É claro que sabemos sobre as histórias de gigantes que não conseguem admitir o enfraquecimento de seus poderes. Por outro lado, muitos de nós também teve a sorte de conhecer mentes brilhantes que continuam atinadas aos 80 ou 90 anos.

LEIA +
Quase 50% dos profissionais negros querem deixar seus empregos no Reino Unido

Voltemos à denúncia de Niels Kirk contra o Citigroup.

PUBLICIDADE

A decisão original do tribunal do trabalho contra a empresa baseou-se fortemente em provas de que o supervisor de Kirk se referiu a ele como “velho e acomodado” e enfatizou a necessidade de alguém mais “ágil” no cargo. Não dá para imaginar um estereótipo mais cruel e banal. O supervisor de Kirk negou ter feito esse comentário, mas o tribunal do trabalho considerou o ocorrido como fato e o tribunal de recursos não contestou a conclusão.

Contudo, o tribunal arbitral de recursos decidiu que o tribunal do trabalho não havia ponderado suficientemente o fato de que, embora na época dos eventos Kirk tivesse 55 anos, seu substituto tinha 51 anos e a maioria dos banqueiros seniores do escritório tinha mais de 50 anos. O tribunal arbitral orientou o tribunal do trabalho a considerar as evidências de que os supervisores consideravam que Kirk e seu substituto estavam na mesma faixa etária.

Como esta evidência pode ser relevante se os supervisores tivessem de fato feito os comentários alegados por Kirk? De acordo com o tribunal arbitral de recursos, chamar alguém de “acomodado” ou insuficientemente “ágil” não é necessariamente declarar um preconceito; um trabalhador mais jovem pode ter as mesmas características. O que o tribunal arbitral não mencionou (mas talvez deveria ter mencionado) foi que, assim como muitos outros vieses, os pesquisadores tiveram dificuldade em detectar nos dados uma correlação significativa entre pontos de vista estereotipados sobre a idade e discriminação com base na idade. No jargão, os preconceitos nem sempre são ativados.

LEIA +
Desigualdade de gênero global cai após pandemia adiar paridade

Por outro lado, mesmo considerando as evidências que o tribunal arbitral disse terem sido ignoradas, o tribunal do trabalho ainda poderia reiterar sua decisão em favor de Kirk. Por quê? Imagine que um funcionário alegou ter sido demitido por conta de sua etnia. O empregador responde que seu substituto tem a mesma etnia. No entanto, o empregado deve ser capaz de apresentar um caso mostrando que os membros de sua raça são julgados por padrões diferentes daqueles que o empregador aplica ao resto da força de trabalho.

PUBLICIDADE

As dificuldades que Wall Street e Nova York passaram para diversificar sua imagem como bastiões da masculinidade branca estão bem documentadas. Mas a discriminação pela idade é outro preconceito que a área financeira deve combater. E embora não seja possível adivinhar como a disputa entre o Citigroup e Kirk acabará se desenrolando, o caso serve como um lembrete de que preferir trabalhadores mais jovens a trabalhadores mais velhos é simplesmente contra a lei.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Stephen L. Carter é colunista da Bloomberg Opinion. Ele é professor de Direito na Universidade de Yale e escreveu mais recentemente o livro “Invisible: The Forgotten Story of the Black Woman Lawyer Who Took Down America’s Most Powerful Mobster”.

PUBLICIDADE

Veja mais em Bloomberg.com

Leia também

Maiores bancos dos EUA seguem contratando mesmo com recessão iminente

Há um boom na demanda por PCs com a volta ao escritório, diz CEO da Positivo