Decisão do tribunal do Reino Unido se aplica especificamente a uma discussão na qual um homem foi chamado de "careca" com o intuito de intimidar
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Bloomberg Opinion — Calma, gente. Ainda é seguro dizer “careca” no local de trabalho. Apesar das notícias em contrário, um tribunal trabalhista do Reino Unido não considerou na semana passada que usar a palavra configura assédio sexual. O que o painel fez, no entanto, foi minucioso o suficiente para persuadir as pessoas de dizer uma palavra perfeitamente boa. O linguista dentro de mim ficou em alerta.

Eis um resumo do caso: durante uma discussão desagradável sobre o conserto de máquinas no chão de fábrica, um funcionário chamou outro de “careca maldito” (com palavras menos apropriadas) e o supervisor não fez nada a respeito. O funcionário que sofreu o insulto foi posteriormente dispensado e apresentou uma queixa formal. Na semana passada, ele ganhou o processo.

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Os três membros do Tribunal do Trabalho ignoraram a palavra inapropriada. Em vez disso, eles encontraram “uma conexão entre a palavra ‘careca’ e o sexo”. Por quê? Porque os homens são muito mais propensos do que as mulheres a perder os cabelos. Assim, o insulto “criou um ambiente intimidador etc. [sic]” e “foi feito para esse propósito”.

Assim, a posição é específica, aplicando-se apenas no contexto de uma discussão calorosa em que a palavra “careca” é (1) dirigida a um homem e (2) com a intenção de intimidar. No entanto, mesmo que houvesse intimidação, é difícil imaginar que “careca” – e não a outra palavra, indelicada demais para esta coluna – fosse a fonte. Posso explicar linguisticamente.

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Embora o uso de “careca” como um insulto possa ser atribuído à Bíblia hebraica, na qual os jovens que insultam o profeta Eliseu como um “careca” acabaram sendo atacados por ursos, não encontrei nenhuma fonte que classifica “careca” como termo depreciativo ou ofensivo.

Em inglês, há um termo – “fila dos carecas” – que ficou obsoleto e que datava da década de 1880 e estava relacionado à suposta tendência dos homens mais velhos se sentarem na primeira fila de uma casa burlesca para que pudessem “admirar as mulheres”. Em 1924, o New York Times relatou que um dono de um teatro se aproveitou do estereótipo ao vender assentos perto do palco apenas para homens carecas, mas em tal padrão que aqueles sentados mais acima “poderiam distinguir claramente os contornos de um pássaro formado por os homens de cabeças brilhantes sentados e imaginando o motivo de toda aquela risada.”

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A zombaria desse tipo saiu de moda, e mesmo na época não era universal. Como observou o historiador cultural Kerry Segrave, durante o século XIX e início do século XX, havia profissões – médicos e acadêmicos, entre outros – nas quais ser careca era considerado valor agregado. Quando as revistas da época publicavam caricaturas com mestres de xadrez ou outros gênios, quase sempre eram homens sem cabelo.

Por outro lado, por qualquer motivo cultural complexo, os homens há muito se sentem desconfortáveis com a perda de cabelo. Já existe um próspero mercado de “curas” desde pelo menos o século XIX.[1] Um tratado publicado em 1917 advertia que, a menos que os médicos começassem a prestar atenção às preocupações do público, o tratamento da calvície logo se tornaria “o território do charlatão ignorante e desonesto”.

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Ainda hoje, ficar careca pode ser assustador. Cerca de dois terços dos homens com queda de cabelo desejam ter mais cabelo. Quanto mais cedo a idade em que o cabelo começa a desaparecer, maior o sofrimento psicológico – talvez porque a calvície seja amplamente considerada como evidência do envelhecimento. E esses dados são provenientes de estudos com homens.

Não é de admirar que o tratamento para a doença gere US$ 2,6 bilhões em receita anual apenas nos EUA. Novas tecnologias estão sendo aproveitadas, incluindo nanomateriais para uso em bioimpressão. É caro? E como! Mas um estudo constatou que homens que sofrem de calvície estariam dispostos a pagar uma média de US$ 30 mil por um tratamento restaurasse seus cabelos.

Além disso, não há dúvida de que os estereótipos negativos de homens com menos cabelo persistem.[2] O estranho é que esses preconceitos contribuem pouco ou nada para a discriminação salarial e não parecem afetar o comportamento mais geral em relação aos carecas. Mesmo na política, onde a imagem é considerada tão vital, os pesquisadores encontraram poucas evidências de viés eleitoral contra homens que não possuem cabelo. Talvez os estereótipos negativos sejam equilibrados pelos positivos: por exemplo, os carecas são geralmente percebidos como mais inteligentes.

“Careca” não é um insulto e nem discrimina pelo gênero. Com base apenas em sua própria experiência, os membros do tribunal concluíram que “a calvície é muito mais prevalente em homens do que em mulheres”. Esta afirmação comum está sendo cada vez mais contestada. De acordo com muitas estimativas, mais da metade das mulheres nos EUA terá uma “perda de cabelo perceptível”. Embora as mulheres geralmente sejam melhores do que os homens em esconder a doença, sua angústia tende a ser ainda maior.

Então, vejamos: “careca” não é um insulto, não é uma característica que cause desvantagem no ambiente de trabalho e não se limita aos homens. Por mais específica que tenha sido a decisão do tribunal, sua opinião sobre quase tudo parece estar equivocada.

[1] Até naquela época era uma preocupação com viés de gênero. Charles Henri Leonard, autor de obras populares sobre saúde, sugeriu em 1879 que as mulheres sofriam menos com a perda de cabelo em parte porque “estão menos sujeitas a preocupações e não aquecem a cabeça continuamente com chapéus sem ventilação”.

[2] Nem sempre. Homens que raspam a cabeça voluntariamente (em vez de perder o cabelo) são geralmente considerados mais dominantes do que homens com cabeleiras.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

Stephen L. Carter é colunista da Bloomberg Opinion. Ele é professor de Direito na Universidade de Yale e seu último romance é “Invisible: The Forgotten Story of the Black Woman Lawyer Who Took Down America’s Most Powerful Mobster.”

--Este texto foi traduzido por Bianca Carlos, localization specialist da Bloomberg Línea.

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